Fernando Namora – Amanhecer

Maio 9, 2018 - Leave a Response

 

Germinam as manhãs
no orvalho insone.

Rufam em surdina
as asas da aparição
até lhe doerem
o sangue dos rebentos.

Quem soa no clarão
das aleluias?
Quem navega nos céus
dos navios despertos?

São meninos
meninos a rir
no espreguiçar dos ventos.

 

In presença, folha de arte e crítica, coimbra, março, 1977 
cinquentenário Número Único  1927-1977

 

Fernando Namora (Condeixa, 15/4/1919 –Lisboa, 31/1/1989)
Poeta, contista, romancista, novelista, biógrafo, escritor de memórias e narrativas de viagens.
Licenciado em Medicina.

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Adolfo Casais Monteiro – Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos

Maio 9, 2018 - Leave a Response

 

E aqui estou eu,

ausente diante desta mesa –

e ali fora o Tejo.

Entrei sem lhe dar um só olhar.

 

Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,

e saudá-lo deste canto da praça:

“Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!”

Não, não olhei.

Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado

me lembrei que estavas aí, Tejo.

Passei e não te vi.

Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

 

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando

Pessoa se sentava,

contigo e os outros invisíveis à sua volta,

inventando vidas que não queria ter.

Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

 

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,

tudo indiferença e falta de resposta.

Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,

e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,

Tejo que não és da minha infância,

mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,

majestade sem par nos monumentos dos homens,

imagem muito minha do eterno,

porque és real e tens forma, vida, ímpeto,

porque tens vida, sobretudo,

meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado…

Eu que me esqueci de te olhar!

 

Adolfo Casais Monteiro (Porto, 4/7/1908- S. Paulo, 23/07/1972)
Poeta, ensaísta, professor universitário, licenciado e, Ciências Histórico-Filosóficas.

Grupos Naturais – Dar o Dito por não Dito / Dar o Flanco / Dar o Piro / Dar Pano para Mangas / Dar o seu a seu Dono

Maio 8, 2018 - Leave a Response

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar o dito por não dito – voltar com a palavra atrás; faltar ao prometido.

       Ex.: O empreiteiro garantiu que o apartamento seria para o jovem casal, mas na hora do contrato de compra e venda deu o dito por não dito.

 

Dar o flanco – revelar as verdadeiras intenções; mostrar o ponto fraco.

      Ex.: O Sr. Vivaço deu o flanco relativamente à admissão da nova secretária.

 

Dar o piro – pirar-se; fugir.

      Ex.: O sócio deu o piro depois de desviar o dinheiro das vendas.

 

Dar o seu a seu dono – dar a cada um o que lhe pertence, merece, tem direito; fazer justiça.

      Ex.: Finalmente a Susana foi promovida; deu-se o seu a seu dono!

 

Dar pano para mangas – oferecer muita matéria para discutir, trabalhar.

      Ex.: O tema escolhido pela Vitória dá pano para mangas; nem ela imagina!

(continua)

Frederico Lourenço – Homero, ODISSEIA, Outra Tradução

Maio 8, 2018 - Leave a Response

 

“(…) Em 2003, o meu objetivo foi dar a conhecer o poema a quem se interessasse por poesia. Em Portugal, na altura, havia apenas duas traduções em prosa, feitas a partir do francês. Ou seja, a maior parte das pessoas não fazia ideia do que era ler Homero. Dei mais atenção à beleza da linguagem, espelhando a transparência e a simplicidade do original. (…)

Com as notas no final de cada canto esta nova edição permite ler a Odisseia como um poema deslumbrante e como um problema crítico que ocupa estudiosos há muitos séculos. (…)

Na Odisseia todas as pessoas são intrinsecamente contraditórias. É um poema que está permanentemente a desarrumar as nossas convicções sobre o humano e o divino, a ética e a moral.”

In JL 28 de fevereiro a 13 de março de 2018

 

Frederico Lourenço (Lisboa, 8/5/1963)
Romancista, contista, tradutor, vencedor de vários prémios literários, em 2016 o Prémio Pessoa, professor universitário.

António Osório – Antemanhã

Maio 8, 2018 - Leave a Response

 

A cidade acorda
com distantes ruídos
de carros, aves, gente
que se levanta e sai.

