Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa [...]
Archive for Abril, 2007
Ai, Palavras!
Abril 29, 2007
Palavras
Abril 29, 2007
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio,
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
Silêncio
Abril 29, 2007
A vida que não se troca por palavras
tão íntima, tão discreta, tão secreta
(tão em contradição com o dia a dia)
faço o mal que não quero e não faço o bem que desejo:
ensejo de verificar o barro de que somos feitos.
Mas afinal nesta animal aflito
interdito por às vezes trocar as voltas do caminho
Do efémero, do frágil [...]
Neologismos
Abril 29, 2007
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento Palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar
Intransitivo:
Teadoro. Teadora.
Manuel Bandeira
Um Jogo
Abril 29, 2007
(…)
No fim de contas as palavras não serviam apenas para meter na ordem gaiatos descompostos, insultar as vizinhas linguareiras da cave ou adormecer com canções os miúdos.
Tratava-se sem dúvida dum jogo (o que há de mais sério para as crianças), mas dum jogo que também agradava às pessoas crescidas.
José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras
Viva!
Abril 29, 2007
20 de Abril de 1922
” Portugal está vivendo uma das suas horas mais belas. Estou ouvindo as salvas em Lisboa e parece que tudo rebenta dentro do meu coração. Tenho chorado, eu que nunca choro. É uma coisa extraordinária o que aqueles dois homens estão fazendo, e em Lisboa anda tudo maluco; não se descreve [...]
Ternuras do Papá
Abril 29, 2007
Lisboa, 18.4.1898
Minha querida Maria
Uma palavrinha para te mandar um grande beijo. A tua carta encantou-me. Todos pedem notícias tuas. Digo a todos que és uma encantadora menina muito querida. Teu papá
Paris, Agosto de 1898 (?)
Meu querido Zezé
Rosa voltada em direcção da janela do teu quarto chama-te para um passeio de bicicleta.
E eu mando-te um beijo.
J.
Eça [...]
L…
Abril 25, 2007
L de letras
- das letras simples
com que escrevo estes versos claros.
L de livros
- desses companheiros
em que a vida se disfarça de silêncio
e a vida não amarelece com as páginas.
L de lilás
- essa flor breve
com um cheiro azul de paz.
L de um anseio
de que está o mundo cheio;
L de um grito
que nos há-de rebentar o peito
e [...]
Cintilações do Zeca
Abril 25, 2007
” – Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Seremos alguém”
Coimbra, 25 de Abril de 1974
Abril 25, 2007
” Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas e poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada…”