Rodrigo Guedes de Carvalho – [Quando Escrevo um Romance…]

Novembro 3, 2018 - Leave a Response

 

“(…) Quando escrevo um romance,  minha grande preocupação é contar uma história. Não é passar um sermão, dar lições de moral ou transmitir uma mensagem. (…)

Estou concentrado em escrever uma história e, nesse processo, tudo aquilo que não estou a fazer deliberadamente mas que me preocupa acaba, por, repito, “escapar por debaixo da porta” e introduzir-se no romance. (…)

As personagens resultam, de facto, de todo um exercício de observação que não é pensado, é absolutamente intuitivo. Desde pequeno que gosto de observar as pessoas e de imaginar o que lhes passará pela cabeça.

Podemos escrever livros sobre tudo e mais alguma coisa mas, para mim, as pessoas são o que há de mais interessante. São um mundo infindo porque muitas vezes elas próprias não se conhecem bem; porque mudam ao longo da vida; porque são um produto de circunstâncias e de pessoas que vão encontrando, etc.

Neste sentido, tenho sorte porque sendo um universo infindável permite-me-á continuar a escrever sobre elas. De resto, foi sempre o que me interessou. (…)”

 

In JL de 30 de agosto a 12 de setembro de 2017

 

Rodrigo Guedes de Carvalho (Porto, 14/11/1963)
Escritor e jornalista.

Anúncios

Fernando Dacosta – “Viver com Gentileza” (Continuação)

Novembro 3, 2018 - Leave a Response

 

“(…) O curso de Românicas trouxe-me para Lisboa. E Lisboa para as tertúlias (Brasileira, Monte Carlo, Palladium, Monumental, Paraíso, Botequim), para as estreias, as oposições, os jornais.

Estes, espaços então festivos (cinco horas diárias, das 8 às 13, metade das quais a deitar abaixo Salazar), estavam habitados por grandes nomes da literatura. Trabalhei intimamente com Herberto Helder, Saramago, Cardoso Pires, Urbano, Isabel da Nóbrega, Maria Judite de Carvalho, Stau Monteiro, Natália Correia, Luiz Pacheco, Abelaira, Maria Aurora Homem. Sou um produto delas, redacções e tertúlias, ou seja, do convívio exultante dos vultos cimeiros do século XX português.

Só depois do 25 de Abril comecei (…) a publicar livros. Mesmo assim, sofri, por parte de RTP (pressionada pelas cúpulas militares revolucionárias) actos abjectos de censura, de perseguição, como os exercidos contra uma pobre peça de teatro que fiz sobre a guerra colonial, Um jipe em segunda mão – ironicamente premiada pela própria RTP.

Reter a lembrança  do tempo que me coube, no país que me coube, no jornalismo, na dramaturgia, no romance, na narrativa, na crónica, no ensaio, uma determinação.

Natália Correia (e Agostinho da Silva, e Jorge de Sena, e Vergílio Ferreira) repetiam-me: ser-se evoluído, em qualquer época, é preservar a memória, porque sem ela não há pensamento, sem pensamento não há ideias, sem ideias não há imaginação, sem imaginação não há futuro.

Assim, foram-me surgindo peças dramáticas, romances (O Viúvo; metáfora sobre a perda do império, Grande Prémio de Literatura Círculo de Leitores, sete edições; Os Infiéis, parábola à volta dos que ousam trair o estabelecido), narrativas (Máscaras de Salazar, 18 edições, e Nascido no Novo Estado).

(…)

Acho, entretanto, patético o afã com que alguns insistem em encafuar-me nas suas minúsculas prateleiras de retrosaria barata.

O ter passado a existência a não me deixar reter nelas foi-me precioso pois preservou-me a irreverência do não compromisso, a liberdades não posse, a diferença do não alinhamento, preguiça do não produtivismo, coisas fundamentais à escrita, aos sentimentos, à vida e à morte. (…)”

 

In JL, “Autobiografia”, 17 – 30 Agosto 2005

 

Fernando Dacosta (Luanda, 12/12/1945)
Jornalista, romancista, dramaturgo, contista, licenciado em Filologia Românica.

