Cristovam Pavia – Marinha

Julho 29, 2016 - Leave a Response

Cristovam Pavia

Um bando de gaivotas
revoluteando,
insistindo…
Partindo
e logo voltando,
em voltas e cambalhotas,
sobre o mar…

A vela branca, a vibrar,
que se não sabe onde vai,
desaparece
e parece

que já não há-de voltar…
Mas de repente aparece
e vai do fundo, do mar
para o céu…

E um menino que correu
e riu
às transparências desse mar sem fim,
quando me viu,
levantou a grande aba do chapéu
e, desenhado a branco sobre o céu,
ficou, por muito tempo, a olhar p’ra mim.

 

Cristovam Pavia (Lisboa, 7/10/1933 – Lisboa, 13/10/1968)

Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho – usou outros pseudónimos: Sisto Esfudo, Marcos Trigo e Dr. Geraldo Menezes da Cunha Ferreira.

Poeta, membro da revista: O Tempo e o Modo, publicou poemas nas revistas: Távola Redonda e Árvore.

Filho de do poeta Francisco Bugalho, ligado à revista: Presença.

Licenciado em Filologia românica.

 

Grupos Naturais – Conhecer de Ginjeira / Correr à Lambada (ou à Paulada) / Correr a Pontapé / Cortar o Coração / Cortar Relações / Cumprir a Missão

Julho 28, 2016 - Leave a Response

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Conhecer de ginjeira – c. muito bem.

Ex.: Aquele fulano? Conheço de ginjeira

 

Correr à lambada (ou à paulada) – à tareia ; a golpes de pau.

Ex.: A professora correu os alunos à lambada.

O quinteiro correu os rapazes à paulada.

 

Correr a pontapé – expulsar a bem ou a mal.

Ex.: O patrão ameaçou correr todos a pontapé.

 

Cortar o coração – causar tristeza, compaixão.

Ex.: Aquele filme é de cortar o coração.

 

Cortar relações – desistir de falar.

Ex.: A Elsa e o Rui cortaram relações.

 

Cumprir a missão – executar a tarefa destinada.

Ex.: O Miguel teve dificuldades em cumprir a missão.

 (continuar)

 

Ruy Belo – Morte ao Meio-Dia

Julho 28, 2016 - Leave a Response

Ruy Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Ana Hatherly – Wer, Wenn Ich Schriee

Julho 28, 2016 - Leave a Response

Ana Hatherly

Quem, se eu gritar

me concede

a profundeza inversa deste céu

que ao fim da tarde

eu vejo da minha janela

contemplando os anjos

que as nuvens imitam?

 

Alguém me ouve se eu gritar?

 

Oiço vozes

mas são vozes inventadas

porque é inútil perscrutar o silêncio

e por isso vos reinvento

a cada pancada do meu coração

a cada pancada surda

que não repercute

no ímpeto claro do vosso desenho fantástico

no alado lado da vossa impossibilidade

 

Se eu gritar

alguém me ouve

em todas estas coisas?

 

Nenhum anjo

escuta o meu grito

que não penetra a noite

e só encontra o eco de nenhum desejo

 

E lançando de meus braços o desejo

não invejo

admiro

a sufocante beleza deste ocaso

cheio de nuvens velocíssimas

e tudo o que eu sinto

é tão imenso

como este ocaso

dantesco

tiepolesco

wagneriano

que eu contemplo

doente do excessivo amor do que é belo

que me afoga

na sua imensidão aérea

 

E tão fortuitamente criado pelo vento

e pela terra que se inclina

este ocaso laranja sobre azul

esplêndido e Kitsch

é tão impermanente

como vós

nuvens-anjos que me arrebatais

com vossos incêndios imensos e falsos

ilusão de óptica que me fascina e oprime

 

Encostada à minha janela

contemplo a vossa beleza

que a todo o instante

se faz e se desfaz

até o chumbo da sombra avançar

e aos poucos surgir a noite

antiga e idêntica sempre

lançando-me em vossos braços

vazios

cheios só de vozes

inaudíveis

 

Ana Hatherly (Porto, 08/05/1929 – Lisboa, 05/08/2015)
Poetisa, ensaísta, romancista, investigadora, tradutora, artista plástica, professora universitária, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, diplomada em cinema, foi uma das fundadoras do PEN Clube Português, que presidiu, membro da Direção da Associação Portuguesa de Escritores e fundou as revistas Escuro-Claro e Incidências.

