Chico Buarque – Mar e Lua

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

Amaram o amor urgente

As bocas salgadas pela maresia

As costas lanhadas pela tempestade

Naquela cidade

Distante do mar

Amaram o amor serenado

Das noturnas praias

Levantavam as saias

E se enluaravam de felicidade

Naquela cidade

Que não tem luar

Amavam o amor proibido

Pois hoje é sabido

Todo mundo conta

Que uma andava tonta

Grávida de lua

E outra andava nua

Ávida de mar

 

E foram ficando marcadas

Ouvindo risadas, sentindo arrepios

Olhando pro rio tão cheio de lua

E que continua

Correndo pro mar

E foram correnteza abaixo

Rolando no leito

Engolindo água

Boiando com as algas

Arrastando folhas

Carregando flores

E a se desmanchar

E foram virando peixes

Virando conchas

Virando seixos

Virando areia

Prateada areia

Com lua cheia

E à beira-mar

 

Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19/6/1944)
Músico, dramaturgo e escritor.

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Casimiro de Brito – Fuga

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

Alto estou a teu lado

no verão deitado

 

Alto no esplendor de possuir-te

e trocarmos silenciosamente

os frutos mais fundos da morte

 

Como se navegasse um rio

por dentro

e na tua fragilidade encontrasse

a minha força

 

Um caminho rigoroso de silêncio

Casimiro de Brito (Loulé, 14/1/1938)
Poeta, ensaísta e ficcionista.

Carlos Drummond Andrade – A Máquina do Mundo

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

Carlos Drummond Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia

Carlos de Oliveira – Elegia de Coimbra

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

Gela a lua de março nos telhados

e à luz adormecida

choram casas e os homens

nas colinas da vida.

 

Correm as lágrimas ao rio,

a esse vale das dores passadas,

mas choram as paredes e as almas

outras dores que não foram perdoadas.

 

Aos que virão depois de mim

caiba em sorte outra herança:

o oiro depositado

nas margens da lembrança.

 

Carlos de Oliveira (Belém do Pará, Brasil, 10/8/1921 – Lisboa, 1/7/1981)
Poeta, romancista, cronista, coautor de Contos Tradicionais Portuguesescom José Gomes Ferreira, 1953, colaborador nas revistas: Altitude,  Seara Nova e Vértice, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Camilo Castelo Branco – Literatos!

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

Literatos! Chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha táctica!
Se acaso tendes crimes em gramática,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a prosa inflada, enfática,
Com que chorais os mortos; e o maligno
Desafecto aos que vivem… Não me indigno…
Sei o que sois em teoria e em prática.

Quando o avô desta vã literatura
Garret, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim…
Pois seis dos literatos mais magoados,
Saíram, nessa noite embriagados,
Da crapulosa tasca do Penim.

Camilo Castelo Branco (Lisboa, 16/3/1825 – S. Miguel de Seide, 1/6/1890)
Romancista, cronista, crítico, dramaturgo, poeta e tradutor.

Bernardim Ribeiro – Ante Tamanhas Mudanças

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

Antre tamanhas mudanças,
que cousa terei segura?
Duvidosas esperanças,
tão certa desaventura…

Venham estes desenganos
do meu longo engano, e vão,
que já o tempo e os anos
outros cuidados me dão.
Já não sou para mudanças,
mais quero üa dor segura;
vá crê-las vãs esperanças
quem não sabe o qu’aventura!

RIBEIRO, Bernardim, Cancioneiro Geral de Garcia de Resende

Bernardim Ribeiro (Torrão, 1482 – Lisboa, Outubro de 1552)
Poeta, novelista, introdutor do bucolismo em Portugal, colaborador no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, com que integrou a roda dos poetas palacianos, à qual também pertenciam Sá de Miranda e Gil Vicente, entre outros.

Atalívio Rito (Padre Atalívio) – A Vocação da Montanha

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

 

– Qual é a tua vocação, ó montanha?

– É ser montanha.

– E que é ser montanha?

– É ser uma parte mais da terra

elevando-me e elevando, comigo,

todos os seres que me habitam.

– Queres mudar?

– Não!

– Porquê?

–  Porque então deixaria de ser montanha.

Seria outra coisa, menos o que sou.

A minha vocação é ser uma montanha.

Além disso, se não fosse de mim,

de donde brotariam as fontes?

 

In Para Alvalade, Com Amor

 

Atalívio José Rito (Alvalade do Sado, 28/7/1948)
Escritor, colaborador em diversas publicações, sacerdote.

António José da Silva – O Cómico na sua Obra, excerto

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

– LANCEROTE – Falai a vossas primas, e minhas sobrinhas, D. Nise e D. Clóris.

– TIBÚRCIO– Eu vou a isso.

SONETO

Primas, que na guitarra da constância

Tão iguais retinis no contraponto,

Que não há contraprima nesse ponto,

Nem nos porpontos noto dissonância:

Oh, falsas não sejais nesta jactância;

Pois quando atento os números vos conto,

Nesta beleza harmónica remonto

Ao plectro da febina consonância :

Já que primas me sois, sede terceiras

De meu amor, por mais que vos agaste

Ouvir de um cavalete as frioleiras;

Se encordoais de ouvir-me, ó primas, baste

De dar à escaravelha em tais asneiras,

Que enfim isto de amor é um lindo traste.

– LANCEROTE – Também sois poeta, meu sobrinho?

– TIBÚRCIO – Também temos entusiasmo, Senhor tio; isto cá é veia capilar e natural.

– LANCEROTE – Oh, quanto me pesa que sejais poeta, pois por força haveis de ser pobre!

– TIBÚRCIO – Agora, Senhor! Eu sou rico poeta. Pois, primas, que dizeis da minha eloquência? Não me respondeis?

– CLÓRIS – Os anjos lhe respondam.

– NISE – Aí não há mais que dizer.

(…)”

SILVA, António José da , Guerras do Alecrim e Mangerona, Cena II

 

António José da Silva, “O Judeu” (Rio de Janeiro, 8/5/1705 – Lisboa, 18/190/1739)
Dramaturgo, escritor, advogado.

Branquinho da Fonseca – Lago

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

Com duas tábuas fiz

O barco onde navego

E onde sou tão feliz

Que nunca chego…

 

Vou sonhando e cantando,

Tão alto, que não sei se o mar e o céu vão bons

Ou se vão mal…

 

Só quero ir sempre andando

E reparando

Nas diferenças

Da paisagem sempre igual…

 

Branquinho da Fonseca (Mortágua, 4/5/1905 – Lisboa, 6/5/1974)
Poeta, contista, romancista e dramaturgo, co-fundador das Revistas: Tríptico, Presença e Sinal – esta com Miguel Torga. Assinou algumas obras com o pseudónimo António Madeira. Filho do escritor Tomás da Fonseca. Licenciado em Direito.

Bocage – O Autor aos Seus Versos

Outubro 15, 2017 - Leave a Response

 

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 15/9/1765 – Lisboa, 21/12/1805)
Poeta.