Luísa Ducla Soares – Antigamente

Setembro 19, 2018 - Leave a Response

 

A nossa Mãe Eva

mais o Pai Adão

nunca se vestiam,

nem com um calção.

 

Jesus não provou

jamais coca-cola

nem jogou futebol

no pátio da escola.

 

Não tendo fogão,

a Virgem Maria

comeu muitas vezes

a sopinha fria.

 

Dom Afonso Henriques

vestia armadura

e não se queixava

de a roupa ser dura.

 

A Rainha Santa

não tinha sanita.

Onde iria ela

se estava aflita?

 

O Vasco da Gama

fazia viagens

sem um telemóvel

para mandar mensagens.

 

Luís de Camões,

repara, que horror,

não escreveu os livros

num computador.

 

O Marquês de Pombal,

com tanto salão,

não pôde comprar

uma televisão.

 

Ó jovem que estás

sempre descontente,

não querias viver

como antigamente?

 

SOARES, Luísa Ducla, A Cavalo no Tempo

 

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 20/7/1939)
Poetisa ligada ao grupo Poesia 61, destacada escritora de literatura infantil, licenciada em Filologia Germânica.

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Manuel Gusmão – [O Rio Divide-te…]

Setembro 19, 2018 - Leave a Response

 

O rio divide-te entre

as margens montanhosas

pelas pedras

que saltando

vais de

onde vens

rosto de quem

uma borboleta

brilha na claridade

do súbito assombro.

 

GUSMÃO, Manuel, Pequeno Tratado das Figuras

 

Manuel Gusmão (Évora, 11/2/1945)
Poeta, ensaísta, tradutor, colaborou em diversas publicações, fundador das revistas: Ariane e Dedalus, coordenador da revista Vértice desde 1988, professor universitário.

Flor Campino – [Do Sul…]

Setembro 19, 2018 - Leave a Response

 

Do sul te veio a ausência.

Lenços brancos

as clareiras desprendem, invioláveis,

por onde a luz

captura o sono

e esplêndida

te deixa, e solitária.

 

Flor Campino (Tomar, 1943)
Escritora e pintora.

António Torrado – À Beira Tempo

Setembro 19, 2018 - Leave a Response

 

é um templo visto em vidro

no vivo crepitante das lunetas

estufa lhe chamam, de sol

e cidra

azedo de ferrugens e promessas.

 

Se templo é

e fosco de desesperar

a babugem do mar já o lavou

e o que ficou, no tampo do altar,

dá pouco para rezar.

A cerveja, meus senhores, acabou.

 

TORRADO, António, Dos Templos

 

António Torrado (Lisboa, 21/11/1939)
Poeta, dramaturgo, contista, destacado autor de literatura infantil e juvenil, professor, pedagogo, jornalista, licenciado em Filosofia.

António José Forte – Poema [3]

Setembro 19, 2018 - Leave a Response

Um sábio
não sabia fumar cachimbo

mas a mulher do sábio sabia

quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria

e assim durante meses e anos

até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia

por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria

 

António José Forte (Póvoa de Santa Iria, 10/2/1931 – Lisboa, 15/12/1988)
Poeta ligado ao Movimento Surrealista Português.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Irão; Iraque; Irlanda; Islândia; Israel; Itália; Jamaica; Japão; Jabuti; Jordânia

Setembro 19, 2018 - Leave a Response

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Irão ——————————————————– iraniano

Iraque —————————————————– iraquiano

Irlanda —————————————————- irlandês, hibérnico

Islândia ————————————————— islandês

Israel —————————————————— israelita

Itália ——————————————————- italiano

Jamaica ————————————————- jamaicano

Japão ————————————————- japonês, niponense, nipónico

Jibuti ————————————————— jibutiano

Jordânia ———————————————– jordano

(continua)

António Ladeira – Os Amigos

Setembro 19, 2018 - Leave a Response

 

Quando se abrem os portões das grandes casas

e os amigos se entreolham antes de recolherem

aos respectivos túmulos

todos tão estranhamente corteses e finais

tão esquecidos de tudo o que um dia prometeram

tão emudecidos e gratos

tão suspensos de uma sede que os tornou irredutíveis

com os seus cabelos verdes e revoltos

a roupa que o corpo ainda segrega

por ter frio

por ser sempre de noite.

 

Amigos tímidos como certos dias de chuva

com os seus passos de borracha

os seus velhos sobretudos

as suas vozes em coro.

 

Os rostos inclinados sobre a cidade limpa

onde os vejo escrever, aplicadamente,

sobre o tampo metálico de uma mesa de café

a uma janela que dá sobre o Tejo

a ver passar o mundo.

 

Amigos pensativos como nuvens baixas,

como janelas abertas sobre praias escuras,

heras, campos de heras,

campos de ossos.

