Sophia – De Pedra e Cal

Junho 19, 2020 - Leave a Response

 

De pedra e cal é a cidade

Com campanários brancos

De pedra e cal é a cidade

Com algumas figueiras.

 

De pedra e cal são

Os labirintos brancos

E a brancura do sal

Sobe pelas escadas.

 

De pedra e cal a cidade

Toda quadriculada

Como um xadrez jogado

Só com pedras brancas.

 

Um xadrez só de torres

E cavalos-marinhos

Que sacodem as crinas

Sob os olhos das moiras

 

Caminha devagar

Porque o chão é caiado.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999).

 

Daniel Faria [Com a Vara Calculei…]

Junho 19, 2020 - Leave a Response

 

Com a vara calculei a distância entre os dias

A vara, pensei, vai florir

Posso incliná-la para uma criança a colher

 

FARIA, Daniel, Poesia

 

Daniel Augusto da Cunha Faria (Baltar, Paredes, 10/04/1971 – Porto, 09/06/1999)
Poeta, vencedor de vários prémios literários e escolares, colaborador em diferentes revistas, autor de desenhos, colagens, mobiles, encadernação e encenação, dirigente d´O Círculo de Leitura no Seminário Maior (1989/93).
Licenciado em Teologia (parte curricular concluída em 1994 e tese defendida em 1996) e em Estudos Portugueses (1998), seminarista antes de ingressar no curso de Letras, a um ano de ser ordenado sacerdote, tendo optado após a conclusão daqueles estudos pela vida monástica, como postulante no Mosteiro Beneditino  de S. Bento da Vitória (1997-98), e noviço no Mosteiro de Singeverga onde, quase no termo do noviciado, sofreu um acidente doméstico que o colheu para outra vida.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – Agostinho Neto – Docemente

Junho 17, 2020 - Leave a Response

 

Num dia em que um sorriso

me pareceu amor.

Eu acredito no amor.

 

Um sol nasceu num dia qualquer

Dia de amor

Dia de alegria

E todas as aves cantaram no céu

Esse dia alegre de amor.

 

Um ser de andar leve sorriu

Sorriu para mim

Sorriu para o meu mundo

E todas as portas do optimismo se abriram

Nesse doce sorriso de amor.

 

Duas mãos se apertaram confiantes

Dois caminhos fundidos

Um Desejo em dois desejos

E todo o Universo se condensou

No sentir das mãos unidas em amor.

 

Docemente o sol nasceu

Docemente o amor brilhou

E o mundo

Se tornou também o nosso mundo.

 

4 de Setembro de 1951.

 

NETO, Agostinho, Poesia

 

Agostinho Neto (Catete, Angola, 17/9/1922 – Moscou, Brasil, 10/9/1979)
Médico, poeta, político, 1.º Presidente de Angola.

Carlota de Barros – [A Minha Alma Corre em Silêncio]

Março 8, 2020 - Leave a Response

 

A minha alma corre em silêncio

pelas rochas do meu arquipélago anilado

é a saudade do mar dos búzios

dos potes

das estrelas a brilhar nas noites escuras

do som das vassouras de palha na calçada da rua estreita

nas manhãs brancas perfeitas que se seguem às noites

de silêncio e jasmins perfumados

a minha alma corre em silêncio pelas noites de luar

em que me colhias as rosas

que alegravam o despertar lento das minhas manhãs jovens perfeitas

a minha alma corre em silêncio pelas noites estreladas

em que me mostravas a ursa maior as minhas mãos nas tuas

confiante e terna

a minha alma corre em silêncio

pelas rochas do meu arquipélago anilado é a saudade do silêncio das noites

das rosas e das estrelas

 

Carlota de Barros (Cabo Verde, Ilha do Fogo, 24/01/1942)
Poetisa, colaboradora de diversas publicações, professora do ensino secundário, licenciada em Filologia Germânica.

Dora Ferreira da Silva – Mulher e Pássaro

Março 8, 2020 - Leave a Response

 

 

Voltamos ao jardim

ao banco lavado pela chuva.

Pedimos o verde ao verde

a flor à flor

sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã.

(Nossa presença

desalinha ar e folhas

num frêmito.)

 

Mas se nada pedimos

como quem dorme seguindo a linha natural

do corpo

respiramos o puro abandono:

um pássaro alveja o azul (sem par)

ultrapassa o muro do possível

e assim damos um ao outro

a súbita presença

do Céu.

 

SILVA, Dora Ferreira da, Talhamar (1982)

 

Dora Ferreira da Silva (Conchas, 1/7/1919 – S. Paulo, 6/4/2006)
Poetisa e tradutora.

