Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Francisco José Tenreiro – Negro de Todo o Mundo  

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

O som do gongue
ficou gritando no ar
que o negro tinha perdido.

Harlém! Harlém!

América!

Nas ruas de Harlém
os negros trocam a vida por navalhas!

América!

Nas ruas de Harlém
o sangue de negros e de brancos
está formando xadrez.

Harlém!

Bairro negro!

Ringue da vida!

 

Os poetas de Cabo Verde
estão cantando…

Cantando os homens
perdidos na pesca da baleia.
Cantando os homens
perdidos em aventuras da vida
espalhados por todo o mundo!

Em Lisboa?
Na América?
No Rio?
Sabe-se lá!…

 

— Escuta.
É a Morna…

Voz nostálgica do cabo-verdiano
chamando por seus irmãos!

 

Nos terrenos do fumo
os negros estão cantando.

Nos arranha-céus de New-York
os brancos macaqueando!

Nos terrenos da Virgínia
os negros estão dançando.

No show-boat do Mississípi
os brancos macaqueando!

Ah!
Nos estados do sul
os negros estão cantando!

A tua voz escurinha
está cantando
nos palcos de Paris.

Folies-Bergères.

Os brancos estão pagando
o teu corpo
a litros de champagne.

Folies-Bergères!

Londres-Paris-Madrid
na mala de viagens…

Só as canções longas
que estás soluçando
dizem da nossa tristeza e melancolia!

 

Se fosses branco
terias a pele queimada
das caldeiras dos navios
que te levam à aventura!

Se fosses branco
terias os pulmões cheios
de carvão descarregado
no cais de Liverpool!

Se fosses branco
quando jogas a vida
por um copo de whisky
terias o teu retrato no jornal!

Negro!

 

Na cidade da Baía
os negros
estão sacudindo os músculos

Ui!
Na cidade da Baía
os negros
estão fazendo macumba.

Oraxilá! Oraxilá!

Cidade branca da Baía.
Trezentas e tantas igrejas!

Baía…
Negra. Bem negra!
Cidade de Pai Santo.

Oraxilá! Oraxilá!

 

Francisco José Tenreiro (São Tomé, 1921-1963)
Poeta, ensaísta, contista, colaborador de diversas publicações Integrou a Casa dos Estudantes do Império, co-fundador do Centro de Estudos Africanos, professor universitário, doutorado em Ciências Geográficas (FLUL) e em Ciências Sociais (Inglaterra,1961).

Mário Dionísio – Utilidade

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

Só as mãos que se estendem para a frente interessam.

Só os olhos que vêem para além do que se vê,

só o que vai para o que vem depois,

só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,

só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda, nem nunca,
[será nossa,
interessa.

 

Mário Dionísio (Lisboa, 16/7/1916 – Lisboa, 17/11/1993)
Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico, professor universitário.

Grupos Naturais – Dar Ares de / Dar Arrelias / Dar as Boas Festas (ou as boas-noites, as boas-vindas) / Dar as Cartas / Dar às Gâmbias / Dar as Horas / Dar as Mãos 

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Dar ares de – parecer-se um pouco.

Ex.: O Filipe uns ares do irmão.

 

Dar arrelias – aborrecer.

Ex.: O Mauro muitas arrelias à mãe.

Dar as Boas Festas (ou as boas-noites, as boas-vindas) – saudar.

Ex.: Não lhe escreves a dar as Boas Festas?

Antes de te deitares, dá as boas-noites ao avô.

Quando o vir, vou dar-lhe as boas-vindas.

 

Dar as cartas – pôr e dispor; distribuir cartas pelos jogadores.

Ex.: Nas reuniões, quem dá as cartas é a Júlia.

Agora és tu a dar as cartas.

 

Dar às gâmbias – dançar.

 Ex.: O João deu às gâmbias no baile da Paróquia.

 

Dar as horas – dar as badaladas.

 Ex.: O relógio da torre dá as horas adiantadas.

Dar as mãos – unir-se, juntar esforços; apertar as mãos.

  Ex.: Os verdadeiros amigos dão as mãos nas horas difíceis

          As amigas deram as mãos e abraçaram-se.

(continua)

Marquesa de Alorna – “Como Está Sereno o Céu”

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a Lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

 

D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (Lisboa, 31/10/ 1750 – Lisboa,  11/10/ 1839)
Conhecida por “Alcipe”, nome que adoptou na Arcádia.
Poetisa, escreveu sobre literatura, sociedade e política, traduziu a Arte Poética de Horácio e o Ensaio sobre a Crítica de Pope.

