Rita Ferro – Repensar nos Direitos da Família

Maio 22, 2016 - Leave a Response

Rita Ferro

“Alcoutim, terça-feira, 26 de Agosto de 1977

Mãe:

A sua carta fez-me repensar no problema das mulheres que abortam sem consultar os maridos e da legítima revolta que eles causam – será que os irmãos de um futuro bebé não terão, também, uma palavra a dizer?

P.S. – Não me importei com a moldura verde. Depois do que aconteceu, como é que eu me podia importar com a moldura verde? ”

 

“Alvor, quarta-feira, 27 de Agosto de 1997

Mariana:

Hoje, um postal só com uma ideia: tens uma palavra a dizer sobre tudo o que acontece ao teu semelhante, independentemente de ser teu irmão ou não.”

FERRO, Rita e GAUTIER, Marta, Desculpa lá, Mãe

 

Rita Ferro (Lisboa, 26/2/1955)
Romancista, cronista, colaboradora em jornais, revistas e programas de rádio e TV, filha de António Quadros e neta dos escritores Fernanda de Castro e António Ferro.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, ” A Banhos”

Maio 22, 2016 - Leave a Response

Maria Assunção Vilhena

“(…) Nem ouvimos o motor do carro do pai, que chegava de uma longa viagem. Foi preciso que gritasse para acordarmos: “Novas, novas, compradrinhas de agora!” – dizia ele muito contente. (…)

“Arranjei trabalho no peixe” – continuava ele; “Vai tudo para a praia. Toca a ir para a cama, que é para amanhã levantar cedo, para preparar as coisas. Vai tudo para a praia!”

Pensei que estava a sonhar… A cambalear, fomos para a cama, com as últimas palavras a soar forte nos ouvidos.

No dia seguinte, foi uma azáfama naquela casa para conseguir fazer todos os preparativos. Minha mãe teve de recorrer às filhas dos vizinhos, pois alguns de nós, em vez de ajudarmos, incomodávamos por sermos muito pequenos.

Já tínhamos ido algumas vezes à praia mas assim, para ficar, parecia um sonho.

Família e bagagem acomodou-se, como foi possível, em casa de uma velhinha de cabelos de neve e muito surda, que era amiga de meus avós paternos. Vivia só com a criada, num casarão de dois pisos, pondo à nossa disposição dois quartos mobilados no primeiro andar e uma parte do sótão. Minha mãe podia servir-se da cozinha e do quintal para lavar e estender a roupa.

A casa ficava virada ao Sul, sobranceira a uma baía maravilhosa aureolada por uma praia luminosa de fina areia branca.

O mar era um lago de águas tranquilas, de um azul tão puro que era difícil distinguir onde terminava a água e começava a abóbora celeste. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

Maria de Lourdes Belchior – Profissão

Maio 22, 2016 - Leave a Response

Maria de Lourdes Belchior

Profissão: professora, professar o quê?

Da profissão de fé à libertação das palavras

límpidas, quentes, misterioso arco-íris,

ponte de mim para eles os alunos quem?

Quem escuta discurso sobre discurso

arquitexto sobre textos de inenarrável beleza?

Profissão: professora, professar o quê?

Quem escuta, adivinha, a tessitura bruxa

do discurso anti-académico, dramático acaso,

aos borbotões arrancado, sopesado, feito

de palavras quotidianas e de terminologia

crítica, adequada à realidade qual? do

texto literário… Profissão qual? ritual de

acesso à Beleza qual? gestual a decifração

de quê? De quem? do mundo? do homem?

do Bem? do Mal de quê? de Quem?

 

BELCHIOR, Maria de Lourdes, Gramática do Mundo

Maria de Lourdes Belchior (1923 – 4/6/1988)
Ensaísta, investigadora, poetisa, professora catedrática, figura de renome na cultura portuguesa.

