Eduíno de Jesus – Poema do Amor Desesperado

Maio 20, 2015 - Leave a Response

Eduíno de Jesus

Espera um pouco (até que o amor de todo nos destrua!)
Amanhã, amanhã é que esta história há-de ser contada.
Então, da nossa vida e amores, não haverá mais nada
Do que um fantasma branco balouçando à lua.

Mas é agora que tudo é verdadeiro. Amanhã, quando
Não houver de nós ambos nem o nome escrito
Em letras de pedra numa pedra num canto do mundo,
Nina, quem saberá o que foi o nosso amor profundo?
O nosso amor maldito?
O nosso amor tão grande?

É preciso, é preciso dar notícia aos grandes profetas do futuro!
(Não vão depois dizer que o nosso amor era pecado…)
Não havia nenhum muro, e para trazer calado
O mundo, é que os dois, a pedra e lágrimas, levantámos a
[enorme e intransponível sombra deste muro!

Eduíno de Jesus (Ponta Delgada, Açores, 18/1/1928)
Ensaísta, dramaturgo, poeta, professor do Ensino Secundário e, posteriormente, docente universitário.

As Dúvidas do Zé-Concertina – Ratificar e Retificar

Maio 20, 2015 - Leave a Response

As Vogais

Conversa entre o Zé-Concertina, as Vogais e Outras Mais…

– Bom Dia, Sr. Zé-Concertina!

– Bom Dia, Menina Consoante R! Está muito risonha!

– Acordei bem-disposta! Como está?

– Estou bem, obrigado! Mas, tenho uma dúvida! Uma dúvida… R…

– Exponha a dúvida, Sr. Zé-Concertina, pois todo o R é comigo.

– Obrigado, Menina R! Cá vai ela! Ouvi na sede do clube que a direção do Vasquinho ia ratificar qualquer coisa que uns sócios queriam. E fiquei a cogitar se não seria retificar, mas como não tinha a certeza, fiquei caladinho, não fosse alguma modernice, por causa dessa “balhana” do “desacordo”, e que o retificar sem o c tivesse perdido o tino.

– Nada disso, Sr. Zé-Concertina! Eu explico-lhe:

. ratificar (ratu+facere) significa confirmar, validar o que foi proposto;

. retificar (rectificare), que perde o c segundo o Acordo Ortográfico, por se tratar de uma consoante muda, significa tornar reto, corrigir.

– Ah! Muito me conta, Menina Consoante R! Uma pessoa fica parva com estas coisas! Posso dar uns exemplos para ver se entendi bem?

– Faça favor, Sr. Zé-Concertina!

– Muito agradecido! Nesse caso, fica assim:

. A direção do Vasquinho ratificou a proposta daqueles sócios.

. A minha Benvinda retificou o tempero do jantar, porque pôs água demais, e aquilo não tinha gracinha nenhuma.

– Muito bem, Sr. Zé.Concertina!

– Muito obrigado, Menina R! Vou indo, que se faz tarde! Passe bem!

– Não tem de quê, Sr. Zé-Concertina! Também tenho de fazer umas entregas de riso a muita gente que anda triste!

Eduardo Lourenço – O Socialismo

Maio 20, 2015 - Leave a Response

Eduardo Lourenço

“Para ter futuro não como mera expressão na ordem político-democrática o Socialismo terá como obrigação primeira reinventar um novo discurso cultural, revisitar seriamente o seu imaginário que ainda o protege aparentemente do fascínio do discurso pseudo-liberal.”

“O Socialismo ou é ética social em acto ou não é nada. Estou certo de pouca coisa, mas não duvido de que o futuro para o Socialismo ou se alimenta dessa convicção e das consequências práticas que dela revelam ou se converterá numa legenda sem leitura e sem leitores.”

LOURENÇO, Eduardo, A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?

Eduardo Lourenço (S. Pedro de Rio Seco, 23/5/1923)
Ensaísta, filósofo, intelectual, professor universitário.

Camilo Castelo Branco – Soneto A António de Macedo Papança

Maio 19, 2015 - Leave a Response

Camilo Castelo Branco

Relata-nos Trindade Coelho, na sua obra  In Illo Tempore, entre as diversificadas aventuras estudandis coimbrãs, que um dia Camilo assistiu à récita dos Fígados de Tigre do camarote chamado “dos conselheiros”, na qual o poeta das Crepusculares, Macedo Papança, que na altura em que redigiu as suas memórias era conde de Monsaraz, fizera “um papelão”, o de Tomásia, e que aquele brindou a “exímia actriz” com a primeira quadra de um soneto, que lhe enviaria juntamente com uma carta de São Mamede de Ceide, que transcrevo:

“Il.mº e Ex.mº Sr. – Agradeço a V. Ex.ª lembrar-se deste seu admirador, em anos já tão frios e incapazes de admirações pelas formosas coisas da poesia.

Tem V. Ex.ª o condão de ser bom e amorável no meio dos seus satanismos métricos.

Os da escola de V. Ex.ª, por via de regra, alinham todas as consoantes perversas que podem, e nem sempre respeitam Deus mais do que a gramática. Quando falo na escola, não comparo V. Ex.ª como idealista aos filhos da Ideia Nova, que conversam as ondinas do Tejo e o mau Colares do Xijank. Os seus versos, meu caro poeta, são sentimentos; e, se, às vezes, parecem banalidades, isso demonstra que V. Ex.ª está nos vinte anos e é sanguíneo.

Se a crítica dos velhos quiser aplicar.lhe a lanceta, ria-se V. Ex.ª das cantáridas com que eles se ungem para o sacrifício da castidade.

