Padre António Vieira – O Tempo

Agosto 26, 2015 - Uma resposta

Padre António Vieira

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera !
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito.
São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.
De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo.
Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.
A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas.
Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor ?!
O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos.

Padre António Vieira (Lisboa, 6/2/1608 – Bahia, 18/7/1697)
(“Paiaçu”)
Religioso, Prosador e pensador, orador do séc. XVII.

Grupos Naturais – Andar à Roda, Andar às Aranhas, Andar às Moscas, Andar à Solta, Andar de Esperanças, Andar de Gatas, Andar de Ponta, Andar na Estica, Andar na Lua

Agosto 26, 2015 - Leave a Response

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Andar à roda – fazer-se o sorteio.

Ex.: Hoje a lotaria anda à roda.

 

Andar às aranhas – sem saber o que fazer; desorientado.

Ex.: Nos primeiros meses de trabalho, o Sousa andava às aranhas.

 

Andar às moscas – estar vazio; ter pouca freguesia.

Ex.: No Inverno o restaurante anda às moscas.

 

Andar à solta – em liberdade.

Ex.: Aquele malandro ainda anda à solta?

 

Andar de esperanças – estar grávida.

Ex.: A Vera anda de esperanças.

 

Andar de gatas – com os pés a as mãos no chão.

Ex.: O bebé já anda de gatas.

 

Andar de ponta – embirrar com; implicar.

Ex.: Desde aquele dia, o chefe anda de ponta contigo.

 

Andar na estica – estar muito magro.

Ex.: A Helena anda na estica.

 

Andar na lua – estar distraído.

Ex.: Parece que andas na lua, Mário!

(continua)

Sophia – Paisagem

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Sophia de Mello Breyner Andresen

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Natércia Freire – Indefinida

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Natércia Freire

Oh, Poesia de andar
suspensa sobre outeiros!
Poesia de correr
Fundida nos ribeiros…
Oh, Poesia de ti,
que em mim estás a viver!
Oh, Poesia de então,
nos jardins, sob o Inverno,
pés na lama do chão,
e o dia, um dia eterno
de Poesia, a morrer!…

Poesia dos murmúrios,
dos nevoeiros densos,
dos silêncios sem luz,
dos pecados imensos,
sem gestos, qual a morte,
qual a ausência, sem vida.
Poesia de fechar
os olhos alagados
da Poesia de ti,
dos teus olhos fechados;
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida…

Poesia, dos passeios
por entre a claridade,
entre árvores tão esguias
que tocavam os Céus,
e as folhas a cair
de um oiro sem idade…
Poesia fabulosa,
de uma riqueza enorme…
Uma Poesia fina,
alada, misteriosa;
Poesia de um passado
que em mim nunca mais dorme!

Poesia perturbada,
Poesia abandonada.
Poesia na prisão,
sufocada, esquecida,
Poesia recalcada,
Poesia maltratada.
Ai, Poesia troçada
da jovem bem-casada
na poesia da vida!…

Ai, dias sem desígnio!
Ai, noites de mistério!
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida!…

Natércia Freire (Benavente, 28/10/1920 – Lisboa, Dezembro de 2004)
Poetisa, prosadora, colaboradora em diversas publicações, conferencista, compositora musical, professora do ensino primário.

Cecília Meireles – Retrato

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Clarice Lispector – A Palavra

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Clarice Lispector

“A palavra é a isca para pescar o que não é palavra.”

Clarice Lispector (Tchetchelnik, Ucrânia 10/12/1920 – Rio de Janeiro, 09/12/1977)
Contista, romancista, cronista, tradutora, jornalista, licenciada em Direito.

Alexandre Herculano – A Voz

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Alexandre Herculano

É tão suave ess’hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enteado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano.
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcíone ao gemido,
Ao sibilar do vento.

Era blasfema ideia,
Que triunfava enfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

«Cantor, esse queixume
Da núncia das procelas,
E as nuvens, que te roubam
Miríades de estrelas,

E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Enquanto do éter puro
Descia o Sol radioso,

Tipo da vida do homem,
É do universo a vida:
Depois do afã repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hino
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pai, confia,
Do raio ao cintilar.

Ele o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»

Oh, sim, torva blasfémia
Não manchará seu canto!
Brama a procela embora;
Pese sobre ele o espanto;

Que de sua harpa os hinos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual óleo
Do nardo recendente.

Alexandre Herculano (Lisboa, 28/3/1810 – Santarém, 13/9/1877)
Escritor, historiador, jornalista, poeta.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Alda do Espírito Santo – Angolares

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Alda do Espírito Santo

Canoa frágil, à beira da praia,
panos preso na cintura,
uma vela a flutuar…
Caleima, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.
Rostos duros de angolares
na luta com o gandu
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p’la fome de cada dia.

Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas em fila,
abrigando cubatas,
izaquente cozido
em panela de barro.

Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andantepor sobre a procela das águas.
A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.
Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.
O mar é vida.
P’ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar
“Terras tem seu dono”.

E o angolar na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas4
as gibas pestilentas
mas não tem terras.

P’ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.
(É nosso o solo sagrado da terra)

Alda do Espírito Santo (São Tomé e Príncipe, 30/4/1926 – Angola, Luanda, 9/3/2010)
Poetisa, colaboradora em diversas publicações, Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura e Deputada, autora do hino nacional “Independência Total”

Alberto Osório de Castro – Flores de Coral

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Alberto Osório de Castro

Dispersos pelos mares,
Alguns dias de luz me alvorejaram.
Ondas d’oiro no nácar dos luares
O meu sonho embalaram,
E em flores de coral, sob os palmares,
Rolaram-no, e passaram.

Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1/3/1868 – Lisboa, 1/1/1946), juiz, escritor e poeta, ligado à revista Boémia Nova, amigo de Camilo Pessanha e colega universitário, em Coimbra, onde também eram estudantes: António Nobre e Eugénio de Castro.

Alberto de Lacerda – Ascensão

Agosto 24, 2015 - Leave a Response

Alberto de Lacerda

Vou construindo a Verdade com degraus de pedra,
de pedra gemendo em doloroso sangue,
E à medida que as mãos pedem Perfeição
(as operárias mãos da alma insatisfeita)
seres invisíveis, puros, delicados,
afastam do meu ser as capas que me são
completamente alheias.

Solitade completa — o meu misténo
desta escadaria dolorosa.

Mas há no fim de tudo um lúcido Clarão.

É como a Cruz antiga que possui no meio
uma perfeita Rosa.

Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 20/9/1928 – Londres, 26/8/2007)
Poeta, fundador da revista Távola Redonda com Ruy Cinatti, António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira locutor e jornalista da BBC, professor catedrático nos EUA.

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