Afonso Duarte – Horas de Saudade

Julho 7, 2019 - Leave a Response

 

Vou de luar em rosto, descontente:

Meus olhos choram lágrimas de sal.

— Adeus, terras e moças do casal,

— Adeus, ó coração da minha gente.

 

A hora da saudade é uma serpente:

Quero falar, não posso, e antes que fale

Ela enlaça-me a voz tão cordial

Que as coisas mais me lembram fielmente.

 

Olhos de amora, e uma ave na garganta

Para enfeitiçar a alma quando canta,

Moças com sua parra de avental;

 

Graça, Beleza, um verso sem medida,

A Saudade desterrou-me a vida …

Sou um eco perdido noutro vale.

 

DUARTE, Afonso, Episódio das Sombras

 

Afonso Duarte (Ereira, freguesia de Verride, concelho de Montemor-o-Velho, 1/1/1884 – Coimbra, 5/3/1958)
Poeta, professor, pedagogo e lavrador, licenciado em Ciências Físico-Naturais.

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João Guimarães Rosa – Gargalhada

Julho 2, 2019 - Leave a Response

 

 

Quando me disseste que não mais me amavas,

e que ias partir,

dura, precisa, bela e inabalável,

com a impassibilidade de um executor,

dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias…

Mas olhei-te bem nos olhos,

belos como o veludo das lagartas verdes,

e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,

tive pena de ti, de mim, de todos,

e me ri

da inutilidade das torturas predestinadas,

guardadas para nós, desde a treva das épocas,

quando a inexperiência dos Deuses

ainda não criara o mundo…

 

João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27/6/1908 – Rio de Janeiro, 19/11/1967)
Contista, romancista , novelista, colaborador em vários jornais e revistas, médico e diplomata.

Ferreira Gullar – Toada à Toa

Julho 2, 2019 - Leave a Response

 

A vida, apenas se sonha

que é plena, bela ou o que for.

Por mais que nela se ponha

é o mesmo que nada por.

Pois é certo que o vivido

– na alegria ou desespero –

como o gás é consumido…

Recomeçamos de zero.

 

Ferreira Gullar (S. Luiz, Maranhão, 10/9/1930 – Rio de Janeiro, 04/12/2016)
Pseudónimo de José Ribamar Ferreira
Poeta, crítico de arte, ensaísta, memorialista, biólogo.
Galardoado com o Prémio Camões em 2010.

António Carlos Cortez – Arte Poética e Não

Julho 2, 2019 - Leave a Response

 

A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.

 

CORTEZ, António Carlos, Linha de Fogo

 

António Carlos Cortez (Lisboa, 1976)
Poeta, crítico literário, ensaísta, colaborador de diversas publicações, vencedor do Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, 2018, professor de Literatura Portuguesa e Português.

António Mega Ferreira – O Tempo que Nos Cabe (Ainda)

Julho 1, 2019 - Leave a Response

 

É dentro da cabeça,

lá dentro,

que o tempo nos consome

e nos faz falta.

Não há chuva morna

nem sol

que nos aqueça, quando

nos falta o sopro,

a luz, a cega fé que nos mantém

despertos, quando

por fora, o corpo

já anuncia a noite

mais profunda.

Por isso,

é dentro da cabeça,

cá dentro,

para lá dos céus,

antes que o mar termine,

nesta imensa confusão

de meridianos

que nos dói e nos deslumbra,

que se aloja o segredo

indecifrável:

a cor, o som, a luz

que nos conforta,

neste intensamente breve

instante

que é o tempo que nos cabe.

 

FERREIRA, António Mega, O Tempo que Nos Cabe

 

António Mega Ferreira (Lisboa, 25/3/1949)
Romancista, ensaísta, poeta, jornalista, licenciado em Direito.

José Tolentino Mendonça – O Silêncio

Julho 1, 2019 - Leave a Response

 

Regressamos a uma terra misteriosa

trazemos uma ferida

e o corpo ferido

imprevistamente nos volta

para margens mais remotas

 

Giorgio Armani tinha declarado

àquele jornal inglês: “o luxo desagrada-me,

é anti-democrático.