Lembrou-me agora que tinha aqui na capa de uma brochura escrito o soneto do qual lhe dei a primeira quadra naquela alegre noite dos Fígados. Aí o tem inteiro na página seguinte. Se tiver um arquivo de frioleiras, ponha-o lá.

De V. Ex.ª

Adm.or e Cr.do afectuoso e Obr.do

Camilo Castelo Branco”

 

A ANTÓNIO MACEDO PAPANÇA

Destes reis da Etiópia, Arábia e Ásia

Detesto cordialmente a realeza;

Mas dobro o joelho a ti, loira princesa,

Doida cocote, lúbrica Tomásia.

 

Não lembras de Romeu a doce amásia;

Mas fazes recordar certa Teresa

Que, em banzés de Paris, mantinha acesa

A lascívia que faz arder Aspásia.

 

Quem te pôs nesses olhos requebrados

O dardo cupidíneo com que feres

Uns peitos já senis e encouraçados?

 

Tu és hermafrodita quando queres;

E na farsa dos Fígados Danados

És mulher mais mulher do que as mulheres.

 

Camilo Castelo Branco (Lisboa, 16/3/1825 – S. Miguel de Seide, 1/6/1890)
Romancista, cronista, crítico, dramaturgo, poeta e tradutor.

Ramalho Ortigão – A Holanda – Prefácio da Terceira Edição

Maio 19, 2015 - Leave a Response

Ramalho Ortigão

“Prefácio da Terceira Edição

Há onze anos que este livro foi escrito para a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Desde então até hoje têm-se transformado, cada vez mais profundamente, todos os antigos problemas de sociologia, relacio­nados com a literatura de viagens, que tem por objecto o estudo de civilizações comparadas.

A questão política cessou de interessar-nos, ao passo que a questão social de dia para dia se nos impõe com mais instância e mais violência . Vacilam todas as opiniões na filosofia e na ciência aplicada à arte de governar, perante a impotência manifesta de sanar as injustiças sociais, função de uma lei natural e irrevogável – a subjugação dos fracos pelos fortes. Nas idades passadas a Fé era um lenitivo dessa opressão, imposta à sociedade pela Natureza . Em nossos dias, porém a irreligio­sidade estancou os mananciais de resignação; e os mais poderosos gover­nos do Mundo reconhecem-se inaptos para reorganizar a virtude, decretando como no Evangelho a comiseração aos poderosos, a conformidade aos humildes.

Inútil para a História, estéril para a Filosofia, possa esta pintura sincera e comovida dos velhos lares holandeses, tão simples, tão modestos, tão recolhidos e tão meigos, ter um humilde lugar na Arte, cuja missão – hoje mais que nunca – é cultivar no coração dos homens a flor da simpatia.

Julho de 1894.

                   R.O.”

Ramalho Ortigão (Porto, 24/10/1836 – Lisboa, 27/9/1915)
Escritor, professor de Francês- de Eça e Ricardo Jorge -,
jornalista e bibliotecário.

Eugénio de Andrade – Lisboa

Maio 17, 2015 - Leave a Response

Eugénio de Andrade

Alguém diz com lentidão:

“Lisboa, sabes…”

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,

um vento súbito e claro

nos cabelos,

algumas rugas finas

a espreitar-lhe os olhos,

a solidão aberta

nos lábios e nos dedos,

descendo degraus

e degraus

e degraus até ao rio.

 

Eu sei. E tu, sabias?

 

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários.

Rui Nunes – A Minha Intimidade e a Dor dos Outros

Maio 15, 2015 - Leave a Response

Rui Nunes

 

“Ao encontrar a minha intimidade, estou mais perto da dor dos outros. Esses “outros” são também os excluídos, os que não t~em voz, os que vivem na margem do sistema. Cada vez estou mais interessado nessas margens.”

In JL, 14 – 27 Fevereiro 2007

Rui Nunes (novembro de 1947)
Escritor e professor, licenciado em Filosofia.

Sidónio Muralha – Dia de Festa

Maio 15, 2015 - Leave a Response

Sidónio Muralha

A floresta
acordada
pela madrugada
de um dia
de festa
abria
a saia rodada
e a madrugada
sorria
sorria à floresta
na madrugada da festa.

A alegria
estava lá
a poesia
estava lá,
mas onde estava a alegria
mas onde estava a poesia
só sabia
o sabiá.

Só o sabiá
sabia
sabia
o que havia

– era um sábio o sabiá.
Dono
do dia
da festa
e dono
da madrugada
só por ele a floresta
despertada
do seu sono
abria
a saia rodada.

E tudo o que lá
havia,
e tudo que havia
lá,
que se chamasse alegria
que se chamasse poesia
só sabia
o sabiá.
Ouçam como ele assobia,
assobia
o sabiá.

Sidónio Muralha (Lisboa, 28/7/1920 – Curitiba, Paraná, Brasil, 8/12/1982)
Poeta preocupado com as injustiças sociais, escritor de literatura para crianças, integrou o Movimento Neo-Realista e o Novo Cancioneiro.

Sophia – Poema de Helena Lanari

Maio 15, 2015 - Leave a Response

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Geografia

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Locuções Latinas – Pari Passu / Passim / Pater Familias / Per Capita / Persona Non Grata /Post Mortem / Post Scriptum / Primus Inter Pares / Pro Forma

Maio 15, 2015 - Leave a Response

As Vogais

As locuções latinas mencionadas em título continuam a ser utilizadas.
Eis o significado de cada uma delas:

pari passu —————————– com o mesmo passo

passim ——————————— com frequência

pater familias ————————- pai de família

per capita —————————— por cabeça

persona non grata ——————– pessoa caída em desgraça

post mortem ————————— depois da morte

post scriptum (p.s.) ——————- depois de escrito

primus inter pares ——————– primeiro entre iguais

pro forma —————————— por formalidade

(continua)

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