Maria Alzira Seixo – Endimião, Endimião

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Maria Alzira Seixo

Endimião, Endimião,
porque existes só para seres sombra
do desejo mais forte.
Apelas para o elo
que a boca bem redonda continua.
O beijo, sede de água
luminosa soando a pedra fresca
escondida pelo rio.
Só faltam assim as mãos.
A empatia.
(O senso mais medido.)
Endimião, não quero teu busto
ao canto da casa que me ergo,
não quero a cegueira empedernida.
És, ouve bem,
a pura forma de encontrar a via,
o sono,
o canto da lonjura.
A imobilidade rasa da
resignação.
Amar-te o silêncio
à natureza.

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, professora catedrática.

Gentil Valadares – Filha do Sol e da Lua

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Gentil Valadares

Filha do Sol e da Lua!
Digo baixinho, se passas,
Se te encontro pela rua…
Filha do Sol e da Lua!
És do Sol, sim, por ser loira
Essa cabeleira tua.

Filha do Sol e da Lua!
Da Lua, sim, por ser branca
A carne que trazes nua.

Tranças d’oiro…, tranças d’oiro…
Filha do Sol e da Lua!
Transformam-te num tesoiro.

Teus olhos, que são dois astros,
Filha do Sol e da Lua!
Deixa os contemple de rastros.

E te manche as finas vestes,
Filha do Sol e da Lua!
Com estes lábios agrestes…

Que doçura a imagem tua,
De fogo e neve celestes…
Filha do Sol e da Lua!

Gentil Valadares de Seixas (Chaves, 25/2/1916 – Alvor, 17/9/2006)
Poeta, colaborador em publicações, membro da Associação Portuguesa de Escritores.

Eugénio de Castro – Três Rosas

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Eugénio de Castro

Sempre, mas sobretudo nas brumosas
Horas da tarde, quando acaba o dia,
Quando se estrela o céu, tenho a mania
De descobrir, de ver almas nas cousas.

Pendem deste gomil três lindas rosas;
Uma é rosada, a outra branca e fria,
Rubra a terceira; e a minha fantasia
Torna-as humanas, vivas, amorosas.

Sei que são rosas, rosas só! mas nada
Impede, enquanto cai lá fora a chuva,
Que a minha mente a fantasiar se ponha:

Por ser noiva a primeira, é que é rosada;
Branca a segunda está, por ser viúva;
A vermelha pecou … e tem vergonha!

Eugénio de Castro (Coimbra, 4/3/1869 – Coimbra, 17/8/1944)
Poeta, marcou o início do Simbolista em Portugal com o livro de poemas Oaristos (1890), colaborou nas revistas Os Insubmissos e Boémia Nova, licenciado em Letras, professor catedrático.

Maria Ângela Alvim – V

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Maria Ângela Alvim

V
Moro em mim? No meu destino, largado
partido em mil?
Moro aqui? Demoraria
sempre aqui, sem me saber – fugindo sempre
estaria?
Eis um lugar. Degredo
(de quê?). Dimensão se perseguindo
num sonho? – Sim, que me acordo.
Tudo existe circunstante
e ninguém para me crer.
Sou eu o sonho,
momento da ausência alheia (que devasso quase fria).
Morte, vida recente,
subindo em mim a resina,
ungüento de noite, amor.

As sombras e seus véus,
tantos véus – o mais sucinto
preso a meu corpo (aparente?)
me divide em dois recintos.
Um deles sendo equilíbrio
noutro posso me conter.
Avanço no sono aberto
até a altura do dia,
fria, fria,
mais fria, minha pele
filtra a aurora – neste tempo
aquela hora, seu pulso de instante e ocaso.

Eis que me encontro. Limite
de transparência e contato
entre a luz e meu retrato, na casta
parede – a louca?
Marulho d’água, caindo
dentro de mim, claridade.
Graça de mãos mais presentes,
que minhas mãos, já vazias
de sua forma, na palma.
Que gesto extenso as reteve
sempre além, configuradas?

E este azul, quase em branco
se desfazendo (na carne?).
Ah! Três retinas cortadas
de um prisma, se amanhecidas
nestes vidros, na vigília.
Ah! Três retinas pousadas
em ver, em ver contemplando
(ser, será o esquecimento
de quanto somos – pensando?).

Maria Ângela Alvim (Volta Grande, Minas Gerais, 1/1/1926 – Rio de Janeiro, 19/10/1959)
Poetisa.

