Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Arménio Vieira, Lisboa – 1971

Agosto 21, 2019 - Leave a Response

 

A Ovídio Martins e Oswaldo Osório

 

Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela

Em verdade éramos o gado mais pobre
d’ África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d’ onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d inverno.

 

Arménio Vieira (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 29/1/1941)
Poeta, jornalista, primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões, 2009.

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Aquilino Ribeiro – A Casa em que Nasci, Marianinha

Agosto 21, 2019 - Leave a Response

 

A casa em que nasci, Marianinha,

está voltada a Su-sueste

e tem à frente um cipreste

de atalaia à seara e vinha.

 

Casa já antiga, descaiada,

se o Sol lhe bate na fachada,

inunda-se a varanda de alegria;

tia Rita fia na roca

e dos buraquinhos da alvenaria

salta pardal com pardaloca.

 

À velha chaminé é um regalo

ver o fumo subir, fazer halo.

No montado, ouvem-se anhos balir

e derretem-se lantejoulas a luzir,

trouxe-as a Primavera no regaço

e espalhou-as pelo tojo, urze, sargaço,

sem desprezar trigal, jardim,

rampas, refúgio de erva ruim.

 

Manhã cedo, rompe a cantata,

nas árvores de fruto e pela mata.

─Sol, Sol! ─trauteiam os pardais,

tordos, melros e verdiais.

─Sol, Sol! ─pede o tuinho na balsa

e o auricu que apagou o candil na salsa.

 

E o Sol ergue-se por detrás dos montes,

e lá vem, sem olhar a vias nem pontes,

triunfal, contente como um ás,

com sua capa de arcebispo primaz.

 

Quem não ouve decerto sente

que vem salvando: ─Olá, boa gente,

pássaros a voar e no ninho,

fonte, e tu a ladrar, cãozinho,

para que abram e nos deixem entrar.

 

Olá, meu amigo carvalho,

à minha espera no festo da colina,

e, no almarge, o carneiro do chocalho,

o cabrito, a cabrinha e até o chibo,

ronda-vos o lobo, mas sopro a neblina,

e vai mais longe buscar o cibo.

Salve, amigos, haja fartura e alegria!

 

Rompe logo um coro em tom maior:

─Viva lá o magnífico senhor

Bem haja quem nos traz tão bom dia! ─

soltam pintassilgo, pisco, cotovia,

no seu voo alto corvo e açor,

na horta chasco, pisco e tralhão,

pelos restolhais o perdigão,

no pinhal rola e cavalinho,

e associa-se o mágico do cuquinho,

cu-cu, cu-cu, cu-cu, cu-cu.

 

O mundo fica doirado como um pagode,

despem árvores e arbustos

os véus de noite mal justos,

e não soam mais de frio os queixais.

 

─Que fortuna aquecer-se a gente

sem pagar coima ou patente

a mateiros e fiscais! ─

rosna o pobre, depondo os atafais.

 

Olé, lá está ele: cu-cu,cu-cu,

misterioso como um manitu!

─Cuquinho dos carvalhais,

é de alegria ou estás aos ais?

Acusam-te de grande brejeiro

a clamar na coruta do pinheiro

em língua de marabu:

papá, papai, papu

é bom para chuchu.

 

─Não é nada, nada disso,

como sou embarcadiço,

obrigado a andar em dia,

deixo os filhos à cotovia

e à primeira comadre

que tenha jeito para madre.

 

─É por isso, cuco dos carvalhais

que enjeitas a prole e estás aos ais?

 

─Pois é por isso, nem mais.

Adeus, não me tenham por cru,

tirei bilhete para o Pegu…

Cu-cu, cu-cu, cu-cu, cu-cu!

 

Tia Rita ouve-lhe o saxofone

e comenta: O grande lazzaronne

é mais africano que português,

mas ali, onde o ouves, se não o vês,

ao abalar na entrada de Julho,

vai ele, a mulher, o filho ─são três, ─

e o exposto gordo como tortulho!»

 

RIBEIRO, Aquilino, O Livro de Marianinha

 

Aquilino Ribeiro (Tabosa do Carregal, 13/9/1885 – Lisboa, 27/5/1963)
Romancista, folhetinista, contista, novelista, professor, director da Seara Nova (1921), fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores (1956).

Antunes da Silva – Quem Vem Lá?

Agosto 21, 2019 - Leave a Response

 

– Quem vem lá

que me chama?

 

O velho bufão

com faces de lama,

ou maltês perdido

sem casa nem cama?

 

– Quem vem lá

que me grita?

 

O ronco do grifo

que assusta e crocita,

ou a terra que geme,

minha irmã aflita?

 

– Quem vem lá

que me espanta?

 

A noite a nascer

que já se levanta,

ou eco de búzio

na minha garganta?

 

– Quem vem lá

que se esconde?

 

Larápio de jóias

disfarçado em conde,

ou rancho coral

ouvindo-se aonde?

 

que me chama?

 

O velho bufão

com faces de lama,

ou maltês perdido

sem casa nem cama?

 

– Quem vem lá

que me grita?

 

O ronco do grifo

que assusta e crocita,

ou a terra que geme,

minha irmã aflita?

 

– Quem vem lá

que me espanta?

 

A noite a nascer

que já se levanta,

ou eco de búzio

na minha garganta?

 

– Quem vem lá

que se esconde?

 

Larápio de jóias

disfarçado em conde,

ou rancho coral

ouvindo-se aonde?