Vitorino Nemésio – Azorean Torpor

Julho 28, 2016 - Leave a Response

Vitorino Nemésio

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:
Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas
E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto
Que vê passar na praia as damas enjoadas.

A cidade? Esqueci.  Um poeta é sempre absorto;
De mais a mais – talvez paragens abandonadas.
O que é certo é que entrei um dia naquele porto
Em que as próprias marés parecem arrestadas.

Porque a mais leve luz que se embeba na Barra
Embacia os perfis dos cais e dos navios
Em frente à linha do horizonte que se perde…

E um desconsolo, um não-partir paira nos pios
Das gaivotas sem céu que o vento empluma [e agarra
Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.

Vitorino Nemésio (Açores, Praia da Vitória, 19/12/1901 – Lisboa, 20/2/1978)
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador de literatura e cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo, comunicador televisivo, professor universitário.

Camilo Pessanha – San Gabriel II

Julho 28, 2016 - Leave a Response

Camilo Pessanha

Vem conduzir as naus, as caravelas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um montão de estrelas.

Outra vez vamos! Côncavas as velas,
Cuja brancura, rútila de dia,
O luar dulcifica. Feéria
Do luar não mais deixes de envolvê-las!

Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa
Que do além mar vapora, luminosa,
E à noite lentescendo, onde, quietas,

Fulgem as velhas almas namoradas…
– Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas.

Camilo Pessanha (Coimbra, 7/8/1867 – Macau, 1/3/1926)
Poeta, licenciado em Direito.

David Machado – Partilhar um Segredo

Julho 28, 2016 - Leave a Response

David Machado

“Um restaurante

Tasca do Joel, em Peniche. Está na moda ser gourmet. Mas gourmet não são só as mostardas francesas e os molhos italianos. Gourmet é também uma dourada pescada ontem à noite ao largo da costa, é um pato com castanhas assado no forno, é um naco de posta mirandesa, é uma broa de milho, são as trouxas-de-ovos. Nesse sentido, na Tasca do Joel tudo é gourmet.

A carta de vinhos é óptima e extensa. E os preços, como sempre que se sai de Lisboa, são sensatos.

Este é um daqueles segredos que me dá muito prazer partilhar.”

In JL, 13 – 26 de Janeiro 2010

 

David Machado (Lisboa, 04/06/1978 )

Romancista, contista, autor de literatura infanto-juvenil, foram-lhe atribuídos prémios literários, licenciado em Economia.

 

Cora Coralina – Aquela Gente Antiga – II

Julho 28, 2016 - Leave a Response

Cora Coralina

 

Aquela gente antiga explorava a minha bobice.
Diziam assim, virando a cara como se eu estivesse distante:
“Senhora Jacinta tem quatro fulores mal falando.
Três acham logo casamento, uma, não sei não, moça feia num casa fácil.”

Eu me abria em lágrimas. Choro manso e soluçado…
“Essa boba… Chorona… Ninguém nem falou o nome dela…”
Minha bisavó ralhava, me consolava com palavras de ilusão:
Sim, que eu casava. Que certo mesmo era menina feia, moça bonita.
E me dava a metade de uma bolacha.
Eu me consolava e me apegava à minha bisavó.
Cresci com os meus medos e com o chá de raiz de fedegoso,
prescrito pelo saber de minha bisavó.
Certo que perdi a aparência bisonha. Fiquei corada
e achei quem me quisesse.
Sim, que esse não estava contaminado dos princípios goianos,
de que moça que lia romance e declamava Almeida Garrett
não dava boa dona de casa.

 

Cora Coralina (Cidade de Goiás, 20/08/ 1889 – Goiânia, 10/04/1985)

Pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas

Poetisa e contista, foi a primeira mulher a ganhar o prémio Juca Pato (1983).

Começou a escrever aos 14 anos, mas só publicou o primeiro livro aos 75 anos.

