Agustina Bessa Luís – [O Pai…]

Setembro 13, 2021 - Leave a Response

” O pai, esse, teve um sorriso que parecia doer-lhe na cara. Lourença esqueceu-se do ferimento e do joelho que ela não se atrevia a mexer, e calou-se. Não podia olhar para o pai assim aflito e a tentar parecer distraído. Estava envergonhada e deixou que a curassem sem se importar.

Era tudo melhor do que causar pena nos olhos do pai, pena de homem, que é uma coisa que parece que vai durar para sempre.”

LUÍS, Agustina Bessa

Dentes de Rato

Agustina Bessa Luís (Vila Meã, Amarante, 15/10/1922 – Porto, 03/06/2019)
Pseudónimo de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa
Romancista, dramaturga, novelista, contista, ensaísta, autora de biografias e literatura infantil, colaboradora de diversas publicações periódicas, detentora de vários prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2004.

Grupos Naturais –Dar Providência; Dar Provimento; Dar Pulos de Corça; Dar Quebranto; Dar Raia

Setembro 13, 2021 - Leave a Response

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Dar providência –tomar medidas para evitar reclamações-.

         Ex.: O Departamento deu providência  para ser alterado o n.º 6 do regulamento.

Dar provimento a – aceitar; dar seguimento.

         Ex.: O tribunal deu provimento ao recurso.

Dar pulos de corça – ficar furioso.

         Ex.: O nosso concorrente vai dar pulos de corça quando souber nos antecipámos no lançamento dos novos modeles.

Dar quebranto – amolecer,  encantar.

           Ex.: O viiznho deu-lhe quebranto. Cada vez que o vê, não faz nada bem feito.

Dar raia – fazer asneira.

         Ex.: A administradora deu raia na assembleia.

(continua)

Ruy Belo – A Mão no Arado

Setembro 11, 2021 - Leave a Response

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará


Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua


É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela
morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com
que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã


Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente


Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

António Ramos Rosa – [Não Posso Adiar…]

Setembro 11, 2021 - Leave a Response

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas


e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio


Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924 – Lisboa, 23/09/2013)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador.
Marido da poetisa Agripina Costa Marques.

Gil Vicente – Cantiga

Setembro 11, 2021 - Leave a Response

Bondes vindes, filha,

branca e colorida?

De la venho, madre,

de ribas de um rio;

achei meus amores

num rosal florido.

Florido, enha filha,

branca e colorida.

De lá venho, madre,

de ribas de um alto;

achei meus amores

num rosal granado.

Granado, enha filha,

branca e colorida?

Gil Vicente (1465-1536)
Dramaturgo, poeta, músico, actor e encenador, considerado o pai do teatro português.

David Pinto Correia – Para a Maria Aurora

Setembro 11, 2021 - Leave a Response

A voz nítida da ilha desagua

em minha indecisão meu coração:

a praia silencia

meu combate

Aos outros dou a voz atenta

da fingida erudição

mas no flanco do cavalo que agora

sou a teu lado

sussurra a presença amiga:

companhia

do mar no projecto renascido

do meu sangue e do meu grito

CORREIA, David Pinto, Este Branco Silêncio

David Pinto Correia (Funchal, 1939 – Lisboa, 19/08/2018)
Professor catedrático na FLUL, doutorado em Literatura Portuguesa, autor de várias obras, dirigente de diversas publicações e colectâneas, detentor de cargos na cultura portuguesa – um professor para recordar pela vida fora.

Camilo Castelo Branco – Canta!

Setembro 7, 2021 - Leave a Response

Ai! quantas vezes, ó triste,

esse teu saudoso pranto

desafogaste no canto!

Ai! quantas vezes sentiste

mais precisão de chorar!…

Ai! canta, canta, que há prantos

no teu plangente cantar!

Ao cantar te acorde a infância

com seus sorrisos e flores;

feres notas que te falam

como falavam amores;

outras são suspiros d´alma.

mas todos têm o seu gozar…

Ai! canta, canta, ave triste,

quando quiseres chorar.

Camilo Castelo Branco (Lisboa, 16/3/1825 – S. Miguel de Seide, 1/6/1890)
Romancista, cronista, crítico, dramaturgo, poeta e tradutor.

Antero de Quental – Visão

Setembro 7, 2021 - Leave a Response

Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.


Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto n’um nimbo pardacento…
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…


E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,


Soluço de ódio e raiva impenitentes…
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político. Licenciado em Direito.

António Mega Ferreira – Glosas

Setembro 7, 2021 - Leave a Response

Traz-me um colar de jasmim

parador à volta da alma

flor imensa, imóvel e atenta,

que recolhe dos teus dedos

a gota de

agua lenta.

Traz-me um colar de jasmim

pra enfeitar o coração,

água clara, rio clamor

que traz nos seus braços

prisioneiro

o teu rubor.

Dou-te um colar de jasmim

para te velar o olhar,

luz exausta, dor coberta,

que revela nos teus braços

a alma (inteira)

aberta.

FERREIRA, António Mega, O Tempo que Nos Cabe

António Mega Ferreira (Lisboa, 25/3/1949)
Romancista, ensaísta, poeta, jornalista, licenciado em Direito.

Mário Cesariny – em forma de poema

Setembro 7, 2021 - Leave a Response

dou os meus prantos ás procelas

para que cessem e me deixem

dou os meus sonhos às estrelas

para que os meus sonhos não se queixem

fico só como o lobisomem

na estrada sem forma e sem fundo

meus sonhos no ar dormem dormem

à espera da manhã do mundo

vê tu se nesta alegoria

descobres porque estou inteiro

e nunca terei agonia

sem fartar meus sonhos primeiro

[Mas não era este que eu queria.

Ah!]

Mário Cesariny (Lisboa, 9/8/1923 – Lisboa, 26/11/2006)
Pintor e poeta, fundador do Movimento Surrealista Português.