Teixeira de Pascoaes – Saudade

Janeiro 22, 2017 - Leave a Response

Teixeira de Pascoaes

“Saudade é criação, perpétuo casamento fecundo da Lembrança com o Desejo, do Mal com o Bem, da Vida com a Morte…”

Pascoaes, Teixeira de,  in A Águia , Dezembro de 1913

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877- Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

Maria Azenha – Respira a Neve…

Janeiro 22, 2017 - Leave a Response

Maria Azenha

Respira a neve no encosto alvo da madrugada:

rosa branca de água no pedestal da montanha

naufrágio da prata ou de minúscula aranha

que nos cedros do coração vem, exacta,

quebrar a dália do mármore.

O vidro , reflectido nas palavras do chão,

recomeça

buscando em cada superfície pombas de claridade

 

Maria Azenha (Coimbra, 29/12/1945)
Poetisa, professora, licenciada em Ciências Matemáticas.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)

Janeiro 22, 2017 - Leave a Response

Maria Assunção Vilhena

“(…) Depressa nos habituámos ao apito estridente e prolongado do “Frito”, anunciando a chegada de mais uma traineira a abarrotar de sardinha ou cavala.

Ao ouvi-lo, as operárias saíam de casa a correr, algumas a acabar de se vestir ou a pôr o lenço branco obrigatório, outras a engolir a última dentada de pão.

Corriam céleres, aspirando o cheiro a salmoura e a peixe seco pendurado às portas – reserva para os dias de mau mar – e pisavam, com chinelos de ourelo, as escamas prateadas que, despejadas na água de lavar o peixe, estavam secas e encaracoladas e estalavam debaixo dos pés. (…)

Trabalho na fábrica de conservas no Verão era sinal de menos fome no Inverno. Não era fácil o trabalho  das operárias nas fábricas, mas nós, os miúdos, alheios a esse trabalho penoso, brincávamos todo o dia na rua ou no Rossio cercado de buxos, onde havia um poço e um coreto.

Só entrávamos em casa nas horas de comer ou de dormir e era então que nos apercebíamos do que era a nossa casa de banhistas, que tinha a vantagem  de, não tendo catres de ferro, podermos saltar sobre os colchões de lã sem nos magoarmos. (…)

Minha mãe fez uma grande amizade com a vizinha mais próxima – a Senhora Luzia – que era quase da mesma idade e tinha um carácter semelhante.  O marido raramente estava em casa, pois andava na faina da pesca com um pequeno barco ou ia vender o peixe com o burro. (…)

Também nós fizémos as nossas amizades entre os filhos desse casal e os dos casais de pescadores ou de banhistas.

A minha maior amiga viria a ser a Ivete, a segunda filha da Senhora Luzia, quase da mesma idade que eu e cuja amizade se havia tornado tão profunda e tão sincera que havia de durar até ao fim da sua vida, ainda não há muitos anos. (…) Passeávamos no Rossio e por toda a vila a fazer recados às nossas mães. Íamos às lojas, ao talho, à Primorosa que, na minha ignorância de mocinha do monte julgava que significava “ir à do primo Rosa”… (…)

Nesses recuados tempos de banhos, já havia barracas na praia, mas os banhistas, vindos do campo, não as alugavam talvez por serem caras. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

Ana Goês – Jogos com a Língua Portuguesa – Continuação

Janeiro 22, 2017 - Leave a Response

As Vogais

Pares de “frases homófonas”…

 

“Andai-me depressa, rápido!
Andaime depressa, rápido!”

 

“Dinheiro encaixa sempre
Dinheiro em caixa, sempre!”

 

“Luís, engenheiro irresponsável…
Luís, engenheiro e responsável!…”

 

“Não tem pregas porquê?
Não te empregas porquê?”

 

“A Borradela estragou tudo!
A burra dela estragou tudo!”

 

“Andava a cavá-lo, e caiu…
Andava a cavalo, e caiu!”

 

“Eram umas cem, topei-as!
Eram umas centopeias…”

 

GOÊS, Ana, Aliás Voltas Sempre / Ali às Voltas Sempre

(continua)

 

Ana Goês, Carnaxide, 1936
Poetisa e prosadora.

Eugénio de Andrade – Carta ao Amigo e Poeta Jorge de Sena

Janeiro 18, 2017 - Leave a Response

Eugénio de Andrade

“21 de Maio de 1969

Querido Jorge:

Recebi simultaneamente a tua carta e original de Cavafy, há já alguns dais, mas não tive ocasião de te escrever logo após a leitura dos poemas, como gostaria de ter feito. (…) Como imaginava, atua tradução é incomparável, particularmente, os poemas breves, os mais difíceis de traduzir, pelo risco que alguns correm de se tornarem numa quase banalidade madrigalesca (…)

É um prodígio o que consegues.  (…) Tu resolves tudo com uma fraqueza, uma elegância e uma frescura verdadeiramente notáveis. (…)

As traduções deram-me uma grande alegria. Este livro pertence-me. A primeira vez que traduziste o Cavafy, lembras-te?, foi para mim, numa noite em tua casa, talvez depois da leitura de As Evidências. (…)

Felizmente que a alegria que me deu o teu livro me compensou da melancolia da tua carta. O que sobretudo lamento, nesta história do prémio, é que por via de o não receberes sejamos privados de nova visita tua.

