António Patrício – [De Que Me Rio Eu?]

Julho 1, 2018 - Leave a Response

 

De que me rio eu?… Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.

 

António Patrício (Porto, 7/3/1878 – Macau, 4/6/1930)
Poeta, dramaturgo, contista, colaborador em revistas, médico e diplomata.

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Antero de Quental – [A rêverie da Saudade…]

Junho 17, 2018 - Leave a Response

 

” (…) a rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como hera para os muros que veste e abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais bem ligadas, abrindo-as, deslocando-as.

Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína – uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão”.

 

Breve excerto de uma carta a António de Azevedo Castelo Branco, 1867

 

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político. Licenciado em Direito.

Ruy Belo – [Ouve o Tempo…]

Junho 17, 2018 - Leave a Response

 

“…ouve o tempo passar escuta a sua voz…”

BELO, Ruy, Toda a Terra, 1976

 

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Vinicius de Moraes – Poética (I)

Junho 16, 2018 - Leave a Response

 

De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo.

 

A oeste a morte

Contra quem vivo

Do sul cativo

O este é meu norte.

 

Outros que contem

Passo por passo:

Eu morro ontem

 

Nasço amanhã

Ando onde há espaço:

Meu tempo é quando.

 

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Jorge Barbosa, Irmão

Junho 16, 2018 - Leave a Response

 

Cruzaste Mares
na aventura da pesca da baleia,
nessas viagens para a América
de onde às vezes os navios não voltam mais.

Tens as mãos calosas de puxar
as enxárcias dos barquinhos no mar alto;
viveste horas de expectativas cruéis
na luta com as tempestades;
aborreceu-te esse tédio marítimo
das longas calmarias intermináveis.

Sob o calor infernal das fornalhas
alimentaste de carvão as caldeiras dos vapores,

em tempo de paz
em tempo de guerra.

E amaste com o ímpeto sensual da nossa gente
as mulheres nos países estrangeiros!

Em terra
nestas pobres Ilhas nossas
és o homem da enxada
abrindo levadas à água das ribeiras férteis,
cavando a terra seca
nas regiões ingratas
onde às vezes a chuva mal chega
onde às vezes a estiagem é uma aflição
e um cenário trágico de fome!
Levas aos teus bailes
a tua melancolia
no fundo da tua alegria,
quando acompanhas as Mornas com as posturas
graves do violão
ou apertas ao som da música crioula
as mulheres amoráveis contra o peito.
(A Morna…
parece que é o eco em tua alma
da voz do Mar
e da nostalgia das terras mais ao longe
que o Mar te convida,
o eco da voz da chuva desejada,
o eco
da voz interior de nós todos,
da voz interior da nossa tragédia sem eco!
A morna…
tem de ti e das coisas que nos rodeiam
a expressão da nossa humildade,
a expressão passiva do nosso drama,
da nossa revolta,
da nossa silenciosa revolta melancólica!)

A América…
a América acabou-se
para ti.
Fechou as portas à tua expansão!

Essas aventuras pelos Oceanos
já não existem.
Existem apenas
nas histórias que contas do passado,
com o canhoto atravessado na boca
e risos alegres
que não chegam a esconder
a tua
melancolia.

O teu destino…
O teu destino
sei lá!
Viver sempre vergado sôbre a terra,
a nossa terra,
pobre
ingrata
querida!

Ser levado talvez um dia
na onda alta de alguma estiagem!
como um desses barquinhos nossos
que andam pelas Ilhas
e o Oceano acaba também por levar um dia!
Ou outro fim qualquer humilde
anónimo…

Oh Cabo-Verdeano humilde
anónimo
— meu irmão!

 

BARBOSA, Jorge,  Ambiente, 1941

(Transcrito de: Cadernos de Poesia)

 

Jorge Barbosa (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 25/5/1902 -Cova da Piedade, 6/1/1971)
Poeta, colaborador em revistas e jornais, um dos fundadores da Revista Literária Claridade, pioneiro da poesia cabo-verdiana.

João José Cochofel – Sensibilidade

Junho 16, 2018 - Leave a Response

 

Que sensibilidade me sobe

da passada adolescência?

Que agudeza dos sentidos

me perturba a consciência?

 

Surge do desencanto

um mundo a que me abandono.

Tranquilo e caricioso

como um sol de Outono.

 

A cor, a luz, as formas,

sinto-as de coração novo!

Em tudo desconheço

uma experiência que renovo.

 

Como quem sai

duma longa doença,

deslumbrado e comovido

pela convalescença.