 

Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa – Ondjaki, A Escrita Ancorada

Julho 28, 2016 - Leave a Response

Ondjaki

“(…) Luanda, a cidade em que cresci, está cheia de estórias e, como tal, muito do que escrevo está ancorado na minha infância e adolescência. Sinto que esse universo, talvez porque vivi num ambiente de grande liberdade, me dá uma energia positiva para escrever. Eu até posso tratar questões menos agradáveis, mas gosto de escrever num formato imbuído de energias positivas. (…)

Acredito que a infância empurra muito o presente em determinadas direcções. (…)

As crianças que viviam em zonas de Angola que não tinham contacto directo com a guerra eram felizes. Era uma infância de pobreza, ao nível da comida, ao nível da roupa, mas nunca foi pobre a nível do imaginário ou mesmo da oferta cultural. Íamos a festivais e íamos a concertos, mas a verdade é que essa liberdade que eu vivi, enquanto criança, não era extensiva ao resto da sociedade. (…)

Eu escrevo muita poesia, mas não tenho publicado, talvez porque a sinto como algo muito interno que me custa a expor. É  mais íntimo e doloroso mostrar um poema do que uma estória. (…) a poesia é uma celebração da natureza, da vida, de coisas que, de tão importantes, são demasiado internas. Eu, pelo menos, sinto-a como uma pele interna. (…)

Nos contos e nos romances mesmo que exista o “eu” está demasiado misturado com todos os elementos da natureza.

Ao escrever em prosa eu sinto um barro maleável, que posso trabalhar e decido quando o vou pôr ao sol.

Na poesia sinto que estou a esculpir madeira ou pedra, no sentido em que é um material mais resistente e com outra textura. (…)”

In JL 21 Julho – 3 Agosto 2004

Ondjaki (Luanda, 1977)
Poeta, contista, artista plástico.

Maria Alzira Seixo – Segurar a Vida (Continuação)

Julho 28, 2016 - Leave a Response

Maria Alzira Seixo

“Aos 15 anos a vida mudou. Sonhava ser professora, a minha ideia de ensino eram os professores primários, os únicos que tivera, e dois excepcionais: D. Antonieta Vilhena , na 4.ª classe, e o referido prof. Guerreiro, que me levava a exame ao liceu.

Mas o meu pai, homem de negócios sem capital mas de grande cabeça, inquiriu deles se eu teria capacidade para um curso superior  e para ser professora de Liceu. Eles acharam que sim e a família dispôs-se a sacrifícios para eu entrar na Faculdade.

Mas tinha de fazer o 7.º ano e como queria Românicas devia ir para o Pedro Nunes. Os colegas da Moita aterraram-me: vais para o Liceu? é tão difícil! tens de estudar imenso!

E lá fui eu, cheia de medo e de sono, a levantar-me às 5 da manhã para apanhar o comboio que me levava ao barco do Barreiro, que demorava 45 minutos a chegar ao Terreiro do Paço, onde às 7 e 30 tomava o autocarro para o liceu. O pior era se havia nevoeiro: o vapor a abarrotar de operários, perdia-se no Tejo, os poucos estudantes embarcadiços iam perdendo aulas, e só lá pelas 11 chegávamos a Lisboa. (…)

No Pedro Nunes deu-se o grande equívoca da minha vida: atirei-me aos livros para passar o ano e qual não foi o meu espanto ao ver-me no Quadro de Honra com dezassetes e dezoitos. Nunca passara de dozes e trezes, e era agora uma grande aluna. Criara sem querer uma imagem que não coincidia comigo, e nunca mais pude regressar a mim.

Tinha professores de escol. E era durante a campanha do Delgado, eu avisada pela família que nem a palavra “política” devia pronunciar, os da JEC descobrem que eu não era religiosa e caem-me em cima com apostolado, Abelaira dava aulas de Filosofia a que assistíamos com unção, Mário Dionísio fazia conferências nas Belas-Artes sobre pintura contemporânea, eu não podia ir porque o último barco com comboio para a Moita era o das 10 da noite, a minha mãe barafustava que não me deixava dormir fora de casa, e o meu pai, compreensivo: “Vai lá à conferência e volta no barco da meia-noite que eu vou buscar-te ao Barreiro.

Foi um despertar épico para a confusão do mundo! Mantive as notas altas e fui para a Universidade. (…)”

(continua)

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, poetisa, professora catedrática (jubilada).

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 54 outros seguidores