Então o sol
acompanha as bilhas
do leite e os cestos do pão;
leva os operários
até à porta da fábrica;
anda nos mercados,
aquece a fruta.

António Osório [de Castro] (Setúbal, 1/8/1933)
Poeta, colaborador das revistas: O Tempo e o Modo, Seara Nova, Vértice e Colóquio/Letras, um dos fundadores da Anteu, 1954,  licenciado em Direito.

Fiama Assa Pais Brandão – O Sopro

Maio 8, 2018 - Leave a Response

 

Os meus poemas reunidos no seu todo

são o meu som. O meu sopro

está neles, não está a boca que os soou.

Faze os poemas, através da vida,

é pegar em meus gritos emudecidos

para que fiquem melódicos, em papéis.

 

Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15/8/1938 – Lisboa, 19/1/2007)
Poetisa, romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora
(Esposa de Gastão Cruz).

Gestão Cruz – A minha profissão

Maio 8, 2018 - Leave a Response

 

O dia desde o início me pedia
do corpo a alma física: a matéria
imortalmente morta enquanto viva
talvez fosse o que me fazia crer

no desconcerto incrível dos meus dias
e um deles viria
fundar a profissão desconhecida:
o que fiz apenas aprender

a língua rude que ninguém ensina
e quem escuta nem mesmo sempre entende
ou só entende como dia visto
ao sol negro dos seus próprios sentidos

 

Gastão Cruz (Faro, 20/7/1941)
Poeta, crítico literário, encenador, licenciado em Filologia Germânica.

Carlos de Oliveira – Carta a Gastão Cruz

Maio 7, 2018 - Leave a Response

 

“21/1/1981

 

Caro Gastão Cruz: Obrigado pelo seu postal.

As coisas correm melhor, pelos vistos. E ainda bem. Quanto à emenda no Orgão das Luzes, não sei. Trocar dois belos adjectivos camonianos (vil e seco) por uma pequena aliteração (escamas espessas)? E a violência, o desespero? Se fosse a V., deixava ficar pelo menos “escamas secas”. Num corpo moribundo, áspero, sem ternura (penso eu).

Cá vou vivendo entre velhos papéis, envelhecendo mais ou menos assim:

Que tessitura arde
ainda no interior do dia?
a fio a fio,
nos vai fechando os olhos
com os seus flashes de gelo,
cautelosamente.

Que desígnio preciso
contra as pálpebras fechadas?
aprendemos
como presa uma ave;
melhor, onde deve poisar,
o rumor, o detrito sem peso:
no extremo da memória
ou apenas
na árvore indiferente?

1972

Escreva sempre. Um abraço muito amigo do
Carlos de Oliveira”

In JL 31 de janeiro a 13 de fevereiro de 2018

 

Carlos de Oliveira (Belém do Pará, Brasil, 10/8/1921 – Lisboa, 1/7/1981)
Poeta, romancista, cronista, coautor de Contos Tradicionais Portuguesescom José Gomes Ferreira, 1953, colaborador nas revistas: Altitude,  Seara Nova e Vértice, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Maria Teresa Maia Gonzalez – Cecília

Maio 7, 2018 - Leave a Response

 

Teus dedos

sublimes

verticais

são cordas místicas

da cítara encantada

que anuncia a alvorada

aos imortais

 

GONZALEZ, Maria Teresa Maia, Retratos Imperfeitos

 

Maria Teresa Maia Gonzalez (Coimbra, 1958)
Escritora, professora, co-autora da Colecção O Clube das Chaves, licenciada em LLM – Estudos Franceses e Ingleses.

Miguel Torga – Balsemão

Maio 7, 2018 - Leave a Response

 

Balsemão, 21 de Setembro de 1944

BALSEMÃO

O nome é todo do rio,
E é nos rios que eu navego;
Mas também vm ver o frio
Desta capela onde prego.

Falo a um bispo medievo,
Com paramentos e tudo,
Que a este sermão que escrevo
Fica mudo.

Um Dom qualquer de granito
Coberto  de eternidade
Que não pode ouvir o grito
De um homem da minha idade.”

TORGA, Miguel, Diário

 

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX,  galardoado com o Prémio Camões em 1989, médico.