Nuno Júdice – A Terra do Nunca

Maio 18, 2016 - Leave a Response

Nuno Júdice

Se eu fosse para a terra do nunca,

teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

 

os sonhos que ninguém teve quando

o sol se punha de manhã;

 

a rapariga que cantava num canteiro

de flores vivas;

 

a água que sabia a vinho na boca

de todos os bêbedos.

 

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,

numa estrada de nuvens.

 

E quando chegasse ao céu, pisaria

as estrelas caídas num chão de nebulosas.

 

A terra do nunca é onde nunca

chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

 

E é por isso que a apanho do chão,

e a meto em sacos de terra do nunca.

 

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,

despejarei todos os sacos à sua porta.

 

E a rapariga que cantava sairá da terra

com um canteiro de flores vivas.

 

E os bêbedos encherão os copos

com água que sabia a vinho.

 

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se

quando nasce o dia.

 

Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, Algarve, 1949)
Escritor, poeta, ensaísta, colaborador em várias publicações, professor catedrático.

 

Gestão Cruz – Questões de Tempo

Maio 17, 2016 - Leave a Response

Gastão Cruz

O que representava esse arrepio
que com a noite vinha e me fazia
duvidar que pudesse em outro tempo

voltar a ver o corpo da alegria?
Todo o tempo é composto por enigmas
toda a mudança que eles significam

desaguará em perda esse o sentido
da noite que responde agora na
floresta do passado às aves fugitivas

Gastão Cruz (Faro, 20/7/1941)
Poeta, crítico literário, encenador, licenciado em Filologia Germânica.

Flor Campino – Entre Sol e Chuva

Maio 17, 2016 - Leave a Response

Entre sol e chuva

deslizam os veleiros de Íris.

Lenço ou asa, o arco

da garganta lhe sai,

e perfeito

o relâmpago o fere:

pelo sol

em cortina de lágrimas se apaga.

 

Íris navega para outros horizontes

Só ficam namorados

ensombrecendo-se as mútuas pupilas.

Entristecem.

 

Flor Campino (Tomar, 1943)

Escritora e pintora.

Yvette Kace Centeno – O Que Fazem as Mães?

Maio 17, 2016 - Leave a Response

Yvette Centeno

O que fazem as mães?

abrem caminho

mas abrem caminho

cegamente

não conhecem o túnel

o destino

a sombra que as enreda

mais à frente

 

Yvette Kace Centeno (Lisboa, 1940)
Poetisa, dramaturga, ensaísta especializada na obra de Fernando Pessoa, tradutora, professora catedrática.

Carlos Drummond de Andrade – Soneto da Perdida Esperança

Maio 17, 2016 - Leave a Response

Carlos Drummond de Andrade

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

Carlos Drummond de Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia.

Cassiano Ricardo – Visita à Casa Paterna

Maio 17, 2016 - Leave a Response

Cassiano Ricardo

O flautim do meu sangue soluça

diante de uma fotografia.

As folhas vestem de perguntas

verdes o silêncio.

 

Ouve-se o musgo caminhar no muro,

entre as formigas.

A única coisa quieta

é a pedra

que me taquigrafa as palavras

e as rugas.

 

Cassiano Ricardo (São José de Campos, Brasil, 26/6/1895 – Rio de Janeiro, 14/1/1974)
Poeta, ensaísta, jornalista, licenciado em Direito.

Manuel Bandeira – Hiato

Maio 17, 2016 - Leave a Response

Manuel Bandeira

És na minha vida como um luminoso
Poema que se lê comovidamente
Entre sorrisos e lágrimas de gozo…

A cada imagem, outra alma, outro ente
Parece entrar em nós e manso enlaçar
A velha alma arruinada e doente…

— Um poema luminoso como o mar,
Aberto em sorriso de espuma, onde as velas
Fogem como garças longínquas no ar…

Manuel Bandeira (Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)
Poeta, crítico literário e de arte, tradutor, professor.

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