Mário Cesariny – O Navio de Espelhos

Novembro 4, 2009 - Leave a Response

O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os amadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

ESTADO SEGUNDO, XXI

Ama como a estrada começa

Mário Cesariny
(Lisboa, 9/8/1923 – Lisboa, 26/11/2006)
Pintor e poeta, fundador do Movimento Surrealista Português.

Herberto Hélder – Carta para Eugénio de Andrade (excertos) – continuação

Novembro 3, 2009 - Leave a Response

“(…) Porque o século só acabou agora, devo citar os únicos dois outros poetas que, para além dos citados, mas nenhum deles atingindo deveras a sua (de você) altura, que me interessam: Luiza Neto Jorge e Fernando Assis Pacheco.

Claro que tudo isto é pessoal, mas se sairmos do “pessoal” aonde vamos dar? Àquilo que os outros dizem, à opinião estabelecida, ao que se convencionou.

E voltemos a si: poema a poema, verso a verso, com os intervalos necessários para tudo se adentrar em mim e ressoar, li-o de seguida , li-o como deve ser, como poucas vezes tenho lido um poeta, e você saiu maior – embora evidentemente eu já o soubesse grande – do que era. (…)”

(continua)

Herberto Hélder (Funchal, 23/11/1930)
Poeta, ficcionista, jornalista, bibliotecário, tradutor, apresentaddor de programas de rádio e de televisão.

Gentílicos ou Pátrios de: Gafanha, Gerês, Goa, Guarda, Guimarães, Guiné

Novembro 3, 2009 - Leave a Response

Gentílicos ou pátrios são nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.
Eis alguns, nacionais:

Gafanha ____________gafanhão

Gerês_______________geresiano, geresão, geresino, geresano

Goa ________________ goano, goense, goês

Guarda _____________ guardense, egitaniense, egitaniano, egitanense

Guimarães __________ vimaranense

Guiné ______________ guineense, guinéu

(continua)

Herberto Hélder – Carta para Eugénio de Andrade (excertos)

Novembro 1, 2009 - Leave a Response

26/12/2000

Cascais

Muito caro Eugénio

Li a sua “Poesia”, li e reli vagarosa e minuciosamente, e a impressão geral é de que não há nenhum poeta português que possa ombrear consigo neste meio século (…). Talvez o Cesariny e a Sophia se aproximem de si, mas seria necessário, tanto a um como a outro, eliminar vários poemas.
Quanto a si, não existe um só verso qued eva ser eliminado.

No que chamarei de “ciência artesanal”, só vejo o Carlos de Oliveira da segunda fase com alguma possibilidade de eventualmente ser comparado consigo. Nemésio, que considero um poeta enorme, possui, quanto a essa “ciência artesanal”, algo que é menos isso do que uma estonteante agilidade filológica e uma perigosa facilidade verbal e versificatória – nem sempre se aguenta bem com estes dotes. (…)”

(continua)

Herberto Hélder (Funchal, 23/11/1930)
Poeta, ficcionista, jornalista, bibliotecário, tradutor, apresentador de programas de rádio e de televisão.

Carlos Drummond de Andrade – Poema Autógrafo

Novembro 1, 2009 - Leave a Response

Isabel da Nóbrega – A Escrita e a Leitura

Novembro 1, 2009 - Leave a Response

“Sempre me lembro de mim ligada à escrita. Aos nove anos escrevi um romance sob a forma de cartas. Lia muito… as pessoas que não são capazes de ler são mais pobres do que as outras. A vibração passa-lhes à margem.”

Isabel da Nóbrega (Lisboa, 1925)
Pseudónimo de Maria Isabel bastos Gonçalves.
Romancista, dramaturga, contista, cronista, jornalista e tradutora.

José Gomes Ferreira – A Minha Tragédia

Novembro 1, 2009 - Leave a Response

A minha tragédia é esta
Ser muitos e andar a viver apenas um destino.

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova-, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Saúl Dias – Junho

Novembro 1, 2009 - Leave a Response

Viver com os outros
Ouvir a voz dos outros
Sentir o calor dos outros
Há beleza em tudo
desde que haja vida
mesmo sumida
num disfrace de entrudo
E, em nós tanto calor
A fresca noite entrou
É Junho, amor!

Saul Dias (Vila do Conde, 1/11/1902 – Vila do Conde, 1983)
Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira
Irmão de José Régio, poeta, pertenceu ao Movimento da Presença, colaborador em vários jornais, desenhador e pintor – assinava as suas obras com o nome próprio -, engenheiro civil.

Espaço de Trabalho de Camilo Castelo Branco na sua Casa em S. Miguel de Ceide

Novembro 1, 2009 - Leave a Response

Carlos Nejar – Escrever Poesia

Outubro 30, 2009 - Leave a Response

“Escrevo talvez para comunicar-me além das palavras, quando o pensamento e o coração se aliam, o visível se harmoniza com o invisível.

Talvez para buscar um sentido no universo que o sortilégio das palavras esconderia.

Talvez par a revelação que caísse como um raio no texto e o iluminasse.

Talvez por que seja indispensável exprimir os que não têm rosto ou voz e a palavra é um espelho colectivo.

Talvez por estar vivo, sofrendo e amando. Ou veja na linguagem uma janela possível para vislumbrar o rosto de Deus.

Talvez por razões que ainda ignore e as palavras, aos poucos, vão ajudar a desvendar.

Carlos Nejar (Brasil, Porto Alegre, 11/1/1939)
Poeta, ficcionista, tradutor, crítico, membro da Academia Brasileira de Literatura, conhecido por “poeta do pampa brasileiro”.