Álvaro Guerra – Ponta Tenente (Excerto)

Fevereiro 12, 2020 - Leave a Response

 

“(…) Os pés de laranjeira trazidos da Metrópole com mil cuidados puseram-se a crescer, floriram um ano depois, deram as primeiras laranjas no segundo e, a partir do terceiro, o Tenente poderia ter enchido com elas uma frota de cinco ou seis barcos iguais ao vapor Maria, na época da colheita, quando Ponta Tenente cheirava a laranja a três milhas de distância e grandes montes de frutos apodrecendo ao sol ladeavam a álea das acácias rubras que ia do tosco cais de tábuas de pau-sangue até à casa grande.

Experimentadas como adubo nas searas, as laranjas ajudaram a crescer um amendoim ligeiramente adocicado e grossas e longas raízes de mandioca rosada.”

GUERRA, Álvaro, Ponta Tenente

 

Álvaro Guerra (Vila Franca de Xira, 19/10/1936 – Vila Franca de Xira, 18/4/2002)
Pseudónimo de Manuel Soares.
Romancista, poeta, cronista, galardoado com O Grande Prémio de Crónica, ensaísta, jornalista, fundador do jornal A Luta (1975) político, diplomata,  licenciado em Direito.

Mário Dionísio – Perdida

Janeiro 15, 2020 - Leave a Response

 

Perdida

Perdida para a vida.

 

Perdida

para a suprema amargura das realidades.

 

Perdida

por saber ler poemas sem nunca poder sê-los.

 

Perdida por não ser vida

olhando para a vida.

 

Perdida por ter sapatos

e só descalça poder sentir as pedras do caminho.

 

Perdida por ter vestidos

e só nua poder ser crestada pelo sol.

 

Perdida por sorrir em lugar de gritar.

 

Perdida.

 

Perdida para a alegria amarga das realidade.

 

In Novo Cancioneiro

 

Mário Dionísio (Lisboa, 16/7/1916 – Lisboa, 17/11/1993)
Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico, professor universitário.

Joaquim Namorado – Cantar de Amigo

Janeiro 15, 2020 - Leave a Response

 

Eu e tu: milhões

Entre nós – perto ou longe –

entre nós rios e mares

montanhas e cordilheiras…

 

Eu e tu perdidos

nesta distância sem fim do desconhecido;

eu e tu, unidos

para além das cordilheiras,

por sobre mares de diferença,

na comunhão de nossos destinos confundidos

– a minha e a tua vida

correndo para a confluência

num mesmo Norte.

 

Eu e tu, amassados

nesta angústia que é de nós,

minha e tua,

e mais do que de nós…

 

Eu e tu

carne do mesmo corpo

amor do mesmo amor

sangue do mesmo sacrifício!…

 

Eu e tu

elos da mesma cadeia

grãos da mesma seara,

pedras da mesma muralha!…

Eu e tu, que não sei quem és,

que não sabes quem sou:

– Eu e tu: Amigo! Milhões!

 

In Novo Cancioneiro

 

Joaquim Namorado (Alter do Chão, 30/6/1914 – Coimbra, 29/12/1986)
Poeta, ensaísta, um dos iniciadores do Neo-Realismo, colaborador das revistas: Seara Nova e Vértice, bem como de outras publicações, licenciado em Ciências Matemáticas, professor catedrático.

Alexandre O´Neill – Inventário

Janeiro 15, 2020 - Leave a Response

 

Um dente d’ oiro a rir dos panfletos

um marido afinal ignorante

dois corvos mesmo muito pretos

um polícia que diz que garante

 

a costureira muito desgraçada

uma máquina infernal de fazer fumo

um professor que não sabe quase nada

um colossalmente bom aluno

 

um revolver já desiludido

uma criança doida de alegria

um imenso tempo perdido

um adepto da simetria

 

um conde que cora ao ser condecorado

um homem que ri de tristeza

um amante perdido encontrado

um gafanhoto chamado surpresa

 

o desertor cantando no coreto

um malandrão que vem pé-ante-pé

um senhor vestidíssimo de preto

um organista que perde a fé

 

um sujeito enganando os amorosos

um cachimbo cantando a marselhesa

dois detidos de fato perigosos

um instantinho de beleza

 

um octogenário divertido

um menino coleccionando tampas

um congressista que diz Eu não prossigo

ma velha que morre a páginas tantas

 

In Cadernos de Poesia

 

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

Raul de Carvalho – [Ó Vento Isento…]

Janeiro 15, 2020 - Leave a Response

 

Ó vento isento, carinhoso vento!

