Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José Luiz Tavares – Lembrança de Manuel Bandeira num Outono de Lisboa

Junho 25, 2017 - Leave a Response

“Meus pedestres semelhantes”,
escreveste; mas eu, baleeiro da fome
sob a unção do frio,
tão aéreo cicerone me fizeram
estes claros dias de outubro.

Um tostão de azul (coisa pouca
apenas p´ra com sul rimar)
nos tetos frios do outono
ao mais triste de mim
leva a trémula consolação da cor.

Nos pátios caligráficos, ruivos amores
reinvento (hermeneuta sou dos segredos
que soterra o tempo) e virentes acenos
à pura noiva imaginada.

Real, porém, a mulher longeva
vendendo hortaliças
na viela fagulhante de turistas.
(Eu também já estive pelas suíças,
mas a apanhar morangos e castiças).

E vendo assim Lisboa (so beautiful)
assalta-me a lembrança de um outro azul
— sob suas fímbrias plantei
renques de acácias e tabuletas alusivas;
sob seus desdoirados ramos
desamores lamentei,
que não sou amigo do rei,
nem cheganças com deuses hei.

Mas se é de sua lei
que, embora triste, seja altivo amigo
da grei, tal sina não maldigo;
talvez mesmo comigo diga:
grato estou a estes claros dias
em que das lágrimas fiz maravilhas.

 

José Luiz Tavares (Tarrafal, IIha de Santiago, 10/6/1967)
Poeta, recebeu o Prémio Mário António de Poesia 2004 com a publicação do seu primeiro livro, e o Prêmio Jorge Barbosa 2005 com a sua segunda obra,  é o vencedor do Prémio BCA de Literatura 2016,  colaborador com jornais e revistas de Cabo Verde, Portugal e Brasil,  e tradutor, estudou literatura e filosofia.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José Eduardo Agualusa – Tempo das Chuvas

Junho 25, 2017 - Uma resposta

Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim

Saberás pelo vento que chegaste ao fim.

AGUALUSA, José Eduardo,  O Coração dos Bosques

 

José Eduardo Agualusa (Huambo, Angola, 13/12/1960)
Romancista, contista, novelista, cronista, autor de literatura infantil, poeta, colaborador em jornais e revistas, galardoado com vários prémios literários.

José Augusto Seabra – Aqui Não Somos…

Junho 25, 2017 - Leave a Response

 

Ao Victor

 

Aqui não somos

mais do que o raso espaço que nos cerca, apetecível vôo para os olhos

e limitado gesto para as mãos.

Aqui não somos

menos que esforço e pausa de cansaço, pesado corpo de silêncio grave

e uma só hipótese de esperança.

 

Aqui não somos

senão soluços adiados, lágrimas

correndo impuras, secas e nos lábios

um último sorriso anunciado.

 

José Augusto Seabra (Vilarouco, 24/2/1937 – Vila Nova de Gaia, 27/5/2004)
Poeta, ensaísta, crítico, professor universitário, diplomata e político.

José-Alberto Marques – Sem Título 2

Junho 25, 2017 - Leave a Response

 

Fechar um livro

após se ler

é arrumar o peso do tempo

no alto dum antigo muro

fechar os olhos

e meter os ombros

no largo do futuro.

 

MARQUES, José-Alberto, A Gramática a Rimar

José-Alberto Marques (Torres Novas, 4/10/1939)
Poeta, romancista, autor de literatura infanto-juvenil e de textos de crítica literária, colaborador em publicações, orientador pedagógico de Português.

José Alcides Pinto – Poema

Junho 25, 2017 - Leave a Response

 

Teu riso limitado

claro como o canto

e vivo como o olho.

Teu mundo recluso

entre objetos tristes

de uso particular, doméstico.

Uma xícara, urna toalha, um verso

tocado por teus dedos sensíveis.

Teu lento morrer

na fruta à mesa

que não te atreves.

Teu pobre dia

tão curto e longo

que desconheço

 

José Alcides Pinto (S. Francisco do Estreito, 10/9/1923 – Fortaleza, 2/6/2008)
Poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, crítico literário, jornalista e professor universitário.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José Luandino Vieira – Girassóis

Junho 25, 2017 - Uma resposta

 

Tem girassóis amarelos

o meu quadrado de sol

 

a vida espancada passa

mas no quadrado de sol

aberto sobre o jardim

os girassóis amarelos

velhos

mostram o fim

 

(1962])

 

José Luandino Vieira (Vila Nova de Ourém, 4/5/1935)
Pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça. Fixou-se em Angola aos três anos.
Romancista, novelista, contista, poeta, galardoado com o Prémio Camões em 2006, colaborador jornalístico, tradutor.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José da Silva Maia Ferreira – Porque Podes Duvidar?

Junho 25, 2017 - Leave a Response

Ingrata porque motivo
Cruel pode duvidar
Desse fogo lento e vivo

que é hoje o meu penar!
Foste tu que mo acendeste
Que desses olhos quiseste
Que eu bebesse o teu fitar! –

Qual mimosa a casta flor
Desfolhada pelo vento –
Assim me roubaste o amor –
Que é hoje o meu tormento.
Neste martírio de dor
Indas queres com rigor
Escaldar meu pensamento!

Queres provas de que te amo?
Desprende dos lábios teus
Um desejo que me inflama
Mostrar nele os votos meus!
Exiges de mim a morte?
Em tuas mãos a minha sorte
Entreguei perante os Céus!

Dize, fala, manda, ordena
Com a tua casta isenção
Aos tormentos me condena
Que nunca direi que não. –
Quer vivendo leda vida
Quer em sorte desabrida
Será teu meu coração!

 

José da Silva Maia Ferreira (Luanda, 7/6/1827 – Rio de Janeiro, 1881)
Poeta, colaborador no <em>Almanach de Lembranças</em>, Lisboa, 1879, foi estudante emLisboa, amanuense na Secretaria do Governo Geral de Angola, tesoureiro da Alfândega eoficial de Secretaria do Governo de Benguela.

Jorge de Sousa Braga – Gerês

Junho 25, 2017 - Leave a Response

 

Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva

Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram

 

Jorge de Sousa Braga (Vila Verde, 23/12/1957)
Poeta, tradutor e médico.

João Luís Barreto Guimarães – Este Poema

Junho 24, 2017 - Leave a Response

 

este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso

de mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje não
tocarei o corpo da Corona Four uma

azerty americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se

perdeu a tecla da letra « » só por isso não

tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
uscar as minhas palavras

João Luís Barreto Guimarães (Porto, 3/6/1967)
Poeta e cirurgião plástico.

Grupos Naturais – Dar Carta Branca / Dar Cavaco / Dar Coice / Dar Confiança / Dar Corda / Dar de Caras (ou de ventas, de rosto)

Junho 24, 2017 - Leave a Response

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar carta branca – inteira liberdade.

Ex.: O chefe deu-lhe carta branca para resolver o assunto.

 

Dar cavaco – não conversar; não aparecer; não ligar importância.

Ex.: O colega é muito estranho, não dá cavaco a ninguém.

 

Dar coice – pagar com ingratidão.

Ex.: Depois de tanta ajuda, deu-lhe um coice.

 

Dar confiança – importância; entrar em intimidades.

Ex.: Não dês confiança a estranhos.

 

Dar corda – estimular a falar.

Ex.: Dá-lhe corda, que ela nunca mais se cala.

 

Dar de caras (ou de ventas, de rosto) – encontrar-se frente a frente .

Ex.: Acabei de dar de caras com a tua amiga.

(continua)