António Gedeão – Arma Secreta

Fevereiro 15, 2017 - Leave a Response

António Gedeão

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dipara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência.

Sebastião da Gama – Papagaio de Papel

Fevereiro 15, 2017 - Leave a Response

Sebastião da Gama

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!…

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

Vitorino Nemésio – O Futuro Perfeito

Fevereiro 15, 2017 - Uma resposta

Vitorino Nemésio

À minha neta Anica

A neta explora-me os dentes,
Penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
Meu rosto diverte-a, parda
Imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos,
Fura-me os olhos cansados,
Intima aos meus próprios medos
Deixa-mos sossegados.

E tira, tira puxando
Coisas de mim, divertida.
Assim me vai transformando
Em tempo da sua vida.

NEMÉSIO, Vitorino, O Verbo e a Morte 

Vitorino Nemésio (Açores, Praia da Vitória, 19/12/1901 – Lisboa, 20/2/1978)
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador de literatura e cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo, comunicador televisivo, professor universitário.

Matilde Rosa Araújo – Mise

Fevereiro 15, 2017 - Uma resposta

Matilde Rosa Araújo

Eu fui ao cabeleireiro
E pedi:
– Faça-me uma mise por favor.
E o cabeleireiro respondeu:
– Com certeza, Mademoiselle!
Passadas duas horas,
Muita água quente, shampoo frio, tesouras, pentes, ganchos e calor
O cabeleireiro, ao fim, deu-me um espelhinho oval
Para as mãos
E disse:
– Tenha a bondade de olhar, Mademoiselle.
E eu tive a bondade; olhei o espelhinho oval
E mais o grande que já tinha em frente.
E falei para o espelhinho oval:
– Boa tarde, Senhora Dona.
Donde é que eu a conheço?
E o cabeleireiro, então, pôs muito fixador
Pf…Pf…Pf…Pf…Pf…
e eu cresci muito naquele dia.

 

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 18/6/1921 – Lisboa, 6 /7/2010)
Contista, poetisa e novelista com prevalência na literatura infanto-juvenil, professora, licenciada em Filologia Românica.

Cecília Meireles – Venturosa de Sonhar-te…

Fevereiro 15, 2017 - Leave a Response

cecilia-meireles

Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)

-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!

Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.

-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Onomatopeias – Nova Versão, Outros Ruídos – Ramagem / Relógio / Sino / Tambor / Tecido / Trovão / Vento / Vinho

Fevereiro 15, 2017 - Leave a Response

As Vogais

Onomatopeias são as palavras que imitam as vozes de pessoas ou animais, e os ruídos da natureza e de objectos.

A atual publicação terá uma nova apresentação relativamente às anteriores:

1.Vozes de Animais – concluída!

2. Outros Ruídos ou Sons da Natureza e de Objetos

Ramagem ————————- rumorejar

Relógio —————————- tiquetaque

Sino ——————————– badalar; tão-balalão

Tambor ————————— rataplã

Tecido —————————– frufru

Trovão —————————- ribombar

Vento —————————– ulular

Vinho —————————- gorgolejar.

Fim

José Carlos de Vasconcelos – Os Versos Guardados

Fevereiro 11, 2017 - Leave a Response

José Carlos de Vasconcelos

 

Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

como lençóis de seda fina
ou anel de noivado

como guarda o pobre
as migalhas que não come

como guarda a menina
a boneca antiga

Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

pelo tempo fora
o tempo todo

caminhando descalço
sobre um rio
de lume

ou lodo

José Carlos de Vasconcelos (Freamunde, Paços de Ferreira, 10/9/1940)
Poeta, jornalista, advogado, Director do Jornal de Letras e coordenador editorial da revista Visão, galardoado com o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, 2017.

Albano Martins – Ofício e Morada

Fevereiro 11, 2017 - Leave a Response

Albano Martins

 

De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rotuais.

De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.

De comércio sabemos.
Com âncoras e astro
lábios medimos
nossa rota inscrita
na retina. Exaustos,
entre aquáticas
florestas, perseguimos
os veados do sol
e da vertigem. Por
obscuras silícias
e cretas navegamos.

 

Albano Martins (Telhado, Fundão, 6/8/1930)
Poeta, fundador da revista Árvore, colaborador de publicações, professor universitário, licenciado em Filologia Clássica.