 

O vento alegre e enxuto,

radiante e sonoro. livre vento!

Líquidos membros, mar coalhado

de solidárias ondas, de amorosas

constelações deixadas ao acaso

dos rumos, nos convés… Teus ombros de água,

 

ó indecisa vontade transparente!

 

In Cadernos de Poesia

 

Raul de Carvalho (Alvito, 4/9/1920 – Porto, 3/9/1984)
Poeta, colaborar em diversas publicações, nomeadamente: Távola Redonda, Cadernos de Poesia e Árvore, de que foi co-director, pintor e fotógrafo.

Cecília Meireles – [A Arte de Viajar…]

Dezembro 17, 2019 - Leave a Response

 

“A arte de viajar é uma arte de admirar, uma arte de amar.

É ir em peregrinação, participando intensamente de coisas, de factos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre.

É estar constantemente emocionado – e nem sempre alegre, mas, ao contrário, muitas vezes triste, de um sofrimento sem fim, porque a solidariedade humana custa, a cada um de nós, algum despedaçamento.”

 

MEIRELES, Cecília, “Uma hora em San Gimignano”, de Crónicas de Viagem I

 

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Daniel Faria – Sara

Dezembro 17, 2019 - Leave a Response

 

Dara senta-se nos degraus das casas destruídas

 

Sara é o nome do deserto

É o nome da videira estéril

É o nome à espera de ter filhos

 

Sara está velha de estar

Sozinha. Está sentada e desfaz

A bainha dos seus vestidos

 

FARIA, Daniel, Poesia

 

Daniel Augusto da Cunha Faria (Baltar, Paredes, 10/04/1971 – Porto, 09/06/1999)
Poeta, vencedor de vários prémios literários e escolares, colaborador em diferentes revistas, autor de desenhos, colagens, mobiles, encadernação e encenação, dirigente d´O Círculo de Leitura no Seminário Maior (1989/93).
Licenciado em Teologia (parte curricular concluída em 1994 e tese defendida em 1996) e em Estudos Portugueses (1998), seminarista antes de ingressar no curso de Letras, a um ano de ser ordenado sacerdote, tendo optado após a conclusão daqueles estudos pela vida monástica, como postulante no Mosteiro Beneditino  de S. Bento da Vitória (1997-98), e noviço no Mosteiro de Singeverga onde, quase no termo do noviciado, sofreu um acidente doméstico que o colheu para outra vida.

José Gomes Ferreira – Sonâmbulo, IV

Dezembro 17, 2019 - Leave a Response

 

Um dia virás

hora doce e calma

sem as espadas dolorosas

que me sangram a alma

quando cismo…

 

Eu que até nas rosas

procuro um abismo

 

FERREIRA, José Gomes, Poeta Militante 1.º Volume

 

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova -, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Sophia – Primeiro Livro de Poesia – Posfácio, Excertos

Dezembro 17, 2019 - Leave a Response

 

“(…)Constituído por obras de poetas de todos os países de língua oficial portuguesa, é um livro de iniciação, destinado à infância e à adolescência e onde procurei reunir poemas que, sendo verdadeira poesia, sejam também acessíveis.

(…)

O livro está por isso aberto a todos para que a todos esteja aberto o acesso à sua plena possibilidade.

Espero que estes poemas sejam lidos em voz alta, pois a poesia é oralidade. Toda a sua construção, as suas rimas, os jogos de sons, a melopeia, a síntese, a repetição, o ritmo, o número, se destinam à dicção oral.

(…)

Não quis fazer um livro de ensino mas apenas mostrar o poema em si próprio. Pois creio que só a arte é didáctica.

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Primeiro Livro de Poesia

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999).

Vasco Graça Moura – O Poema de Amor

Dezembro 17, 2019 - Leave a Response

 

 

“(…) cada poema de amor seduz por si e vale por si e em si, sem prejuízo das inúmeras relações que, como texto literário, ele possa estabelecer com outros textos, com outras áreas da criação artística e com a nossa própria experiência humana. (…)”

 

MOURA, Vasco Graça, 366 poemas que falam de amor

 

Vasco Graça Moura (Porto, 3/1/1942 – Lisboa, 27/04/2014)
Poeta, ficcionista, cronista, tradutor, licenciado em Direito.