Prefixos de Origem Grega – An-; A-; Ana-; Anfi-; Anti-; Apo-

Maio 2, 2016 - Leave a Response

As Vogais

A língua portuguesa é constituída por numerosos elementos de origem latina e grega na formação das suas palavras. O seu conhecimento facilita-nos a compreensão do seu significado.

Eis alguns exemplos:

2. Prefixos de Origem Grega

 

Prefixo                                                    Significado    

an-, a-                                                       negação,  privação                                          

Ex.: Anarquia, amoral

           

ana-                                                          repetição,  contrário,  semelhança

 Ex.:   Anáfora,   anagrama,  analogia

   

anfi-                                                            em torno,  de ambos os lados

Ex.: Anfiteatro,   anfíbio

           

anti-                                                             oposição,  ideia contrária

 Ex.: Antiaéreo,  antipatia

           

apo-                                                               afastamento,  separação

Ex.:   Apogeu, apóstata

 (continua)

Sidónio Muralha – Prelúdio

Maio 2, 2016 - Leave a Response

Sidónio Muralha

A minha poesia é uma árvore cheia de frutos

que um sol de tragédia amadurece;

mas eu não os arranco nem procuro:

– o meu sol de tragédia aquece, aquece,

e o fruto cai de maduro.

 

No resto, sou empregado de escritório

que não procura desvendar os abismos,

e passa o dia (glorioso ou inglório)

a somar algarismos…

 

A minha Poesia é uma árvore cheia de frutos

que um sol de tragédia amadurece;

 

mas eu não os arranco nem procuro:

– sei a miséria da estrada percorrida;

o meu sol de tragédia aquece, aquece,

 

– e o fruto cai de maduro

no chão da minha vida.

 

Sidónio Muralha (Lisboa, 28/7/1920 – Curitiba, Paraná, Brasil, 8/12/1982)
Poeta preocupado com as injustiças sociais, escritor de literatura para crianças, integrou o Movimento Neo-Realista e o Novo Cancioneiro.

Políbio Gomes dos Santos – Epitáfio

Maio 2, 2016 - Leave a Response

Políbio Gomes dos Santos

Menino, bem menino, fiz o meu balão

Papel de seda às cores…

– Tantas eram!

Ai, nunca mais as vi, nos olhos se perderam.

Quando a tarde morria o meu balão subiu

E tão direito ia, tão veloz correu

Que eu disse: “Vai tombar a Lua

E talvez queime o céu.”

 

Anoiteceu.

E no horizonte o meu balão era uma rosa

Vermelha, não minha, aflitiva,

Murchando,

Poisando na água pantanosa

De além.

 

Ninguém o viu.

 

Ninguém colheu a angústia dum balão ardendo.

Somente a água verde rebrilhou acesa,

Clamorosa e podre,

Como nos incêndios de Veneza

E rãs, acreditando o mal mortal e seu

Foram fugindo, pela noite fria,

Do balão que ardeu.

 

Ó tu, quem sejas, o balão fui eu!

 

Políbio Gomes dos Santos (Ansião, 7/8/1911 – Ansião, 3/8/1939)
Poeta, colaborador das publicações: Cadernos da Juventude; Presença; Sol Nascente; O Diabo e do Grupo Novo Cancioneiro.

Pina de Morais – As Contas da Custódia

Maio 2, 2016 - Leave a Response

Pina de Morais

“Ganhava dois escudos cada dia, tal qual como hoje ganham; pagava de renda da loja térrea, sem janela e de telha vã, sete escudos por mês, comia ela e o filho um quilo de boroa, que custava um escudo, e os meses em que trabalhasse vinte e cinco dias eram raros, sobretudo no Inverno em que o temporal dias a fio a não deixava sair de casa.

Dos cinquenta escudos ganhos em trinta dias, trinta eram para o pão, sete para a renda e seis para um litro de azeite para adubar sessenta tigelas de caldo, uma para ela e a outra para o filho, as únicas que comiam durante todo o dia e que a Custódia fazia quando chegava do trabalho.

E ainda era preciso pedir pelas portas a mão de caldo galego.

Não percamos a aritmética, trinta de pão, sete de renda, e seis de azeite – lá vão quarenta e três. Ficam sete.

E os remendos, as linhas para a avalanche dos remendos, a substituição da roupa esfandegada nas lides ásperas?

Ao fim de cada mês ficavam-lhe umas paupérrimas moedas.”