José Blanc de Portugal – Ode a Lisboa

Fevereiro 11, 2017 - Leave a Response

José Blanc de Portugal

 

Ó cidade, ó miséria
Ó tudo que entediava
Meus dias perdidos no teu ventre
Ó tristeza, ó mesquinhez cativa
Ó perdidos passos meus cansados
Ó noites sem noite nem dia
Ó dias iguais às noites
Sem esperança de outros melhor haver
Ou, pior, esperando alguém que não havia
Ó cidade, ó meus amigos idos
(tive-os eu ao menos como tal um dia dia?)
Ó cansaço de tudo igual a chuva e o céu azul imenso
Igual em toda a volta, meses de calor,
Ou água suspensa, nuvens indistintas
Ou cordas de chuva a não poupar-me!
Igual, igual, igual por toda a banda
Ó miséria de sempre!
Tua miséria, ó cidade
Minha miséria igual em tudo
Igual às tuas ruas cheias
Igual às tuas ruas desertas
Igual às tuas ruas de dia
Igual às tuas ruas de noite
Igual à dos teus grandes
E das tuas prostitutas
Igual às dos teus homens corrompidos
E,
piormente igual à dos teus sábios!

Ó cidade igual inigualada
Por que te chamo perdidamente igual?

Tua miséria não é miséria,
Tua tristeza não é tristeza
Tudo que me perdeste para ti não é perdido:
Meus passos firmaram-te as pedras;
Tuas noites foram o meu sol;
Teus dias me foram descanso…
Iguais, dias, noites, minha desesperança
Era o próprio esperar doutras certezas:
A certeza de só poder tornar-se
O alguém que é forçoso haver!

Os meus amigos idos
Por tal seriam por certo perdidos
Sei — como não? que existiram:
Lá estão.

Ó cidade! o cansaço seguiu-me
— não era teu.
Igual o tempo está comigo
— não era teu…
Igual, igual, igual por toda a banda. . .
A miséria, o desalento aqui os tenho
— Também não eram teus.

Mas a gente era tua e eu também.
Lá ficou; e eu,
Ó cidade, ó miséria,
Ó tudo que me entediava,
Meus dias perdidos no teu ventre!…
Sei que nada me pertence
É tudo teu!
E eu me glorifico por eu e os meus
Sermos só de ti que és de Deus!

 

José Blanc de Portugal (Lisboa, 8/3/1914 – 14/5/2000)
Poeta, crítico musical, cofundador dos Cadernos de Poesia com Ruy Cinatti e Tomaz Kim em 1940, professor, licenciado em Ciências Geológicas

Jorge de Sena – Carta ao Amigo Eugénio de Andrade

Fevereiro 11, 2017 - Leave a Response

Jorge de Sena

“Madison, Wis., USA, 25 de Maio de 1969

Querido Eugénio,

Ontem chegou a tua carta com as tuas impressões de Cadafy traduzido, e a certeza de que ele aportou ao porto em paz. (…)

Em matéria de glória, eu sou, francamente, um sujeito contraditório: ao mesmo tempo as pessoas incomodam-me (e muitas vezes até quando escrevem admirativamente a meu respeito, sem que nisto vá ingratidão), o êxito parece-me risível, e sei melhor que ninguém a que várias circunstâncias pode dever-se. (…)

Mas tudo me fere: fui sempre a vida inteira o mesmo menino esquecido e jogado entre os pais, sedento de atenção e de amor, dividido entre estar só e acompanhado. (…)

E o que mais me dói é o desprezo por tudo o que é português, como se fôssemos uma espécie de leprosos do universo, sem interesse algum. (…)

Eu estimo o que é admirável, ou, por interesse de cultura, o que seja significativo. (…)

Tudo isto ainda é – ridiculamente – lamúria por causa do prémio. Não é grande coisa, nenhum é aí. Mas tapava a boca a muita gente, abria-me muitas portas,  e teria enorme repercussão aqui, porque a essas coisas a americana é sensível. (…)

E o prémio seria também uma bofetada para lá. Paciência, boa para a vista, como dizia a minha avó. E o dinheirinho, meu filho, neste inferno sem saída que é financeiramente a minha vida com a família que tenho ([…] que não posso ter dinheiro para educar universitariamente, se eles não arranjam notas que lhes garantam bolsas – e que, sem tal, nos tempos que correm, acabam a lavar pratos ou carros), donde venha faz-me arranjo.

Que sou honesto, firme, etc., quando há tantos governos deste mundo para que se pode trabalhar chorudamente – mas eu estou sempre do lado dos que caem ou não sobem…

Logo que o volume das traduções esteja pronto – ficá-lo-á esta semana que entra, em que começam curtas férias antes dos cursos de verão -, mandar-to-ei, para que saboreies muito do que lá está.

Passá-lo-ás depois ao Cruz Santos, a quem Deus e Mercúrio dêem vida e saúde e dinheiro.

Afectuosas lembranças da Mécia.

E o grande abraço muito amigo do

Jorge”

In JL de 9 a 22 de novembro de 2016

 

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/1978)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.