Bate, pilão, bate,
que o teu som é o mesmo
desde o tempo dos navios negreiros,
de morgados,
das casas-grandes,
e meninos ouvindo a negra escrava
contando histórias de florestas, de bichos, de encanta-
[das…
Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e a casa-grande perdeu-se,
o branco deu aos negros cartas de alforria
mas eles ficaram presos a terra por raízes de suor…
Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
desde o tempo antigo
dos navios negreiros…
(Ai os sonhos perdidos lá longe!
Ai o grito saído do fundo de nos todos
ecoando nos vales e nos montes,
transpondo tudo…
Grito que nos ficou de traços de chicote,
da luta dia a dia,
e que em canções se reflecte, tristes…)
Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e em nosso músculo está
nossa vida de hoje
feita de revoltas!
Bate, pilão, bate!…
António Nunes (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 9/12/1917 – Lisboa, 14/5/1951)
Poeta, integrou o grupo neo-realista.