Maria Azenha – Isto de Ser Poeta

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Maria Azenha

isto de ser poeta
(posso dizer que depois de a ler
não posso abrir “ o quarteto
a solo” incomoda como andar
ao Sol num dia de verão
sem ter um banco de jardim
onde pousar as letras)

hoje em dia um poeta
vale menos do que um cão
isto de deixar fugir os versos
pela internet dentro
causa-me uma grande aflição
e se amanhã eles não estiverem lá
que posso eu fazer
é muito perigoso escrever livros
hoje em dia hoje
vêm os vírus e apagam tudo
afectam as paredes do pc
não fica mesmo nada
é como se fosse tudo cego
o écran esconde as letras todas
ai senhor doutor ai senhor
doutor tenho uma dor de versos
tenho muito medo
preciso que me valha
sofro com isto tudo
é como se o meu sangue
fugisse todo pelo écran dentro
acordar de manhã ir ao sítio certo
e não ver lá nada
isto de ser poeta é uma grande aflição
ai senhor doutor ai senhor
doutor se calhar o melhor é ficar quieta
não escrever nada ficar muito quieta
ficar tudo na cabeça
não usar shampoo
porque os versos podem apagar-se
fugir todos como no écran
ai senhor doutor o remédio é ficar quieta
escrever coisas sem importância
pode alguém espreitar e apagar tudo
que é pior do que roubar alguém
pois não fica nada
e amanhã senhor doutor os poetas
escreverão poemas
só com uma simples troca de olhares
e os versos voltarão a ver-se

ai senhor doutor ai senhor doutor
isto de ser poeta

é uma grande aflição

Maria Azenha (Coimbra, 29/12/1945)
Poetisa, professora, licenciada em Ciências Matemáticas.

Maria de Lourdes Belchior – Mel da Minha Infância

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Maria de Lourdes Belchior

Mel da minha infância

pão quente com pimenta e manteiga

e o sorriso quase malicioso de meu Pai

Mel da minha infância:

os cucos, a cucaria que se vestia

ao pendurar roupa manufacturada

apurada, pronta a vestir, pronta a servir

no cordame da varanda

Mal da minha infância:

ignorância feita de inocência

e a paciência de minha avó

a ensinar-em a recta pronúncia

das palavras aprendidas no dia a dia

Mel da minha infância:

para lá do pão quente com pimenta e manteiga

para lá do mundo do quintal florido

na primavera onde era o sonho?

a que distância o sonho da minha infância…

 

BELCHIOR, Maria de Lourdes, Gramática do Mundo

Maria de Lourdes Belchior (1923 – 4/6/1988)
Ensaísta, investigadora, poetisa, professora catedrática, figura de renome na cultura portuguesa.

Adolfo Casais Monteiro – Procura…

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Adolfo Casais Monteiro

“Procura sempre aquilo que te ofenda

o ritmo sem ritmo, a palavra rude

e deixa que os outros façam pitagóricos

equilíbrios de sons, ideias, e sentidos”

 

Adolfo Casais Monteiro (Porto, 4/7/1908- S. Paulo, 23/07/1972)
Poeta, ensaísta, professor universitário, licenciado e, Ciências Histórico-Filosóficas.

Fernando Lemos – Que Sei de Mim?

Abril 2, 2015 - Leave a Response

Fernando Lemos

“Mas que sei

de mim do que acaba em mim?

do que em mim começa”

 

Fernando Lemos (Lisboa, 1926)
Fotógrafo, poeta, jornalista, pintor, publicitário e desenhador .

Prefixos de Origem Latina: bem-, ben-; bene-; circum-, circun-; cis-; com-, co-, con-, cor-; contra- 

Março 25, 2015 - Leave a Response

As Vogais

A Língua portuguesa é constituída por numerosos elementos de origem latina e grega na formação das suas palavras. O seu conhecimento facilita-nos a compreensão do seu significado.

Eis alguns exemplos:

1. Prefixos de Origem Latina

 

Prefixo                                                           Significado                              

bem-, ben-                                                    ideia de bem

Ex.: Bem-amado; bendito

 

bene-                                                              a favor de

Ex.: Benefício

 

circum-, circun-                                        mov. à volta de

Ex.: Circum-navegação, circunvalação

 

cis-                                                                  posição aquém

Ex.: Cisalpino

 

com-, co-,  con-, cor-                              companhia, união                     

Ex.: Compor, coabitar, contercorroborar

 

contra-                                                       oposição, proximidade

Ex.: Contra-ataque

(continua)

Sebastião da Gama – Meu País Desgraçado

Março 25, 2015 - Leave a Response

Sebastião da Gama

Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas …

Meu país desgraçado!…
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

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