Adolfo Casais Monteiro – Vem, Vento, Varre

Dezembro 4, 2016 - Leave a Response

Adolfo Casais Monteiro

A José Rodrigues Miguéis

Vem, vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só covardia.

Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.

Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.

Vem vento, varre!

Adolfo Casais Monteiro (Porto, 4/7/1908- S. Paulo, 23/07/1972)
Poeta, ensaísta, professor universitário, licenciado e, Ciências Histórico-Filosóficas.

Maria Alzira Seixo – Segurar a Vida (Continuação)

Dezembro 3, 2016 - Leave a Response

Maria Alzira Seixo

“(…) As compensações vinham do lado internacional: aos 50 anos fui indigitada para presidente da Associação de Literatura Comparada, sendo eleita em Tóquio, numa experiência rica e gratificante. Com a alegria de nunca me ter candidatado a nada, nos cargos internacionais que desempenhei, sempre vindos por convite ou proposta exterior. Como também nunca viajei sem ser em trabalho (parece que a padroeira da Moita me fadou naquele ciclone), com especial carinho pelas estadias no Cabo da Boa Esperança, quando cumpri os dez anos do Seminário de Literatura de Viagens, em 2000.

A viagem de lazer só veio na doçura da reforma: eu fora convidada para a Universidade de Chicago, apaixonei-me pelas esbeltas torres à beira das águas (as quais, por meandros vários, vêm afinal aqui ter à Costa Vicentina, digo-o no Diário do Lago) e para lá passei a deslocar-me anualmente, a assistir aos últimos nevões e a ver chegar a primavera.

E quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos trabalhos que por mim passaram, a pobre de mim espanta-se do torvelinho de coisas vividas (…).

Mas é doce considerar agora tudo isto e, como Fernão, ir voltando à Margem Esquerda, e escrever. Porque a reforma não é abandono de trabalho, é o direito que temos a fazê-lo enfim folgadamente, sem pressas aturdidas, com gosto. A sentir o tempo que passa e a frui-lo. A segurar a vida, que não se deixa prender, mas se sente em concreto na mão que escreve ou toca, saboreando a respiração. (…)”

SEIXO, Maria Alzira, “autobiografia”, in JL, 24 de Outubro – 6 Novembro 2007

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, poetisa, professora catedrática (jubilada).

Ana Goês – Jogos com a Língua Portuguesa (continuação)

Dezembro 2, 2016 - Leave a Response

As Vogais

Pares de “frases homófonas”…

 

“Quando ela dispara, eu fujo!
Quando ela diz “pára”, eu fujo…”

 

“À direita e à esquerda!
Há direita e há esquerda…”

 

“Admissão do ministro, já!
A demissão do ministro, já!”

 

“E leito assim, quer me dera!
Eleito assim, quem me dera!”

 

“Não podes espiar!
Não podes piar!”

 

“Nem a sul o são, sequer…
Nem a solução se quer…”

 

“Se gostas do povo sérvio…
Se gostas do povo, serve-o!”

 

“Situação: Estremadura.
Situação extrema, dura...”

 

GOÊS, Ana, Aliás Voltas Sempre / Ali às Voltas Sempre

 

Ana Goês, Carnaxide, 1936
Poetisa e prosadora.

Mário Cláudio – “Le Petit Tour”, Breve Excerto

Dezembro 2, 2016 - Leave a Response

Mário Cláudio

“(…) Na proximidade do fecho dos meus estudos secundários, e portanto ao acaso da adolescência, meus tios oferecer-me-iam um “petit tour” eletrizante, posto ao pé da porta.

Os ganapos da minha geração saíam raramente do país, o que se devia a uma mescla de condicionantes, impostas pela magreza da bolsa, o confinamento político, e até a inscrição do território na periferia da Europa. Daí que fatalmente se nos abrisse, e à falta de melhor, a ascensão a Vigo, ou a esticada a Badajoz, em demanda dos caramelos, dos artigos de perfumaria, e em certa fase, pasme quem quiser, do próprio bacalhau.

Daquela feita porém rasgar-se-me-iam horizontes bem mais vastos, as capitosas cidades de Andaluzia, e a quase inconcebível jornada a Tânger.

Lá fomos pois, e regressámos, e jamais encontraria eu ao longo das andanças inúmeras por este mundo (…) ulteriormente efectuadas, mais excitante viagem de férias, ou mais formativa. (…)

Será necessário acrescentar que o puto voltaria aos lares com o sabor das tâmaras, mais intenso do que qualquer outro, e em simultâneo sedoso e áspero, nos lábios, no palato, e na alma?”

 

In JL, 17 a 30 de agosto de 2016

 

Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa (Porto, 6/11/1941)
Ficcionista, poeta, dramaturgo, ensaísta, tradutor, licenciado em Direito e diplomado em Bibliotecária-Arquivística.