Tu já sabes o descrédito que tem para mim a chamada glória literária. (…) Que importa o êxito? Tu não és um escritor para multidões, não no fundo o desejaste nunca ser. De um certo êxito suponho que terás até desprezo. Podes estar tranquilo: a tua obra está aí, e brilha, e aquece. Ela pertence aos melhores, como bem sabes. (…) Que havemos de fazer? Suportar é tudo – não foi o RilKe que disse? Suportar – não há para nós outra solução sob pena de abdicarmos de sermos homens.

Na próxima carta já te direi quais são os teus 50 poemas que prefiro. Tenho o maior gosto em indicar-tos.

Lembranças afectuosas à Mécia. Para ti o maior abraço do muito teu,

Eugénio”

In JL, 9 a 22 de novembro de 2016

Jorge de Sena – Mécia

Janeiro 18, 2017 - Leave a Response

Jorge de Sena

 

Mécia:

Não é já de Natal esta poesia.

E, se a teus pés deponho algo

que encerra

e não algo que cria,

é porque em ti confio: como

a terra,

por sobre ti os anos passarão,

a mesma serás sempre, e o

coração,

como esse interior da terra

nunca visto,

a primavera eterna de que

existo,

o reflorir de sempre, o dia a

dia,

o novo tempo e os outros que

hão de vir.

(1947)

 

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/78)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

Teolinda Gersão – Os Contos

Janeiro 17, 2017 - Leave a Response

Teolinda Gersão

“Os contos são uma boa forma de transmitir sentimentos e ideias fortes, mas ligadas à realidade. E uma boa maneira de comunicar.

Gostaria que os meus contos ajudassem as pessoas a ver mais claro. Escrever dá-nos uma certa lucidez, uma atenção especial sobre as coisas. Se o leitor o compreender, atingi um dos meus objetivos.”

In JL, 23 de novembro a 6 de dezembro de 2016.

Teolinda Gersão (Coimbra, 1940)
Romancista, contista, professora universitária.

Mário Cláudio – Relendo Fernando Namora

Janeiro 17, 2017 - Leave a Response

Mário Cláudio

“Ando agora a reler as páginas do homem que afinal destratei. E encontro-o muito acima de não poucos quem treinei para admirar.”

In Diário de Notícias, 12/02/2016

Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa (Porto, 6/11/1941)
Ficcionista, poeta, dramaturgo, ensaísta, tradutor, licenciado em Direito e diplomado em Bibliotecária-Arquivística.

Ferreira Gullar – A Ligação a Portugal

Janeiro 17, 2017 - Leave a Response

Ferreira Gullar

 

” (…) “Sete Poemas Portugueses” foram escritos tinha eu 20 anos, são os primeiros do livro Luta Corporal.

Dei-lhes esse título porque os escrevi sob a influência da poesia portuguesa que tinha acabado de descobrir pela leitura da Antologia de Poesia  Portuguesa feita pela Cecília Meireles.

Foram uma verdadeira revelação para mim os modernos poetas portugueses que eu, na altura, desconhecia, com exceção de alguns poemas de Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, Miguel Torga e Sá de Carneiro.

(…)

Os meus avós paternos eram portugueses, de Trás-os-Montes, seus três primeiros filhos nasceram  lá – meu pai foi fecundado lá.

Sinto-me muito ligado a Portugal pela história, pela cultura, pela poesia, até pela comida – adoro bacalhau, dobrada, etc. Assim, a minha costela portuguesa é muito forte. Aliás, no nosso país a componente portuguesa é a mais importante, ainda mais do que a índia ou a negra, embora estas também sejam importantes.”

In JL, 20/10/1991

 

Ferreira Gullar (S. Luiz, Maranhão, 10/9/1930 – Rio de Janeiro, 04/12/2016)
Pseudónimo de José Ribamar Ferreira
Poeta, crítico de arte, ensaísta, memorialista, biólogo.

A Palavra e o Silêncio- A Palavra e o Silêncio

Janeiro 17, 2017 - Leave a Response

António Ramos Rosa

“Escuto na palavra a festa do silêncio.”

ROSA, António Ramos, Volante Verde

 

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924 – Lisboa, 23/09/2013)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador.
Marido da poetisa Agripina Costa Marques.