António Feijó – Carta para Luís de Magalhães

“Rio Grande, 19 de Outubro, 1888

(…)
Eu estou sofrendo do mesmo mal que me tem atacado – a paixonite aguda, mas toda carnal, toda besta, como a daquele jornalista das Mensonges.

Todos os dias faço protestos de romper, de acabar por uma vez, mas chegada a hora, estupidamente, inconscientemente lá estou caído, como um animal.

Não imaginas que tortura é isto, quando a gente conserva fria e serena a razão.

Saindo eu daqui é natural que a pecadora se ausente, e que eu possa libertar-me enfim, porque atrás dela não vou. Aqui o juro aos deuses!

Ela é uma criatura desta força: fugiu ao marido com um amante, e o marido que ia morrendo de paixão, continua passados 5 anos a namorá-la e a requestá-la, com uma ternura que faz dó.

O amante, sabendo-se ultimamente corneado, tentou abandoná-la e fugiu para a Baía, mas não pode resistir e voltou. Chegado aqui, e reconhecendo-se vergonhosamente enfeitado por mim, fugiu de novo (…) perdido de amores ainda.

Ficou só, e por isso caiu-me inteiramente nos braços. Mas ao cabo de dois meses reconheci que estava vítima como os outros! Abençoei aqueles cornos que me caíam do céu, como a Redenção, e procurei encontrar-me com o inimigo em casa dela, para romper. Assim aconteceu, mas imagina o meu espanto, quando vejo o meu competidor, um velho de longas barbas brancas. Fiquei horrorizado e fugi!

(…) mais tarde (…) encontrei-a à minha porte, com uma criada, dizendo-me que se não a mandasse entrar faria um escândalo de acordar toda a vizinhança (…).

Em cima foram prantos, súplicas, etc. Dizendo-me (…) que não queria receber de mim um vintém, porque eu era simplesmente o seu querido. Resisti, praguejei. Fiz de tirano. Mas não houve meio. (…)

Ora aí tens o inferno em que me encontro, De mais a mais é bonita e perfeita. Tem 26 anos e é o corpo mais doce e flexível que a minha língua tem saboreado. Lastima-me.

Adeus. Recomenda-me a todos os teus. Como vão os teus pequerruchos?

Dá notícias tuas para aqui ao teu amigo do coração

Feijó”

António Feijó (Ponte de Lima, 1/6/1859 – Estocolmo, 20/6/1917)
Poeta e diplomata, fundador da Revista Científica e Literária com Luís de Magalhães – 1880, Coimbra -, colaborador nas revistas Arte, A Ilustração Portuguesa, O Instituto, Novidades, Museu Ilustrado, licenciado em Direito.

Luís de Magalhães (Lisboa, 13/9/1859 – Porto, 14/12/1935)
Poeta, prosador, fundador de revistas, entre elas, a Revista Científica e Literária com António Feijó, e tertúlias, licenciado em Direito, amigo dos grandes nomes da Geração de 70, secretario de Eça, governador civil de Aveiro, Ministro dos Negócios Estrangeiros, reunia os intelectuais da época na sua Quinta do Mosteiro da Moreira da Maia.

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