 

MORAIS, Pina de, Sangue Plebeu, 1942

 

João Pina de Morais (Valdigem, Lamego, 1889 – 1953)

Escritor, jornalista, colaborador nas revistas: A Águia e Seara Nova, bem como do Guia de Portugal, 1.º Volume, autor tumular do Soldado Desconhecido, político e militar, combatente na I Guerra Mundial, exilado, sobre o qual João de Araújo Correia escreveu: ” Não há português mais português nem duriense mais duriense do que Pina de Morais.”

Cecília Meireles – Ser Criança

Abril 30, 2016 - Leave a Response

Cecília Meireles

“(…) Uma criança que brinca não é apenas, como muitos leitores podem pensar, um alívio para os pais… É uma coisa muito grandiosa, quase sempre desapercebida de todas as circunstâncias.

Uma criança que brinca é alguém que está mergulhado no próprio infinito, nesse infinito de onde os adultos foram arrancados, alguns à força, outros insensivelmente, e ao qual muitos ainda podem regressar de novo, por um supremo esforço da sua atividade em reconquistar o estado de harmonia perdido. (…)

Vamos ser  crianças como as crianças. Pode ser que ainda não seja tarde. As crianças não sabem disse de ser tarde, nem do ontem nem do amanhã. (…)

Vamos achar que é bonito isto de ir passando para trás os dias e as noites. Que é maravilhoso isto de estar vivendo, mesmo sem saber para quê… (…)

MEIRELES, Cecília, Crônicas de Educação

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Sophia – A Cultura – Intervenção na Assembleia Constituinte (3/9/1975), Excertos – Continuação

Abril 30, 2016 - Leave a Response

Sophia de Mello Breyner Andresen

“(…) Por isso, toda a população tem direito à inviolabilidade e à livre expressão das formas de cultura que lhe são próprias. (…)

A cultura dos trabalhadores rurais, dos pescadores, a cultura das aldeias longínquas, não é uma cultura menor. E se essa cultura está paralisada pelo isolamento, esmagada e traumatizada pela pobreza e em muitos aspectos mesmo ja semidestruída, no entanto, ela permanece na sua raiz, uma semente de revolução, pois é uma cultura não burguesa, uma cultura integrada no trabalho e na vida, uma cultura do comportamento humano. (…)

A liberdade de ensinar e de aprender decorre naturalmente da liberdade de inventar e criar e divulgar. Aliás, aprender e ensinar não são apenas direitos, mas também deveres. E, paralelamente, ensinar é pôr a cultura em comum (…).

Não devemos temer os perigos de liberdade. O temor dos inimigos da liberdade e do uso que da liberdade possam fazer  não pode levar-nos a destruir à partida a nossa pobre liberdade de inventar, imaginar, participar.

O socialismo será construído através da união entre intelectuais com todos os trabalhadores. Através de uma revolução cultural, que nos pede toda a nossa imaginação, que nascerá de formas de criação livremente críticas e, por isso, livre na sua participação.”

In JL, 30 de março a 12 de abril de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

O Verbo Gostar e a Regência Preposicional

Abril 30, 2016 - Leave a Response

As Vogais

A regência é  relação entre duas palavras em que a segunda serve de complemento à primeira.

 

O verbo gostar rege a preposição de – pede um  complemento  introduzido pela preposição.

Ex.: A Raquel gosta de ouvir música clássica.

 

A preposição mantém-se quando o verbo gostar fizer parte de uma oração relativa cujo antecedente é o seu complemento direto.

Ex.: O prato de que ela mais gosta é feijoada.

 

Entre os verbos que regem esta preposição constam: arrepender-se, assegurar-se, cansar-se, certificar, chorar, convencer,  dispor, duvidar, esquecer-se, falar, fugir, informar, lembrar-se,  persuadir,  recordar-se, ter.

Ary dos Santos – A Máquina Fotográfica

Abril 28, 2016 - Leave a Response

Ary dos Santos

É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água

água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boa nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shining
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante.

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7/12/1937 – Lisboa, 18/1/1984)
Poeta, declamador, autor de poemas para canções, animador político, profissional de publicidade.

Eugénio de Andrade – Mar, Mar e Mar

Abril 28, 2016 - Leave a Response

Eugénio de Andrade

Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios de espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários.

Luiza Neto Jorge – A Casa do Mundo

Abril 28, 2016 - Leave a Response

Luiza Neto Jorge

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.

É a casa do mundo:
desaparece em seguida.

Luiza Neto Jorge (Lisboa, 1939 – Lisboa,1989)
Poetisa e tradutora, escreveu para o teatro e para o cinema, é considerada a personalidade poética mais importante da Poesia 61.

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