 

LADEIRA, António, Eu Vi Jardins no Inferno

 

António Ladeira (Almada, 1969)
Poeta, contista, ensaísta, tradutor, colaborador em diversas publicações, letrista de jazz, licenciado em Estudos Portugueses, doutorado em Línguas e Literaturas Hispânicas, professor catedrático.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – José Luiz Tavares – [Curvo-me ao Obstinado Peso das Raízes]

Setembro 18, 2018 - Leave a Response

 

Curvo-me ao obstinado peso das raízes.

Mais alto se erguem os morosos frutos

da inquietude. Por todo o meu corpo

animais em deserção, bélicos murmúrios,

impendentes murmúrios, desdenhada fortuna.

 

Não sei de barcos, não sei de pontes,

para outro tão melodioso território.

Afeiçoados ficaram os olhos ao sonhado

verde dos campos. Derrotados sob o

adivinhado zelo do sol por quantos dias

a ilha estremece ao temor da sede

e da ruína.

 

Deram-lhe navegadores nome de santo,

quando à vista das angras lágrimas

e gritos se confundiram. E na hora terreal,

feito o sinal da cruz, divisa de quem

por tão longes terras os mandara navegar,

um destino de penumbra ali se traçou.

 

E ficámos náufragos, irmãos dos chibos,

pela ocidental terra que o dia já desnuda.

Pelos sinos da matriz avisando da inexorável

aproximação dos corsários (um tempo

de rapina subjaz ainda na memória desses

anos) eu vos saúdo, velho cadamosto,

diogo gomes, antónio da noli; eu vos saúdo

desde esses picos de sede de onde a noite

mais veloz se confunde com os desfraldados

estandartes da alegria.

 

José Luiz Tavares (Tarrafal, IIha de Santiago, 10/6/1967)
Poeta, recebeu o Prémio Mário António de Poesia 2004 com a publicação do seu primeiro livro, e o Prêmio Jorge Barbosa 2005 com a sua segunda obra,  é o vencedor do Prémio BCA de Literatura 2016,  colaborador com jornais e revistas de Cabo Verde, Portugal e Brasil,  e tradutor, estudou literatura e filosofia.

José Manuel Mendes – [Estes Homens]

Setembro 18, 2018 - Leave a Response

 

estes homens
abrem as portas
do sol nascenteconhecem os íntimos latejos
da cal as soltas águas
os fermentos as uvas
os cílios discretos do pãoamam as urzes e as fontes
o suor dos fenos
a febre moira de um corpo
de mulher

estes homens
partem a pedra
com martelos de solidão
(os olhos abismados
nos goivos
da lonjura)

erguem as paredes
as janelas crepusculares
as asfaimadas antenas das cidades:
céu de cimento; baba remota
do cansaço

estes homens
tamisam cores: viajam nos navios
pescam no cisco das pérolas
do vidro
são garimpeiros
de uma esponja
de coral

moldam nas forjas
as sílabas secretas
do ferro
afeiçoam os seixos e o linho
o bafo marítimo
das palavras

estes homens
dizem casa com dezembro
nas veias
ternura com a sede de uma seara
grávida
assobiam comovidos contra as sombras
trazem na algibeira
o trevo rugoso das cantigas

estes homens:
guardadores de cabras
e de mágoas
de espantos e revoltas
servos emigrantes
contrabandistas
soldados andarilhos do mar
carabineiros da má sorte
trepadores das sete colinas
operários
azeitoneiros
ratinhos
levantam por maio
os cantis do lume: voz de musgo
concha entreaberta

estes homens
(pátria viva; horizonte
de prata
à flor da bruma)
modelam nos andaimes
do tempo
o oiro (medular) da
liberdade

José Manuel Mendes (Luanda, Setembro de 1948)
Poeta, ficcionista, cronista e ensaísta, licenciado em Direito, professor universitário.

Ernesto M. de Melo e Castro – Soneto para Ti: Améliamor

Setembro 18, 2018 - Leave a Response

 

Vejo uma mulher distante amante

lutando contra o tempo desviante

uma mulher de células diamante

e oráculos védicos bramante…

 

uma rubra submérsica corrente

entregue aos ritos áuricos da mente

que me procura e eu busco demente

entre sonoras sombras manualmente!

 

uma mulher de súbitos desvios

de onde nascem tumultuosos rios

e se perfilam beijos desvarios

m sexos sanguíneos de-lírios…!…

 

uma mulher de hoje e de infinitos

saberes sabores de que se fazem mitos.

 

(Inéditos, 2000)

 

Ernesto M. de Melo e Castro (Covilhã, 1932)
Poeta, crítico, ensaísta, professor universitário.