 

 

Luís Filipe Castro Mendes – Romance de Dona Cleonice Berardinelli

Dezembro 2, 2016 - Leave a Response

cleonice-berradinelli-e-luis-filipe-castro-mendes

De Cleonice, senhora

em seu saber assentada,

venho dizer sem demora

seu louvor: seja louvado

por quanto de si nos deu

com o tranquilo fulgor

de tudo o que mereceu.

Esta só prova de amor

à língua e às suas artes

deu-nos a todos a flor

portuguesa em todas partes:

dos sertões e das veredas,

do verso mais fingidor,

de Camões até às sedas

da índia e mais em redor;

do caminho e mais da pedra,

da faca gume sem dor,

da concha donde não medra

Vénus, mas seu esplendor.

E são alusões marinhas

e são caminhos imensos,

língua tua quando minha

nos percursos mais intensos:

o que se diz literatura,

o que poesia se chama

em tão profunda cultura

tru viver luz e proclama.

Nós passeámos por Praga,

por seus becos e travessas,

numa insaciável saga

de viagens e conversas,

que prolongavam a maga

fascinação com diversas

leituras e descobertas

de uma vida que no Rio

tinha as janelas abertas

para o mundo e pra seu fio

de linhas longas e certas

em que a língua se redoura,

com orgulho em sua oferta.

Pois Cleonice, senhora,

do saber sempre vivido

numa língua que aflora

em povos, versos, sentidos

viveres que aqui se mistura,

no riso sempre entendido,

aqui deixo a homenagem

do amigo comedido,

que sem fazer a viagem

deixa o seu preito sentido.

 

In JL de 31 de agosto a 13 de setembro de 2016

 

Luís Filipe Castro Mendes (Idanha-a-Nova, 1950)
Poeta, ficcionista, diplomata, licenciado em Direito.

 

Cleonice Seroa da Mota Berardinelli (Rio de Janeiro, 28 /08/1916)
Professora universitária de Literatura Portuguesa, investigadora e ensaísta, especialista em Luís de Camões, Gil Vicente e Fernando Pessoa, autora de antologias poéticas e de vastos trabalhos sobre escritores portugueses e outras personalidades.
Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal (1966) e da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1987) e distinguida com a Grã-Cruz da mesma Ordem de Portugal (2006).
Ocupa a cadeira número 8 na Academia Brasileira de Letras desde 16 de dezembro de 2009.

 

Na foto: A professora e o poeta, atual Ministro da Cultura, quando era cônsul no Rio de Janeiro.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)

Dezembro 2, 2016 - Leave a Response

Maria Assunção Vilhena

” (…) Duas ou três voltas à manivela, o motor a roncar, um último aviso à miudagem para que se sentassem no estrado da carroçaria e não se levantassem com viatura em andamento e “ala que se faz tarde…”

Algumas paragens breves apenas para colhermos alguns figos das muitas figueiras que bordavam a estrada (algumas ainda lá estão) e acenadas para o fogareiro a carvão (cascos e marvalha), uma hora depois já estávamos a descarregar os tarecos.

Era na Rua de Ferreira a que chamávamos Estrada de Santiago, numa casita do Chico Ferrador, que além da oficina de ferrador com tronco para ferrar bois, tinha cavalariça para recolha de animais que pagavam a argola, espaço para estacionamento de carros e casas para alugar a banhistas. Na frente morava a senhora Chica Laranjinha e duas senhoras que costuravam para fora, e que também alugavam quartos no Verão.

A nossa “casa de férias” compunha-se de três minúsculos assoalhadas, sem água, sem esgotos, sem luz, quase sem ar…

Do lado da rua, ficava o quarto dos pais (o único que tinha janela) e a sala da entrada que era, ao mesmo tempo, sala de refeições e de visitas e, à noite, quarto do Chico, iluminada pela porta ou pelo postigo, quando ela estava fechada.

Do lado do quintal, com o qual não comunicava, nem sequer por uma fresta, estava o quarto das raparigas, bastante escuro e a cozinha, iluminada por uma telha de vidro e arejada pelas telhas soltas e pela chaminé. Essa luz e esse ar compartilhava-os a cozinha com o nosso quarto, pela porta que tinha de se manter aberta…

Era na cozinha que se empilhavam os víveres, o carvão, os cestos, os caixotes que também serviam de bancos. Aí se grelhava ou fritava o peixe, alimento principal naquela altura do ano e naquela terra, enchendo o ambiente de fumo, que picava os olhos, e de cheiros desagradáveis, que impregnavam a roupa, os móveis, as paredes…

O resto da casa era um buraco escuro, entre a cozinha e o nosso quarto, sem ventilação, onde uma panela de barro servia de sanitário.  Em Sines também havia a imunda carroça de despejos. (…)

No dia seguinte ao da nossa chegada, o meu pai apareceu com uma rede de pesca castanha; com a minha mãe, aproveitaram a parte melhor e suspenderam-na na porta exterior, à laia de reposteiro, para evitar que as moscas entrassem. Todas as casas modestas estavam assim protegidas dos enxames que infestavam a vila. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

 

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

 

Grupos Naturais – Dar a / Dar a Alma a / Dar a Benção / Dar à Bomba / Dar Abrigo / Dar à Canela / Dar à Casca

Novembro 30, 2016 - Leave a Response

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar a – chegar, alcançar.

