Arquivo de Agosto, 2006

O Poeta
Agosto 30, 2006

O Poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade… E diz assim: «É preciso saber olhar…». E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos… E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor [...]

Nosso?
Agosto 30, 2006

Nosso?
Nosso é o Mar. Nosso e renosso.
Pela dor, pela teimosia, pela esperança.
Nosso até onde a vista o não alcança.
Nosso até onde é nosso o que for nosso.
(…)
Sebastião da Gama

Mocinha do Monte / Senhora da Vila
Agosto 24, 2006

” Quando eu era mocinha, morava a menos de dois quilómetros da vila, lugar que já era considerado o monte. A vila, de que eu tanto ouvia falar, era, para mim, qualquer coisa de misterioso, de inacessível, de distante… (…)
Era o ano de 1929. Já tinha feito três anos, quando, no dia 8 de Janeiro, [...]

Um dia puro
Agosto 24, 2006

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Trabalho da Língua
Agosto 23, 2006

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.
Eugénio de Andrade

Se eu pudesse havia de…
Agosto 23, 2006

ESCREVER
Se eu pudesse havia de…
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
cada palavra seca, irressoante!
Sem música, com um gesto,
uma pancada brusca e (…).
Para quê,
mas para quê todo o artifício
cada composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não…ou sim.
E, como isto, [...]

Jorge de Sena
Agosto 21, 2006

1919 – no 2 de Novembro, nasce Jorge Cândido de Sena em Lisboa.
1932 – Inicia estudos no Liceu Camões, após transição do Colégio Vasco da Gama.
1936 – Termina os estudos liceais e entra para a Faculdade de Ciências de Lisboa, a fim de efectuar os estudos preparatórios de ingresso na Escola Naval. Inicia-se [...]

Espera
Agosto 21, 2006

Canções ecoam mansas pelos vales
e sobem as montanhas docemente
e delas adormece o solo quente
e eu sobre ele sonho a cor dos males…
Tudo está em mim à espera que tu fales…
Por essa terra fora, terra quente
só aos ecos respondem docemente
os sons cruéis que eu quero que tu cales!…
A tua voz não vem com a dos ecos…
ao [...]

Jorge de Sena – Carta para a Mécia
Agosto 21, 2006

“Lx, 19/3/49
Minha muito querida Mécia
Escrever-me-ás, como eu agora te escrevo; mas o que dizemos já não tem nem precisa de resposta. Sem ti, sabes como fico, como não sei viver, mesmo para as mínimas coisas, que todas vêm de ti, são por ti ou para ti. Saudades, sinto-as outra vez, e não são já iguais [...]

“Quanta Flor”
Agosto 20, 2006

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobe não cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de [...]