Hélia Correia – Athena Nikê Para a Maria Helena

Novembro 2, 2018 - Leave a Response

 

Partiu minha Senhora. Há muito já

que os sinais da cerimónia se

[alinhavam,

visíveis, sim, porém indecifráveis

pelos mortais.

Por exemplo, as mangais recobriram

de púrpura os passeios. E na noite

passava às vezes a lição do júbilo

que há  num solene adeus. Alguém

[talhava

novamente aquele mármore. A beleza

de um grande pensamento enchia

[as ruas.

 

Minha Senhora ainda se encontrava

na sua plena qualidade azul.

O seu olhar coincidia em tudo

com o olhar dos Aqueus.

 

Contrariamente àquilo que se

[pensou,

não deviam ao mar o tom das íris

mas ao fulgor precioso da palavra,

ao duro tracejado da palavra

através da montanha.

Esse relâmpago,

a escama da serpente reluzindo

sob o luar da Hélade.

Minha Senhora tinha esse segredo

preso dentro das mãos, um longo texto

que era um animal vivo, era um poema

com respiração.

 

Minha Senhora já esqueceu o número

das fontes que brotaram nas aldeias

por onde ela passou. Voava baixo

e achava tudo muito natural.

Falava-me, por vezes, dos abismos

fascinantes de Delfos. E eu temia

que ela não regressasse. Que perdesse,

como acontece frequentemente

aos muito sábios, a noção de casa.

 

Estava, porém, o tempo predisposto

para um grande final. E aportou

a Barca carregada de flores brancas,

tão cuidadosa quanto triunfal.

Houve uma alteração no nevoeiro

do rio, uma leveza da matéria,

um véu que proibia as aproximações

decerto não por arrogância. Tudo

devia concentrar-se na tarefa.

 

Partiu minha Senhora. Nem deixou

que eu, como de costume, ajoelhasse

e lhe atasse as sandálias. Ela própria,

inclinando-se, o fez. E ajeitou,

ao levantar-se, as pregas do vestido

a que o mimoso linho do Egipto

dava uma ondulação inimitável.

 

Partiu minha Senhora como Athena

Nikê, Athena Vitoriosa.

 

Ninguém ouviu sequer fechar-se

[a porta.

 

Nota:  A “Senhora”, Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017), a mais importante especialista portuguesa em Estudos Clássicos, a primeira doutorada e depois a primeira catedrática, que afirmou: “Eu vivo com os Gregos e sei disso. Mas vocês vivem com os gregos e não sabem:”, legou-nos uma vastíssima obra e foi galardoada com diversos prémios.

 

Hélia Correia (1949)
Ficcionista, poetisa e dramaturga, galardoada com o Prémio Camões 2015, licenciada em Filologia Românica, ex-professora do Ensino Secundário.

 

Sophia – Guitarra

Novembro 2, 2018 - Leave a Response

 

Na voz de oiro e sombra da guitarra

Algo de mim a si próprio

Renuncia

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Camilo Pessanha – Crepuscular

Outubro 31, 2018 - Leave a Response

 

Há no ambiente um murmúrio de queixume,

De desejos d’amor, d’ais comprimidos…

Uma ternura esparsa de balidos

Sente-se esmorecer como um perfume.

 

Às madressilvas murcham nos silvados

E o aroma que exalam pelo espaço,

Tem delíquios de gozo e de cansaço,

Nervosos, femininos, delicados.

 

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,

Inapreensíveis, mínimas, serenas…

– Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,

O meu olhar no teu olhar suave.

 

As tuas mãos tão brancas d’anemia…

Os teus olhos tão meigos de tristeza…

– É este enlanguescer da natureza,

Este vago sofrer do fim do dia.

 

Camilo Pessanha (Coimbra, 7/8/1867 – Macau, 1/3/1926)
Poeta, licenciado em Direito.

Sebastião da Gama – Cansaço

Outubro 31, 2018 - Leave a Response

 

Não quero amar nem ser amado…

Quero ficar estúpido e cansado

a este canto, e só.

 

Batido pelo Vento,

sem conforto, sem pão, sem alegria.