António Botto – Curiosidades Estéticas

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

 

António Botto (Concavada, Abrantes, 1897 – Rio de Janeiro, 12-3-1959)
Poeta, autor de contos infantis, O Livro das Crianças, amigo de Fernando Pessoa.

José Régio – Baptismo

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

A António Botto

Foi numa tarde, há muito!, em que eu morria
Como num sonho ansiosamente vago.
Via nuvens fugindo sobre um lago,
Lá num deserto onde o luar nascia.

Morria a ouvir nem sei que melodia
Fluir da flauta de não sei que mago…
e uma figura erguia-se do lago,
Vinha, mordia-me no peito…, e ardia.

A  minha mãe que estava ao lado, quieta,
Eu dizia: – “Mamã, quero ser poeta!”
E consumia-a num abraço estreito.

… De noite, ergueram-se uivos do horizonte.
E eu sentia correr, como uma fonte,
A chaga que se abrira no meu peito!

RÉGIO, José,  Não Vou Por AÍ

 

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica.

Saúl Dias – O Fogão

Abril 23, 2017 - Leave a Response

– Lua – arlequim
tão longe de mim,
papagaio
com um fio sem fim,
apaga o teu clarão
para que nasça a escuridão
e, assim,
eu me entretenha
incendiando a lenha
de um antigo fogão…!

In  Presença

 

Saúl Dias (Vila do Conde, 1/11/1902 – Vila do Conde, 1983)
Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira
Irmão de José Régio, poeta, pertenceu ao Movimento da Presença, colaborador em vários jornais, desenhador e pintor – assinava as suas obras com o nome próprio -, engenheiro civil.

Vanda Sôlho – Exortação à Vida

Abril 23, 2017 - Leave a Response

Libertem-se os sentidos

Em girândolas de cor

Enfeitem-se os dias

Como jardins em flor

Perfumem-se as noites

Com salpicos de desejo

Cubram-se os corpos

Com mantos cor de luar

Experimentem-se novos passos

Na dança louca dos ventos

Aperte-se o mundo nos braços

Rasgue-se o passar dos tempos

Acendam-se mil estrelas

Acordem-se fantasias

Alcancem-se todos os zénites

Entre sonhos e alquimias

Escutem-se rumores secretos

Em secreto murmurar

Com eles invente-se a vida

E os tempos por chegar

 

Vanda Sôlho (Setúbal, Janeiro de 1949)
Poetisa, fotógrafa, bacharel em Comunicação Social.

Tiago Patrício – A Emigração

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

“A palavra emigração traz-me recordações das histórias do meu avô, mas também das minhas vizinhas da Rua Cabo das Tapadas que viviam em França com os pais e que regressavam em agosto.

Vinham em carros que enchiam as ruas e nós passávamos aquele mês fascinados  com elas.

Durante o inverno não as esquecíamos completamente e por vezes dava por mim a imaginar como seria a vida delas onde dali, como seriam as suas casas das escolas, os amigos e também a relação delas com a língua francesa.”

In JL, “Estante /Letras”,  18 a 31 de março de 2015

 

Tiago Manuel Ribeiro Patrício (Funchal, 1979)
Romancista, contista, poeta, dramaturgo, vencedor de vários prémios literários, licenciado em Ciências Farmacêuticas.

Luís de Camões – Sextina

Abril 23, 2017 - Leave a Response

 

Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
(se por acasa é verdade que inda vivo);
vai-se-me o breve tempo d´ante os olhos;
choro pelo passado; e, enquanto falo,
se me passam os dias passo a passo.
vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca ua hora viu tão longa vida
em que do mal mover se visse um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro, enfim? Para que falo,
se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó formosos, gentis e claros olhos,
cuja ausência me move a tanta pena
quanta se não compreende em quanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
de vós me inflamasse inda o raio vivo,
por bem teria todo o mal que passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
me há-de vir a cerrar os tristes olhos
que Amor me mostre aqueles por quem vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
que escreveram de tão molesta vida
o menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento n´outro passo,
vejo tão triste género de vida
que, se lhe não valerem tanto os olhos,
não posso imaginar qual seja a pena
que traslade esta alma com que vivo.

N´alma tenho cantina um fogo vivo,
que, se não respirasse no que falo,
estaria já feita cinza a pena;
mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
me temperam com lágrimas os olhos
com que fugindo não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
vejo sem olhos, e sem língua falo;
e juntamente passo glória e pena.

 

Luís de Camões (1517 e 1524(?) – Lisboa. 10/6/1580)
O maior poeta português de todos os tempos.