 

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (Coimbra, 17/07/1919 – Lisboa, 14/03/1982)
Poeta, ensaísta, crítico literário e musical, colaborador em várias revistas: Altitude, Cadernos do Meio-Dia, Vértice, Presença, Seara Nova, integrou a geração neo-realista coimbrã e a organização do Novo Cancioneiro(1941), foi diretor da Academia dos Amadores de Música de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Organizou e dirigiu o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, desde o início da sua publicação, em 1971.
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

José Régio – Ter ou não ter ou Os Amigos

Junho 16, 2018 - Leave a Response

 

Triste!, estou hoje triste!, e despeitado

Com todos e comigo:

Por qualquer vão conflito imaginado,

Perdi um meu querido amigo

De há muitos anos.

– De há muitos anos, dizes?!

Como os patetas são felizes!:

Ainda podem ser enganados,

E tristes desenganados.

Pois um amigo é cousa que se perca,

Se adquira, troque, venda, merca,

Um amigo querido e tido longos anos…?

– Sim, tens razão!

Nós julgamos perder

Mal se nos abre a mão;

Mal a fechamos que julgamos ter.

Somos bem débil gente!

Dificilmente

Podemos encarar a nossa solidão,

Ou ver que só perdemos

O que jamais tivemos.

 

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, fundador da revista Presença com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica, professor.

Afonso Duarte – Cantar de Solidão

Junho 15, 2018 - Leave a Response

 

Enchem-se-me os olhos d´água;

Mergulho que nunca dá superfíceis;

Águas tão fundas, eu sei!

– A raiz da Árvore da vida,

Só, nela vai mergulhar;

Águas tão fundas, eu sei,

Que nem as águas do mar,

Enchem-se-me os olhos d´ água.

 

Enche-me a Noite: Tristeza

Do Escuro, da Imensidão;

Perdi tôda a comunhão

Com os homens da Superfície;

Enche-se-me os olhos d´ água,

Funduras d´ água sem chão.

 

In Cadernos de Poesia

 

Afonso Duarte (Ereira, freguesia de Verride, concelho de Montemor-o-Velho, 1/1/1884 – Coimbra, 5/3/1958)
Poeta, professor, pedagogo e lavrador, licenciado em Ciências Físico-Naturais.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Haiti; Honduras; Hong Kong; Hungria; Iémen; Ilha Christmas; Ilha Norfolk; Ilhas Caimão; Ilhas Cocos

Junho 10, 2018 - Leave a Response

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Haiti ——————————————————– haitiano

Honduras ———————————————— hondurenho

Hong Kong ———————————————- honconguês

Hungria ————————————————— húngaro

Iémen —————————————————— iemenita

Ilha Christmas —————————————- da Ilha Christmas

Ilha Norfolk ——————————————– da Ilha Norfolk

Ilhas Caimão —————————————— caimanês

Ilhas Cocos ——————————————— das Ilhas Cocos

(continua)

Fernando Dacosta – “Viver com Gentileza” (continuação)

Junho 10, 2018 - Leave a Response

 

“(…) Bastou pegar em malas, embarcar num paquete para tudo (me) desaparecer. Tinha três anos. Depois foi o desembarcar em Lisboa, o apanhar camionetas, ronronar estrídulo a caminho dos planaltos interiores, o desfazer da bagagem na casa de granito e telha, cheirando a feno e a maçãs.

Estava noutro continente, noutro hemisfério, noutro clima,  a neve e o frio cobriam os campos, as pessoas moviam-se depressa, deslizante, capotes de palha, tamancos de ferragens, não havendo, sob os seus invólucros e e o meu espanto, pretos, alguns eram mesmo loiros, com olhos e palavras azuis.

As escolas primárias sucederam-se-me (Segões, Folgosa) vidros partidos, inexistência de casa de banho, de aquecimento, cinco graus negativos enfrentados com minúsculas escalfetas levadas de casa.

Salvou-me a biblioteca da família, resistente num mirante aconchegado de sol e flores. Sol e flores imergiram-me então saídos dos livros de Camilo, Eça, António Vieira, Júlio Dinis, Victor Hugo, Salgari, Odete de Saint-Maurice, Garrett, Torga, Ferreira de Castro, Aquilino (amigo do meu avô) (…)

O Liceu de Lamego (estabelecimento para onde mandavam, pela sua interioridade, os professores incómodos ao regime) elevou-me a outro tempo. Vi no palco do deslumbrante Teatro Ribeiro Conceição da cidade, Vasco Santana, Laura Alves, Amália, Irene Isidro. E cinema: Deborah Kerr, Stewart Granger, Gary Cooper, Ava Gardener, Sophia Loren, Ana Magnani faziam-se deuses no seu écran.

A literatura, as artes, a história, a filosofia, a política tornaram-se, graças a essa iniciação, linhas determinantes na minha natureza anarca e transgressora. (…)”

In JL, “Autobiografia”, 17 – 30 Agosto 2005

(continua)

 

Fernando Dacosta (Luanda, 12/12/1945)
Jornalista, romancista, dramaturgo, contista, licenciado em Filologia Românica.