Ex.: Esta rua vai dar à praça.

 

Dar a alma a – morrer

Ex.: Há cinco anos, o meu paizinho deu a alma a Deus.

 

Dar a benção – abençoar.

Ex.: O padre deu a benção à jovem.

 

Dar à bomba – mover, accionar.

Ex.: O Manuel fartou-se de dar à bomba.

 

Dar abrigo – alojar.

Ex.: A D. Maria deu abrigo ao pobre.

 

Dar à canela – andar depressa.

Ex.: A Vera vai dar à canela para apanhar o Tomé.

 

Dar à casca – aborrecer-se, encavacar.

Ex.: A Leonor deu à casca quando a chefe a elogiou.

(continua)

António Gedeão – Poema da Malta das Naus

Novembro 30, 2016 - Leave a Response

António Gedeão

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com um palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escoburto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que os outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
Nas praias de Portugal.

 

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997), pseudónimo de Rómulo de Carvalho
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência Físico-Químicas.

António Manuel Couto Viana – Barcarola

Novembro 30, 2016 - Leave a Response

António Manuel Couto Viana

 

Deseja a noite, primeiro,
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana,
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar…
A escuna é espuma, é luar…
Madrugada! Madrugada!

António Manuel Couto Viana (Viana do castelo, 24/01/1923 – Lisboa, 08/06/2010)
Poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor.
Dirigiu os Cadernos de Poesia, Távola Redonda e as revistas culturais:Graal e Tempo Presente.

Fernando Lemos – Hino Triste sem Melodia

Novembro 30, 2016 - Leave a Response

Fernando Lemos

Nós heróis do mar eis
nobre povo sempre as naus
na frente dos reis.
Primeiro a moldura depois
a pintura    após o retrato
a epopeia   depois do relato.

Às armas… Às armas…
Nuno Gonçalves    primitivo
educado    colectivo passaporte
nobre povo   mas mísera sorte.
Onde pousaram às pressas
retornados    não idos sentados
nos projectos
como se já fossem
esmaecidos    abandonados.

Almada imortal plantel
Negreiros    atrás da tábua
que no painel falta
para justificar a malta.

Levantai hoje de novo
todo o esplendor de Portugal
galinha após o ovo    já que
primeiro Colombo    depois
Cabral.

Azar mas… Azar mas…
pela pátria lutar.
Depois da casa roubada
as portas trancar.
Somar os séculos de Império
e Salazar pelos dedos    48 anos
detrito familiar.
Contar os trajectos
navegar   navegar    voltar
após vinhetas de sangue
fazer o mosteiro
capacho de choro milenar.

Chamar Nuno Gonçalves para pintar
Almada para reconstituir
murais para a nação destilar.
Quem vê caras    não vê brasões
daí os retratos
e as condecorações.

É assim somos assim meu irmão
primeiro vítima    depois
o Dom de Sebastião.
Para nós a Humanidade
é uma lotaria.
Fomos grandes por fora
colonos do riso    sem alegria.

Primeiro a República
avental da Monarquia    depois
maçónica a Ditadura
com selvajaria    cheia de Peros
de Vazes de Escrivaninha.

Camões que precisou
naufragar    para o original
dos Lusíadas na tormenta editar.

Nação    sem dúvida   valente e imortal
na emigrância    per capita
fundamentar.

Azar mas… Azar mas…
unha por cunha    coisa por loisa
casamento por procuração    depois
por Brasil a noiva.

Fernando Pessoa    que foi Ser
português    voltou
para conferir    a língua desolado
fiscal do produto viciado.

25 de Abril
apoteose de revista
todos os bons restantes
com os maus de antes
sem pontos de vista.
agora sem medo    enredo
sem uma história prevista.

Agora o fado espanta
nosso retiro e desespero
talvez nos paguem a conta
ou só irónico    o tempero.
Talvez se aprenda o ovo
depois da galinha    depois do óbvio
da adivinha.

Levantai hoje de novo
o esplendor da galinha
o imortal povo
ovo pai    da rainha.
Mas primeiro país    depois
Portugal.

Pobreza em pó    orgulho
pre-conceito    generoso
e desfeito.
Viva meu irmão    do coração
azar mas…às armas…
pela pátria lutar depois
sem mar
só com chão Recomeçar!

 

Fernando Lemos (Lisboa, 1926)
Fotógrafo, poeta, jornalista, pintor, publicitário e desenhador .