Maria Judite de Carvalho – Prémio Camilo Castelo Branco, 1962

Março 8, 2020 - Leave a Response

 

Maria Judite de Carvalho na primeira pessoa quando recebeu o Prémio Camilo Castelo Branco, pelo obra As Palavras Poupadas:

 

“Não sei a que escola pertenço nem de tal me ocupo. Creio que sou, por natureza humana e por formação, anti-romântica. Nada pretendo derrubar no mundo das edificações estéticas, nada pretendo, tão pouco, erigir de novo. Isto não significa, entretanto, que admire menos aqueles que deliberadamente fazem obra de comunicação actuante, nem creio de modo algum que tal caminho seja contrário à perfeita realização de um escritor. O que me parece condição indispensável de toda a obra literária é a íntima liberdade do autor, de maneira que não se amolde a preconceitos, a receios de qualquer ordem, a tabus. Esse é, pelo menos, um ponto de partida e continua a ser o meu, porque me sinto, de toda a maneira, no princípio, mesmo sem ser fadada para longas rotas.”

 

Maria Judite de Carvalho (Lisboa, 18/9/1921 – Lisboa, 1998)
Contista, novelista, cronista, romancista, dramaturga, colaboradora em vários jornais e revistas.
Esposa de Urbano Tavares Rodrigues e mãe da escritora Isabel Fraga.

Hélia Correia – [Para Quê…]

Março 8, 2020 - Leave a Response

 

1.

Para quê, perguntou ele, para que servem

Os poetas em tempo de indigência?

Dois séculos corridos sobre a hora

Em que foi escrita esta meia linha,

Não a hora do anjo, não: a hora

Em que o luar, no monte emudecido,

Fulgurou tão desesperadamente

Que uma antiga substância, essa beleza

Que podia tocar-se num recesso

Da poeirenta estrada, no terror

Das cadelas nocturnas, na contínua

Perturbação, morada da alegria;

 

2.

 

Essa beleza que era também espanto

Pelo dom da palavra e pelo seu uso

Que erguia e abatia, levantava

E abatia outra vez, deixando sempre

Um rasto extraordinário. Sim, a hora,

Dois séculos antes, em que uma ausência

E o seu grande silêncio cintilaram

Sobre a mão do poeta, em despedida.

 

Hélia Correia (1949)
Ficcionista, poetisa e dramaturga, galardoada com o Prémio Camões 2015, licenciada em Filologia Românica, ex-professora do Ensino Secundário.

 

Fernanda de Castro – Urgente

Março 8, 2020 - Leave a Response

 

Urgente é construir serenamente

seja o que for, choupana ou catedral,

é trabalhar a pedra, o barro, a cal,

é regressar às fontes, à nascente.

 

É não deixar perder-se uma semente,

é arrancar as urtigas do quintal,

é fazer duma rosa o roseiral,

sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.

 

Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,

é perdoar, se alguém pede perdão,

é repartir o trigo do celeiro.

 

Urgente é respirar com alegria,

ouvir cantar a rola, a cotovia,

e plantar no pinhal mais um pinheiro.

 

CASTRO, Fernanda de, Poesia II (1969)

 

Fernanda de Castro (Lisboa, 8/12/1900 – Lisboa, 9/12/ 1994)
Poetisa, romancista, dramaturga, escritora de literatura infantil, tradutora, fundadora da Associação Nacional dos Parques Infantis (1931), 1.ª mulher a receber o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa (1945), co-fundadora, com o marido – António Ferro, escritor, jornalista e político –  e outros, da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, atual Sociedade Portuguesas de Autores, mãe de António Quadros e avó de Rita Ferro.

Álvaro Guerra – Ponta Tenente (Excerto)

Fevereiro 12, 2020 - Leave a Response

 

“(…) Os pés de laranjeira trazidos da Metrópole com mil cuidados puseram-se a crescer, floriram um ano depois, deram as primeiras laranjas no segundo e, a partir do terceiro, o Tenente poderia ter enchido com elas uma frota de cinco ou seis barcos iguais ao vapor Maria, na época da colheita, quando Ponta Tenente cheirava a laranja a três milhas de distância e grandes montes de frutos apodrecendo ao sol ladeavam a álea das acácias rubras que ia do tosco cais de tábuas de pau-sangue até à casa grande.

Experimentadas como adubo nas searas, as laranjas ajudaram a crescer um amendoim ligeiramente adocicado e grossas e longas raízes de mandioca rosada.”

GUERRA, Álvaro, Ponta Tenente

 

Álvaro Guerra (Vila Franca de Xira, 19/10/1936 – Vila Franca de Xira, 18/4/2002)
Pseudónimo de Manuel Soares.
Romancista, poeta, cronista, galardoado com O Grande Prémio de Crónica, ensaísta, jornalista, fundador do jornal A Luta (1975) político, diplomata,  licenciado em Direito.

Mário Dionísio – Perdida

Janeiro 15, 2020 - Leave a Response

 

Perdida

Perdida para a vida.

 

Perdida

para a suprema amargura das realidades.

 

Perdida

por saber ler poemas sem nunca poder sê-los.

 

Perdida por não ser vida

olhando para a vida.

 

Perdida por ter sapatos

e só descalça poder sentir as pedras do caminho.

 

Perdida por ter vestidos

e só nua poder ser crestada pelo sol.

 

Perdida por sorrir em lugar de gritar.

 

Perdida.

 

Perdida para a alegria amarga das realidade.

 

In Novo Cancioneiro

 

Mário Dionísio (Lisboa, 16/7/1916 – Lisboa, 17/11/1993)
Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico, professor universitário.