 

Antunes da Silva (Évora, 31/7/1921 –  Évora, 31/12/1997)
Poeta, contista, cronista, participou em várias publicações, escreveu dois diários.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´Almeida, O Homem e o Escritor de A a Z (S)

Agosto 21, 2019 - Leave a Response

 

S DE SÃO VICENTE

 

Ana Cordeiro, que foi portuguesa, escreveu no prefácio da 1.ª edição do Testamento, referindo-se a Mindelo, que “embora nascidos e criados noutras paragens, encontrámos, nesta cidade fundeada em porto de águas mansas, o sentimento de termos sido adoptados”. (…)

S. Vicente serviu para vivenciar como os diversos povos vindos de todas as ilhas do arquipélago se juntaram aqui e criaram uma identidade próxima de cada uma das outras, mas que no entanto não se confunde como nenhuma delas.

S. Vicente nasceu de homens livres e é sem dúvida a ilha mais livre de Cabo Verde, e talvez também a mais despojada de todas… (…)”

 

In JL de 6 a 19 de junho de 2018

(continua)

 

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, Prémio Camões (2018), advogado.

António Reis – Depois das 7

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

 

Depois das 7

as montras são mais íntimas

 

A vergonha de não comprar

não existe

e a tristeza de não ter

é só nossa

 

E a luz torna mais belo

e mais útil

cada objecto

 

REIS, António, Poemas Quotidianos

 

António Ferreira Gonçalves dos Reis (Valadares, 27/08/1927 – Lisboa, 10/09/1991)
Poeta e cineastra.

António Quadros – Poética Contraditória

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

 

Não digas o que sabes nos teus versos,

Deixa para trás a ciência e a consciência;

Tudo aquilo que em ti não for ausência

São ideais perdidos, ou submersos.

 

Abandona-te às vozes que não ouves,

E liberta os teus deuses nos teus dedos;

Não busques os sorrisos, mas os medos,

E o que não for ignoto e só, não louves.

 

Ser misterioso e triste, é ser poeta:

Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.

É uma imagem heroica dos teus prantos.

 

Percorre o teu caminho até ao fundo,

E com os versos que achaste, aumenta o mundo.

Não sejas um escritor, mas um profeta.

 

QUADROS, António, Viagem Desconhecida

 

António Quadros (Lisboa, 14 de Julho de 1923 – Lisboa, 21/3/1993)
Poeta, romancista, contista, autor de literatura infanto-juvenil, pensador, crítico e professor, co-fundador das revistas: Acto, 57 e Espiral e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, licenciado em Histórico-Filosofóficas – filho dos escritores Fernanda de Castro e António Ferro, pai da escritora Rita Ferro.

Fernanda de Castro – Eu!

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

 

 

O homem de génio diz: eu sou.

O poderoso afirma: eu posso.

O rico diz: eu tenho.

E o ambicioso: eu quero.

Eu! Eu! Eu!

E afinal

esses que vivem sós,

completamente sós,

quanto dariam para como tu,

ou como eu,

dizerem simplesmente: nós

 

Fernanda de Castro (Lisboa, 8/12/1900 – Lisboa, 9/12/ 1994)
Poetisa, romancista, dramaturga, escritora de literatura infantil, tradutora, fundadora da Associação Nacional dos Parques Infantis (1931), 1.ª mulher a receber o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa (1945), co-fundadora, com o marido – António Ferro, escritor, jornalista e político –  e outros, da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, atual Sociedade Portuguesas de Autores, mãe de António Quadros e avó de Rita Ferro.

António Osório – As Cartas de Amor

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

 

As cartas de amor,

tuas e de meu Pai,

quiseste contigo.

Embrulho

que foi preciso romper:

amada cal de palavras.

 

OSÓRIO,  António, Poesia Reunida

 

António Osório [de Castro] (Setúbal, 1/8/1933)
Poeta, colaborador das revistas: O Tempo e o Modo, Seara Nova, Vértice e Colóquio/Letras, um dos fundadores da Anteu, 1954,  licenciado em Direito.

António Maria Lisboa – Estrela de Todas as Horas

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

 

 

Para o Henrique Risques Pereira

 

Estrela da Ilha de Puros Ministros do Amor

Estrela da Tarde que acredita sempre na possibilidade da existência

Estrela do Meio-dia Antes e Depois da Nossa Época

Estrela da Noite de Todas as Cores

Estrela da Madrugada que traz sempre a esperança agrilhoada

Estrela da Manhã – os Mistérios de Ísis e Osíris – eu ainda menino.

 

No Alto um Piloto por caminhos secretos.

 

Nos Gumes tudo que não possa durante este tempo

mergulhar como dois personagens distintos

num seio enorme de mármore nu

não pode fazer mais do que arrastar-se atrás dum Grande Carro.

 

ESTRELA DE TODAS AS HORAS – ODASASHOR-ASEST-R

 

mil novecentos e cinquenta

um pássaro de granito.

 

LISBOA, António Maria, Poesia

 

António Maria Lisboa (Lisboa, 1/8/1928 – Lisboa, 11/11/1953)
Poeta.

António Manuel Couto Viana – Segredo

Agosto 17, 2019 - Leave a Response

 

Fiz uma estátua de neve

(Mas há sol no meu pais!)

A mentira que se escreve

É a verdade com que a fiz.

 

Pus-lhe uma flor entre os dedos,

Para ver se os aquecia

— Não sei revelar segredos

Sem que floresças, poesia!

 

Para seres casto, sê breve

— Aonde a estátua de neve?

 

António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, 24/01/1923 – Lisboa, 08/06/2010)
Poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor.
Dirigiu os Cadernos de Poesia, Távola Redonda e as revistas culturais:Graal e Tempo Presente.