Quero agora homenagear os operários de todo o mundo”

Eu só pensava em São João da Cruz

enquanto ouvia pela enésima vez:

“a moda substituiu o luxo

pela elegância”

 

João da Cruz fala de coroas,

resplendores, casulas

véus de seda, relicários de ouro e

diamantes

 

para lá do jogo das nossas defesas

qualquer coisa interior

a intensa solidão das tempestades

os campos alagados,

os sítios sem resposta

 

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços

 

MENDONÇA, José Tolentino,  A Noite Abre Meus Olhos

 

José Tolentino Mendonça (Machito, Madeira, 15/12/1965)
Poeta, ensaísta, sacerdote, professor universitário.

Luís Amorim de Sousa – For Lindsay

Julho 1, 2019 - Leave a Response

 

dizia Lindsay Anderson

voltando-se para o seu Hamlet

: nada premanece

you Know?

 

a mesa tinha uma toalha branca

e uma floreira

com flores miudinhas ao centro

 

a bordadura dos pratos

(florinhas entrelaçados)

era azul

 

o actor desviou os olhar

 

um guardanapo caiu

 

essas coisas eu notei porque o fugaz

oferece por omissão

 

por exemplo    não me lembro

qual era o nome do actor

 

passava-se isto em Bethesda

na casa de Portsmouth Road

 

Portsmouth Road é perto do mar

Bethesda no interior

 

SOUSA, Luís Amorim de, Bellini e Pablo Também

 

Luís Amorim de Sousa (Nova Lisboa, Angola, 1937)
Poeta, ficcionista e cronista, jornalista, locutor, produtor e diretor da Secção Portuguesa na BBC, e Conselheiro de Imprensa na Embaixada de Portugal em Washington, Brasília e Londres.
Grande amigo de Alberto de Lacerda, que lhe legou o seu acervo artístico e literário

Alfredo Guisado – Ela no meu Olhar

Junho 27, 2019 - Leave a Response

 

Os meus olhos são Índias de segredos.

É Portugal seu Corpo esguio e brando.

E as cinco quinas, seus compridos dedos

Em suas mãos, bandeiras tremulando.

 

Seus gestos lembram lanças. E ela passa…

Seu perfil de princesa faz lembrar

Batalhas que travaram ao luar,

Epopeia-marfim da minha Raça.

 

O seu olhar é tão doente e triste

Que me parece bem que não existe

Maior mistério do que o de prendê-lo.

 

Nos meus sentidos vive o seu sentir

E, às vezes, quando chora, põe-se a ouvir

Seu coração, velhinho do Restelo.

 

GUISADO, Alfredo, Antologia Poética

 

Alfredo Pedro Guisado (Lisboa, 30/10/1891 – Lisboa, 02/12/1975)
Poeta, colaborador da revista Orpheu, jornalista, deputado, político, licenciado em Direito.

 

Alberto Osório de Castro – Reisebilder

Junho 27, 2019 - Leave a Response

 

E eis-te no fim do mundo,

Costa verde e vermelha de Timor!

Mas que divina, extraordinária cor,

A do teu céu, a do teu mar profundo!

 

É d’oiro a manhã de Dili.

Trilla tão lindo o corlílli…

Na frescura das ribeiras.

Murmura perpetuamente

A verde sombra virente

Das gaboeiras

À contemplação da paisagem em Fahi-ten

 

Saudades são a lembrança

Dalgum bem que nos deixou

P’ra sempre, e sem esperança

De volta, o bem que passou.

E passa mesmo a lembrança

De todo o bem que findou

Depois de uma viagem de regresso Lahane

Alto vale de Lahane, ermo e divino,

No murmúrio das águas! Quantos dias

Por tuas sombras divaguei, absorto

Na beleza da vida morredoira,

Face do mundo misteriosa e vária…

Notas explicativas de alguns termos.

 

Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1/3/1868 – Lisboa, 1/1/1946), juiz, escritor e poeta, ligado à revista Boémia Nova, amigo de Camilo Pessanha e colega universitário, em Coimbra, onde também eram estudantes: António Nobre e Eugénio de Castro.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Tailândia; Taiwan; Tajiquistão; Tanzânia; Timor-Leste; Togo; Tokelau

Junho 27, 2019 - Leave a Response

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

 

Tailândia ———————————————— tailandês

Taiwan ————————————————– taiwanês

Tajiquistão ——————————————- tajique

Tanzânia ———————————————–  tanzaniano

Timor-Leste ——————————————- timorense, timor, maubere

Togo ——————————————————- togolês, toguês

Tokelau ————————————————- de Tokelau

(continua)