Ernesto M. de Melo e Castro – Trabalhar

Abril 11, 2021 - Leave a Response

“(…) para mim, trabalhar o verso, trabalhar a prosa, trabalhar o signo não verbal, quer com meios gráficos convencionais ou com meios tecnológicos avançados, faz parte de um processo total que eu chamo poiésis, isto é, a produção do artefato, a produção do objeto, mas do objeto novo, evidentemente. E é justamente nesta inovação, ou nos aspetos transgressivos em relação às normas estabelecidas para a produção de versos, de poemas em prosa ou até mesmo de poemas visuais, é na transgressão que, para mim, se encontra o ponto crucial dessa produção”. E. M. de Melo e Castro, 2001

In Revista  Texto Digital, 2006

Ernesto M. de Melo e Castro (Covilhã, 19/04/1932 – São Paulo, 29/08/2020)
Poeta, crítico, ensaísta, professor universitário, artista plástico licenciado em Engenharia Têxtil, detentor de: Grande Prémio de Poesia Inaset – Inapa, 1990 e Prémio Jacinto do Prado Coelho, 1995.

Cecília Meireles – Inibição

Abril 11, 2021 - Leave a Response

Vou cantar uma cantiga,
vou cantar – e me detenho:
porque sempre alguma coisa
minha voz está prendendo.

Pergunto à secreta Música
porque falha o meu desejo,
porque a voz é proibida
ao gosto de meu intento.

E em perguntar me resigno,
me submeto e me convenço.
Será tardia, a cantiga
Ou ainda não será tempo…

MEIRELES, Cecília, <em>Mar Absoluto e Outros Poemas</em>

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Lopes Morgado – Aniversário

Abril 10, 2021 - Leave a Response

Profunda como o lago

Transparente como a água

Espontânea como o nenúfar

Discreta como a lua

Serena como a aurora

Verdadeira como o dia

Simples como o sol

Humilde como o Inverno

Alegre como a Primavera

Adulta como o Verão

Desprendida como o Outono

Serviçal como a terra 

Natural como a vida

E

Nunca mais faças contas:

Vive!

MORGADO, Lopes, MULHER MÃE

Lopes Morgado (Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938)
Sacerdote – Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos – , professor, escritor, poeta, jornalista.

Sophia – [Quem Como Eu]

Abril 10, 2021 - Leave a Response

Quem como eu em silêncio tece

Bailados, jardins e harmonias?

Quem como eu se perde e se dispersa

Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Miguel Torga – Alma Lusa

Abril 10, 2021 - Leave a Response

“É um fenómeno curioso:

O país ergue-se indignado, moureja o dia

interior indignado, come, bebe, e diverte-se

indignado, mas não passa disto.

Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.

Somos, socialmente, uma colectividade de

pacífica de revoltados”.

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX,  galardoado com o Prémio Camões em 1989, médico.

Herberto Helder – Aos Amigos

Abril 10, 2021 - Leave a Response

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.

Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,

com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente

dentro do fogo.

-Temos um talento doloroso e obscuro.

construímos um lugar de silêncio.

De paixão.

Herberto Hélder (Funchal, 23/11/1930 – Cascais, 24/03/2015)
Poeta, ficcionista, jornalista, bibliotecário, tradutor, apresentaddor de programas de rádio e de televisão.

Afonso Lopes Vieira – Cantar do Melro

Abril 10, 2021 - Leave a Response

Oh! Que linda que é madrugada.

Que florida,

Perfumada

Madrugada!…





Cantam, rindo

riso lindo,

estas águas, estas cores

raminhos, pontes e flores

Oh! Que linda que é a vida!

Que florida

e encantada

Madrugada!

Afonso Lopes Vieira (Leiria, 1878 –Lisboa,1946)
Poeta, representante do Neogarretismo, ligado à Renascença Portuguesa, licenciado em Direito.

Cristovam Pavia – Deslumbramento

Abril 10, 2021 - Leave a Response

AFINAL as tuas lágrimas por mim são as gotas de orvalho 

Na manhã que desponta!…

E o teu sorriso triste e profundo

E pôr-me de joelhos e beijar a terra húmida…

Quase choro de alegria!

Cristovam Pavia (Lisboa, 7/10/1933 – Lisboa, 13/10/1968)
Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho – usou outros pseudónimos: Sisto Esfudo, Marcos Trigo e Dr. Geraldo Menezes da Cunha Ferreira.
Poeta, membro da revista: O Tempo e o Modo, publicou poemas nas revistas: Távola Redonda e Árvore.
Filho de do poeta Francisco Bugalho, ligado à revista: Presença.
Licenciado em Filologia românica.

Jorge Gomes Miranda – [Às Vezes…]

Abril 9, 2021 - Leave a Response

 

Às vezes tenho medo de esquecer tudo:

a casa onde nasci, o recreio

da escola, essas vozes

que lembram um copo de água

no verão.

 

MIRANDA, Jorge Gomes, in “O que nos protege”, 1995

 

Jorge Gomes Miranda (Porto, 1965)
Poeta, critico literário, professor, licenciado em Filosofia.

José Gomes Ferreira – Uma Certa Maneira de Cantar

Abril 9, 2021 - Leave a Response

 

Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho

com egoísmo de fonte.

Quando sente voos na garganta

desce ao caminho

da solidão do seu monte,

e canta

em coro com a família do vizinho.

Não me parece pois necessária

outra razão

– ou desejo

de arrancar o sol do chão –

para explicar

a reforma agrária

no Alentejo.


É apenas uma certa maneira de cantar.



José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova -, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.