Sophia – Poema

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas

Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Al Berto – Memória da Vila de Sines

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Al Berto

” A memória é hoje uma ferida onde lateja a Pedra do Homem, hirta como uma sombra num sonho”

AL BERTO, Mar-de-Leva

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, ” A Banhos” (Continuação)

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Maria Assunção Vilhena

” (…) A criada da velhota chamava-se Rosa. Era baixa, atarracada, morena amulatada, de farta cabeleira encarapinhada. Eu achava-a muito feia e que o nome não estava de acordo com a  fisionomia. Roa era, para mim, uma flor delicada e linda. (…)

Apesar de a achar feia, tinha uma grande simpatia por ela, pois, quando apanhava a patroa ocupada, brincava comigo às escondidas ou a fazer corridas no longo corredor da entrada.

Ainda fiquei a gostar mais dela depois que a patroa chamou a mãe lá a casa para lhe fazer queixas, porque tinha lavado o chão sem pôr debaixo dos joelhos a esfregadeira de madeira. A rapariga chorou e eu, cheia de pena, ia chorando também, e passei a olhar a senhora com receio e desconfiança.

Apesar de estarmos a banhos como dizíamos, a praia era, para nós, um lugar proibido, pois meu pai tinha medo que nos afogássemos. Ao sair para o trabalho, recomendava sempre à minha mãe que não nos deixasse para lá ir brincar; só se fôssemos acompanhados. Por isso, íamos à tarde, uma ou duas horas, quando a minha mãe não tinha que fazer em casa.

Nenhum tinha fato de banho, nenhum sabia nadar; completamente vestidos, limitávamos-nos a desafiar as ondas e a correr à frente delas, ou a fazer covas que elas vinham encher.

Minha mãe sentava-se na areia a vigiar, pronta a intervir se algum se aventurava um pouco.

Nesse tempo, o acesso à praia ainda se fazia pela antiga estrada chamada o Caminho do Bispo, que acabava junto a  uma fábrica de conservas. Só em 1931 se começaram as obras da actual estrada e escadaria. (…)”

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

Ana Goês – Jogos com a Língua Portuguesa (continuação)

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

As Vogais

Pares de “frases homófonas”…

 

Sim, viu a saia, mas de testa franzida
Sim, viu a saia, mas detesta franzida!”

 

Vãos escuros são mais “sexy”…
Vão os escuros, são mais “sexy“!

 

Demonstro, não tenho nada, como vês
De monstro não tenho nada, como vês!”

 

Dissocio, não percebo nada
Disso, cio, não percebo nada…”

 

Estudantes em férias...
Estude antes em férias!”

 

Para mim, com domínio, nem pensar!
Para mim, condomínio nem pensar!”

 

Acorda já!
A corda, já

 

Disque, sim, depressa!
Diz quiser, depressa!

 

Em Malaca!
Ema, laca!”

 

Menino de coro
Menino, decoro!”

 

GOÊS, Ana, Aliás Voltas Sempre / Ali às Voltas Sempre

 

Ana Goês, Carnaxide, 1936
Poetisa e prosadora.

Florbela Espanca – Amar!

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi p´ra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… p´ra me encontrar…

 

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Fiama Hasse Pais Brandão – Epístola para o Sol

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Fiama Hasse Pais Brandão

Houve uma criança em mim que amava o teu corpo
e nele se escondia paar esta só e ausente.
E sabia então que a tua luz crua e firme
calava a ira e ofuscava a discórdia
que viviam outrora no interior dos quartos.
Hoje, assim contigo, face a face, fecho as pálpebras
e apenas com o tacto te sinto e reconheço.

 

Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15/8/1938 – Lisboa, 19/1/2007)
Poetisa, romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora
(Esposa de Gastão Cruz).

Jorge de Sena – A Portugal

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Jorge de Sena

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

Araraquara, 6/12/61

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/78)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

Helga Moreira – O Poema

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Helga Moreira

Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema

que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte

apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor

alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?

 

Helga Moreira (Quadrazais, Guarda, 29 /04/1950)
Poetisa, licenciada em Física.

 

Vasco Graça Moura – Lamento para a Língua Portuguesa

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Vasco Graça Moura

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

MOURA, Vasco Graça, Antologia dos Sessenta Anos

Vasco Graça Moura (Porto, 3/1/1942 – Lisboa, 27/04/2014)
Poeta, ficcionista, cronista, tradutor, licenciado em Direito.

Pedro Tamen – O Sapato

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Pedro Tamen

Amo o sapato que faço
na própria mão que o percorre,
no calo e nas unhas sujas,
na velhice do inchaço
de uma artrose de quem morre
mas não antes que me fujas;
ó meu sapato de milho,
de juventude virada
para um pé ao pé da mão,
sapato que és mãe e filho
da minha arte calada
de entre cordeiro e leão.

TAMEN, Pedro, o livro do sapateiro

Pedro Tamen (Lisboa, 1934)
Poeta, crítico literário, tradutor, professor, licenciado em Direito.

 

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