Alberto de Oliveira- À Minha Filha

Julho 8, 2015 - Leave a Response

Alberto de Oliveira (Portugal)

Vejo em ti repetida,
A anos de distância,
A minha própria vida,
A minha própria infância.

É tal a semelhança,
É tal a identidade,
Que é só em ti, criança,
Que entendo a eternidade.

Todo o meu ser se exala,
Se reproduz no teu:
É minha a tua fala,
Quem vive em ti, sou eu.

Sorris como eu sorria,
Cismas do meu cismar,
O teu olhar copia,
Espelha o meu olhar.

És como a emanação,
Como o prolongamento,
Quer do meu coração,
Quer do meu pensamento.

Encarnas de tal modo
Minha alma fugitiva,
Que eu não morri de todo
Enquanto sejas viva!

Por que mistério imenso
Se fez a transmissão
De quanto sinto e penso
Para esse coração?

Foi como se eu andasse
Noutra alma a semear
Meu peito, minha face,
Meu riso, meu olhar…

Meus íntimos desejos,
Meus sonhos mais doirados,
Florindo com meus beijos
Os campos semeados.

Bendita é a colheita,
Deus confiou em nós…
Colhi-te, flor perfeita,
Eco da minha voz!

Foi o amor, foi o amor,
Ó filha idolatrada,
O sopro criador
Que te tirou do nada!

Deus bendito e louvado,
Ó filha estremecida,
Por te cá ter mandado
A reviver-me a vida!

OLIVEIRA, Alberto de, Lar 

Alberto de Oliveira (Porto, 16/11/1873 – Porto, 23/4/1940)
Poeta, memorialista, cronista, crítico, colaborador da Revista Bohemia Nova, diplomata.

Al Berto – Regresso à Fuga

Julho 8, 2015 - Leave a Response

Al Berto

a noite de escuros voos apanhou-me
com a cabeça acesa numa teia de tinta
é sempre uma mentira existir
fora daquilo que está no fundo de mim
abro
o livro das visões
e uma cidade são todas as cidades trituradas
na memória calcinada do homem nómada

canto
ó resplandecentes águas ó murmúrio quieto
das areias
um pulso que se abre e estremece violento
ó dor da árvore ó surdo ruído do coração
onde a seiva das bocas brilha derramando-se
sobre o corpo
que na asa do migrante pássaro navega
ávido de mundo e desolação.

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Locuções Latinas – Quantum Satis / Qui Pro Quo / Ratio/ Scilicet / Sic / Sine die / Sine Qua Non 

Junho 20, 2015 - Leave a Response

As Vogais

As locuções latinas mencionadas em título continuam a ser utilizadas.
Eis o significado de cada uma delas:

quantum satis ———————- quanto baste

qui pro quo ————————– confusão; equívoco

ratio ———————————- razão; relação

scilicet ——————————– a saber; isto é

sic ————————————- assim mesmo, textualmente

sine die ——————————- sem data marcada

sine qua non ————————- essencial; sem a qual não (condição)

(continua)

José Gomes Ferreira – Entrei no Café com um Rio na Algibeira 

Junho 20, 2015 - Leave a Response

José Gomes Ferreira

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação…

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova -, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Albano Martins – Glosa para José Gomes Ferreira

Junho 20, 2015 - Leave a Response

Albano Martins

O mundo, dizias tu,
não é só dos pássaros
e do vento, o mundo
é também nosso. Foi
por isso, poeta,
que encheste
uma gaveta
de nuvens com a memória
das palavras e acendeste
no chão
dos dias
comuns
algumas estrelas
com tua mão.

Albano Martins (Telhado, Fundão, 6/8/1930)
Poeta, fundador da revista Árvore, colaborador de publicações, professor universitário, licenciado em Filologia Clássica.

Agustina Bessa Luís – Escrever

Junho 20, 2015 - Leave a Response

Agustina Bessa Luís

” Nasci escritora e tenho o gosto da escrita. Depois vem a relação com o público e com todos estes fantasmas que são as memórias.”

In: Público, 28/6/2004

Agustina Bessa Luís (Vila Meã, Amarante, 15/10/1922)
Pseudónimo de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa
Romancista, dramaturga, novelista, contista, ensaísta, autora de biografias e literature infantisl, colaboradora de diversas publicações periódicas.

