Eugénio de Andrade – Lisboa

Fevereiro 15, 2021 - Leave a Response

Alguém diz com lentidão:

“Lisboa, sabes…”

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,

um vento súbito e claro

nos cabelos,

algumas rugas finas

a espreitar-lhe os olhos,

a solidão aberta

nos lábios e nos dedos,

descendo degraus

e degraus

e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Florbela Espanca – Lembrança

Fevereiro 15, 2021 - Leave a Response

Fui Essa que nas ruas esmolou
E fui a que habitou Paços Reais;
No mármore de curvas ogivais
Fui Essa que as mãos pálidas poisou…


Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho à porta dos casais…
Fui descobrir a Índia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que não voltou…


Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes…


Tudo em cinzentas brumas se dilui…
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido… dantes!…

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Ruy Cinatti – [Meninos Tomaram Coragem…]

Novembro 12, 2020 - Leave a Response

 

Meninos tomaram coragem

Para beberem os rios;

E começaram viagem

Para chegarem aos rios.

 

Manhã de partida,

Tão fria, tão alva.

Horizonte encantado.

“Olhai, que ali nos vamos”.

 

Músculos ainda tenros

Empurraram montanhas.

As fontes da água

Resvalam nos vales.

 

Na foz de todos os rios

Os meninos estão velhos.

A água bebida

Vem do mar profundo.

 

Meninos bailai.

Bebei os soluços,

Mas dançai, dançai…

Até cair de bruços.

 

Ruy Cinatti (Londres, 8/3/1915 – Lisboa, 12/10/1986)
Poeta, agrónomo, antropólogo, cofundador de Cadernos de Poesia.

Antero de Quental – Oceano Inox

Novembro 12, 2020 - Leave a Response

 

Junto do mar, que erguia gravemente 

A trágica voz rouca, enquanto o vento 

Passava como o voo do pensamento 

Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

 

Junto do mar sentei-me tristemente, 

Olhando o céu pesado e nevoento, 

E interroguei, cismando, esse lamento 

Que saía das coisas, vagamente… 

 

Que inquieto desejo vos tortura, 

Seres elementares, força obscura? 

Em volta de que ideia gravitais? –

 

Mas na imensa extensão, onde se esconde 

O Inconsciente imortal, só me responde 

Um bramido, um queixume, e nada mais… 

 

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político. Licenciado em Direito.

Casimiro de Brito – [Horas e Horas…]

Novembro 10, 2020 - Leave a Response

Horas e horas deitado na areia caído

Na areia 

Ou por algum braço arremessado. Pouco a pouco

Deixei de sentir os grãos finíssimos

Colarem-se-me à pele. Deixei de ver

O céu que meus olhos olhavam.

As primeiras ondas que me tocaram os pés

Ainda as senti — bocas minúsculas

Bebendo o meu sangue silencioso —

Mas as segundas já não eram frias nem quentes 

já não eram

Suaves nem ríspidas já não possuíam

Lábios nem dentes. E nada sei

Das seguintes como nada já sabia

Da areia nem do sal nem dos bichos que passavam

Por cima do meu corpo depois de terem passado

Pelo corpo da areia.

Durante algum tempo durante a rigorosa 

[eternidade

De um momento

Foi como se eu fosse também areia mar e sol

E talvez eu tenha sido

Areia sol e mar. O resto

É vento.

Casimiro de Brito (Loulé, 14/1/1938)
Poeta, ensaísta e ficcionista.

Carlos Drummond de Andrade – Infância

Novembro 10, 2020 - Leave a Response

A Abgar Renault


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.


No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.


Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro… que fundo!


Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.


E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


Carlos Drummond de Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia.

Henrique Matos – Praia

Novembro 9, 2020 - Leave a Response

Silenciosa

A luz da tarde vinha encostar-se à sesta do teu corpo

Eu ficava muito quieto

A olhar o teu umbigo a dormir

(Inédito)

In Nova Antologia de Poetas Alentejanos

Nota: “Discreta”, mas calorosa e “legítima” biografia alentejana de quem: “Vim nascer a Portugal e fiquei com a alma votada para o Sul. A minha primeira memória é de Marvão (…). Trepei pela infância e adolescência em Évora e pousei uns anos na moura Beja, e por isso o Alentejo é um destino do coração. (…) Ainda me espanto muito com isto de estar vivo”

Ao poeta…Se me permite, espanto-me, respeitosamente, se nunca pousou o pé no areal do litoral alentejano!

Grupos Naturais – Dar Pelo Nome De / Dar Pontos / Dar Por, Não / Dar Por Achado, Não Se / Dar Por Nada, Não / Dar Por Paus e Por Pedras

Novembro 9, 2020 - Leave a Response

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Dar pelo nome de – alcunhado de; ser conhecido/chamado pelo nome de.

      Ex.: Era um vaidoso que dava pelo nome de Pompeu.

Dar pontos – coser.

      Ex.: A avó dá pontos nas meias do Zé, que estão rotas.

Dar por, não – reparar, ver, aperceber-se.

         Ex.: A Joana estava tão atenta à leitura, que não deu pela chegada do pai.

Dar por achado, não se – fazer-se desentendido, não dar a entender que sabia.

         Ex.: O pai perguntou ao João por que tinha as ténis sujos, mas ele não se deu por achado.

Dar por nada, não – não ver /dar conta de nada.

         Ex.: A Paulina abriu a porta devagarinho e fechou-a, mas o pai, debrucado sobre a secretária, não deu por nada.

Dar por paus e por pedras – zangar-se, disparatar, barafustar.

         Ex.: Quando descobriu que tinha sido enganada, a Justina deu por paus e por pedras.

(continua)

Fiama Hasse Pais Brandão – Canto do Génesis

Novembro 8, 2020 - Leave a Response

Ao princípio era a luz, depois o céu

azul porque a luz se embebe

nas camadas de ar que olhamos.

Ao princípio era a Paixão e engendrou

Do seu sangue os animais, da sua

Cruz as plantas. Era, ao princípio,

O animal-vegetal minúsculo, oculto

No Paraíso, mas omnipresente

desde o ante-princípio. E da argila

ou da terra adâmica formou-se a Natureza

e o Homem, banhados pela luz

que recortou linhas e volumes vagos.

Ao princípio era o martírio

e a bênção daquele que trabalha

o seu corpo e o seu pão de sol a sol.

E os frutos fulguraram nessa luz

quando as águas se apartaram

e o mar, até hoje, quebra e requebra a onda

para eu ouvir o som do início.

Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15/8/1938 – Lisboa, 19/1/2007)
Poetisa, romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora
(Esposa de Gastão Cruz).

Sophia – Regresso

Novembro 8, 2020 - Leave a Response

Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo.

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vem do mar.

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)