 

E se eu chamar não venhas.

(Que eu não hei-de chamar-te…)

 

No entanto, Amor, não saias para longe.

É que eu posso, apesar de tudo quanto digo,

chamar por ti.

E era tão bom saber que me escutavas!…

E era tão bom sentir que perdoavas!…

 

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

António Gedeão – Reflexão Total

Outubro 28, 2018 - Leave a Response

 

Recolhi as tuas lágrimas

na palma da minha mão,

e mal que se evaporaram

todas as aves cantaram

e em bandos esvoaçaram

em tomo da minha mão.

Em jogos de luz e cor

tuas lágrimas deixaram

os cristais do teu amor,

faces talhadas em dor

na palma da minha mão.

 

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciências Físico-Químicas.

Manuel da Fonseca – Estradas

Outubro 28, 2018 - Leave a Response

 

Não era noite nem dia.

Eram campos campos campos

abertos num sonho quieto.

Eram cabeços redondos

de estevas adormecidas.

E barrancos entre encostas

cheias de azul e silêncio.

Silêncio que se derrama

pela terra escalavrada

e chega no horizonte

suando nuvens de sangue.

Era hora do poente.

Quase noite e quase dia.

 

E nos campos campos campos

abertos num sonho quieto

sequer os passos de Nena

na branca estrada se ouviam.

Passavam árvores serenas,

nem as ramagens mexiam,

e Nena, pra lá do morro,

na curva desaparecia.

 

Já de noite que avançava

os longes escureciam.

Já estranhos rumores de folhas

entre as esteveiras andavam,

quando, saindo um atalho,

veio à estrada um vulto esguio.

Tremeram os seios de Nena

sob o corpete justinho.

E uma oliveira amarela

debruçou-se da encosta

com os cabelos caídos!

Não era ladrão de estradas,

nem caminheiro pedinte,

nem nenhum maltês errante.

Era António Valmorim

que estava na sua frente.

 

— Ó Nena de Montes Velhos,

se te quisessem matar

quem te haverá de acudir?

 

Sob este corpete justinho

uniram-se os seios de Nena.

 

— Vai te António Valmorim.

Não tenho medo da morte,

só tenho medo de ti.

 

Mas já noite fechava

a saída dos caminhos.

Já do corpete bordado

os seios de Nena saíam

— como duas flores abertas

por escuras mãos amparadas!

Aí que perfume se eleva

do campo de rosmaninho!

Aí como a boca de Nena

se entreabre fria fria!

Caiu-lhe da mão o saco

junto ao atalho das silvas

e sobre a sua cabeça

o céu de estrelas se abriu!

 

Ao longe subiu a lua

como um sol inda menino

passeando na charneca…

Caminhos iluminados

eram fios correndo cerros.

Era um grito agudo e alto

que uma estrela cintilou.

Eram cabeços redondos

de estevas surpreendidas.

Eram campos campos campos

abertos de espanto e sonho…

 

Manuel da Fonseca (Santiago de Cacém, 15/10/1911-11/3/1993)
Poeta, romancista, contista e cronista, membro do Grupo Novo Cancioneiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

 

José Gomes Ferreira – [Sempre a Mesma Mulher…]

Outubro 28, 2018 - Leave a Response

 

Sempre a mesma mulher de saias curvas

nos degraus matinais

– capacho com olhos,

corpo sem nudez,

mãos de cera derretida.

 

Nenhuma cólera de não haver horizontes.

 

Apenas o sono português

desta morte com insónia

chamada vida.

 

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova -, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Macau; Madagáscar; Malásia; Malavi; Maldivas; Mali; Malta; Marianas do Norte; Marrocos

Outubro 28, 2018 - Leave a Response

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

 

Macau —————————————————— macaísta, macaense

Madagáscar ———————————————– malgaxe

Malásia —————————————————— malaio

Malavi ——————————————————– malaviano

Maldivas —————————————————– maldivo

Mali ———————————————————– maliano

Malta ——————————————————— maltês

Marianas do Norte ———————————– das Marianas do Norte

Marrocos —————————————————- marroquino

 

(continua)