Aguinaldo Fonseca – Magia Negra

Junho 20, 2015 - Leave a Response

Aguinaldo Fonseca

Abro

De par em par, a janela

Ao convite da noite tropical.

E a noite enche o meu quarto de estrelas vivas.

Nesta hora morna e calma,

Profunda e densa como um túnel,

O rumorejar longínquo das palmeiras

Varrendo o Céu

É misteriosa voz do negro martirizado.

Prendo os meus gestos e o meu grito abafo.

Silêncio…

No poço da paz nocturna

Interceptada

Pela orgia sincopada

Das estrelas e dos grilos,

Arrasta-se o vão lamento

Da África dos meus Avós,

Do coração desta noite,

Feridos, sangrando ainda

Entre suores e chicotes.

E a Lua cheia veio

À voz quente do batuque,

Faz feitiço…

E o negro dorme

Ser santo um dia

 

Aguinaldo Fonseca (Cabo Verde, Mindelo, 22/9/1922 – Lisboa, 24/01/2014)

Poeta.

Agripina Costa Marques – A Luz

Junho 20, 2015 - Leave a Response

Agripina Costa Marques

Quando se vela a luz numa penumbra
mais fundamente no teu reconhecimento
evocas a Presença em recíproco apelo.
Com o olhar renovado na abolição do tempo
de novo acedes à invisível luz que em ti reside
– que sem te abandonar por excesso é dispersa
sob a expansão de um dilúvio solar.

MARQUES, Agripina Costa, Ciclos, Fragmentos, Idades

Agripina Costa Marques (n. 1929)
Poetisa, viúva de António Ramos Rosa.

Agostinho da Silva – Dizendo Que É Só Amor

Junho 20, 2015 - Leave a Response

Agostinho da Silva

Dizendo que é só amor
fazes Deus menor que Deus
cercas o ilimitado
dos limites que são teus.

Deixa de estufar o peito
quando fazes tuas rondas
talvez teu cérebro seja
só um bom detector de ondas.

Do que é o Espírito Santo
só diga quem fique mudo
que palavra há que me leve
àquele nada que é tudo.

E venha filosofia
teologia que farte
o que se pense de Deus
é só de Deus uma parte.

Nunca voltemos atrás
tudo passou se passou
livres amemos o tempo
que ainda não começou.

É só bem dentro de nós
que o projeto se anuncia
se retoma se reforma
e se volta à luz do dia.

É o mundo que nos coube
perpétua ronda de amor
do criado ao incriado
por sua vez criador.

Mais longe estás se houve início
mais perto se o tempo finda
e a rosa que em ti abriu
é em mim botão ainda.

Mais que a teu Deus sê fiel
ao que tu sejas de Fé
talvez o Deus que te crias
oculte o Deus que Deus é.

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
com todo o saber de adulto
todo o brincar de criança.

O mundo é só o poema
em que Deus se transformou
Ele existe e não existe
tal a pessoa que sou.

Todo momento que foge
a eternidade encerra
só atingirás o céu
por cuidado passo em terra.

Talvez seja isto somente
o de mais perfeito ensino
ter homem a liberdade
de se entregar ao destino.

Divino espírito santo
senhor do imprevisível
me toma pois da verdade
só quero o que for incrível.

Como durmo sossegado
sabendo que por mim vela
uma coisa que sonhando
vivo me tem dentro dela.

Agostinho da Silva (Porto,13/2/1906 – Lisboa, 3/4/1994)
Filósofo, poeta, ensaísta, professor, licenciado em Filologia Clássica (1929), doutorado com louvor (1929), colaborador da Revista Seara Nova, fundador do Núcleo Pedagógico Antero de Quental (1939), co-fundador de universidades no Brasil, criador de Centros de Estudos.

Agostinho Neto – Amanhecer

Junho 20, 2015 - Uma resposta

Agostinho Neto

Há um sussuro morno
sobre a terra;
degladiam-se
luz e trevas
pela posse do Universo;
sente-se a existência
a penetrar-nos nas veias
vinda lá de fora
através da janela;

cresce a alegria na alma
a Vida murmura-nos doces fantasias.

Tangem sinos na madrugada
vai nascer o sol.

Agostinho Neto (Catete, Angola, 17/9/1922 – Moscou, Brasil, 10/9/1979)
Médico, poeta, político, 1.º Presidente de Angola.

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