Maria Velho da Costa – Escrever

Setembro 4, 2016 - Leave a Response

Maria Velho da Costa

“(…) se eu escrevesse de escrever não escreveria para ser entendida. Há para isso os correios, telégrafos e até falar.”

COSTA, Maria Velho da, Cravo (1976)

 

Maria Velho da Costa (Lisboa, 26/6/1938)
Romancista, contista, ensaísta, galardoada com vários prémios literários, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Filologia Germânica, professora do ensino secundário.

Maria Teresa Horta – Mulher-Mãe

Setembro 4, 2016 - Leave a Response

Maria Teresa Horta

“(…) Para uma mulher a mãe pode doer; sua espécie de dupla, como se fosse um espelho onde se vê refletida com demasiada precisão de traços. Mesmo que a imagem que receba de volta seja deformada, confusa, imprecisa. Ao longo dos anos irá acabar por entendê-la melhor, através de mais ou menos contradições, hesitações e recuos.”

HORTA, Maria Teresa, A Mãe na Literatura Portuguesa

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

Maria Isabel Barreno – A Língua Portuguesa

Setembro 4, 2016 - Leave a Response

Maria Isabel Barreno

” Por toda a parte aparecem “conceitos” novos. Importados, claro.

A língua inglesa é lesta a inventar novas palavras ou a incluir novos conteúdos em palavras antigas.

A língua portuguesa, pelo contrário, é lenta. Ou está lenta: tornou-se avessa às agilidades que as mudanças exigem. Dizer frases recheadas de palavras estrangeiras tornou-se uma espécie de exibição de saber e de capacidades, de luxo novo-rico.

Quando eu era criança, cantávamos o “Chapéu de três bicos”. Era um jogo: as palavras iam sendo omitidas e substituídas por gestos, quem se enganava, perdia.  Às vezes, quando vejo telejornais ou oiço outros discursos supostamente informativos, tenho a sensação de frase entrecortada: só que não há gesto, nem legenda, que nos ilumine quanto ao conteúdo do que é dito.

A língua portuguesa está a transformar-se num universo verbal cheio de buracos, mas as “autoridades” parecem apenas preocupadas com os “p” e os “c” a mais ou menos. (…)”

In JL, 21 de agosto a 3 de setembro de 2013

 

Maria Isabel Barreno (Lisboa, 10/7/1939 – 03/09/2016)
Romancista, novelista, contista, ensaísta, autora de trabalhos sociológicos e de guiões para a televisão e cinema, colaboradora de jornais e revistas, integrou o Movimento Feminista de Portugal com as escritoras: Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, com as quais é co-autora de: Novas Cartas Portuguesas, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas.

Sophia – Poema

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas

Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Al Berto – Memória da Vila de Sines

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Al Berto

” A memória é hoje uma ferida onde lateja a Pedra do Homem, hirta como uma sombra num sonho”

AL BERTO, Mar-de-Leva

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, ” A Banhos” (Continuação)

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Maria Assunção Vilhena

” (…) A criada da velhota chamava-se Rosa. Era baixa, atarracada, morena amulatada, de farta cabeleira encarapinhada. Eu achava-a muito feia e que o nome não estava de acordo com a  fisionomia. Roa era, para mim, uma flor delicada e linda. (…)

Apesar de a achar feia, tinha uma grande simpatia por ela, pois, quando apanhava a patroa ocupada, brincava comigo às escondidas ou a fazer corridas no longo corredor da entrada.

Ainda fiquei a gostar mais dela depois que a patroa chamou a mãe lá a casa para lhe fazer queixas, porque tinha lavado o chão sem pôr debaixo dos joelhos a esfregadeira de madeira. A rapariga chorou e eu, cheia de pena, ia chorando também, e passei a olhar a senhora com receio e desconfiança.

Apesar de estarmos a banhos como dizíamos, a praia era, para nós, um lugar proibido, pois meu pai tinha medo que nos afogássemos. Ao sair para o trabalho, recomendava sempre à minha mãe que não nos deixasse para lá ir brincar; só se fôssemos acompanhados. Por isso, íamos à tarde, uma ou duas horas, quando a minha mãe não tinha que fazer em casa.

Nenhum tinha fato de banho, nenhum sabia nadar; completamente vestidos, limitávamos-nos a desafiar as ondas e a correr à frente delas, ou a fazer covas que elas vinham encher.

Minha mãe sentava-se na areia a vigiar, pronta a intervir se algum se aventurava um pouco.

Nesse tempo, o acesso à praia ainda se fazia pela antiga estrada chamada o Caminho do Bispo, que acabava junto a  uma fábrica de conservas. Só em 1931 se começaram as obras da actual estrada e escadaria. (…)”

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

Ana Goês – Jogos com a Língua Portuguesa (continuação)

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

As Vogais

Pares de “frases homófonas”…

 

Sim, viu a saia, mas de testa franzida
Sim, viu a saia, mas detesta franzida!”

 

Vãos escuros são mais “sexy”…
Vão os escuros, são mais “sexy“!

 

Demonstro, não tenho nada, como vês
De monstro não tenho nada, como vês!”

 

Dissocio, não percebo nada
Disso, cio, não percebo nada…”

 

Estudantes em férias...
Estude antes em férias!”

 

Para mim, com domínio, nem pensar!
Para mim, condomínio nem pensar!”

 

Acorda já!
A corda, já

 

Disque, sim, depressa!
Diz quiser, depressa!

 

Em Malaca!
Ema, laca!”

 

Menino de coro
Menino, decoro!”

 

GOÊS, Ana, Aliás Voltas Sempre / Ali às Voltas Sempre

 

Ana Goês, Carnaxide, 1936
Poetisa e prosadora.

Florbela Espanca – Amar!

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi p´ra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… p´ra me encontrar…

 

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Fiama Hasse Pais Brandão – Epístola para o Sol

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Fiama Hasse Pais Brandão

Houve uma criança em mim que amava o teu corpo
e nele se escondia paar esta só e ausente.
E sabia então que a tua luz crua e firme
calava a ira e ofuscava a discórdia
que viviam outrora no interior dos quartos.
Hoje, assim contigo, face a face, fecho as pálpebras
e apenas com o tacto te sinto e reconheço.

 

Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15/8/1938 – Lisboa, 19/1/2007)
Poetisa, romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora
(Esposa de Gastão Cruz).

Jorge de Sena – A Portugal

Agosto 12, 2016 - Leave a Response

Jorge de Sena

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

Araraquara, 6/12/61

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/78)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.