Archive for Junho, 2006

Interjeição: Oxalá!
Junho 27, 2006

Trata-se de uma interjeição que exprime desejo.

É proveniente do árabe ua-xa-illah e equivale a: Deus queira.
Entrou em Portugal no séc. XVI – “(…) e oxalá nam de fogo eterno”, Frei Bartolomeu dos Mártires.

Oxalá também é um substantivo masculino no Brasil, derivado, provavelmente, da contracção de duas palavras nagós, forma sincopada de orixalá, o maior dos orixás – culto afro-brasileiro -, e designa o Nome do Senhor do Bonfim na Baía.

Eugénio de Andrade – Roma
Junho 26, 2006

Era no verão ao fim da tarde,
como Adriano ou Virgílio ou Marco Aurélio
entrava em Roma pela Via Ápia
e por Antínoo e todo o amor da terra
juro que vi a luz tornar-se pedra.

Eugénio de Andrade

Noutra era, na Primavera, de manhã, ao meio-dia, à tarde e à noite caminhei sem rosto e com toda a dor do mundo juro que vi chicotes no ar e ouvi o eco de ranger de dentes e gemidos de inocentes…

 

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Lembranças
Junho 18, 2006

Tudo é sonhar?
Ainda bem
Não ser de mim
O que me vem

Ser só um elo
De mim ao tudo
Mas que sem mim
Seria mudo

Elo sem que
Não tem sentido
Nem haver mundo
Nem ter vivido

10.87
Agostinho da Silva

Egito Gonçalves – “C” de Cidade ou de Coração?!…
Junho 18, 2006

Não sei se esta cidade existe ou se
o meu coração a vai construindo
para usar como cenário dos meus sonhos.
No café onde nos encontrámos pela primeira
vez
numa mesa confusa onde todos atropelavam
as palavras
e o criado passava com cervejas, não te vi
no primeiro momento, nesse
instante em que um fulgor indelével
iniciava a conquista de minha vida
para dela fazer um lindo fresco,
um caso onde a intriga roçou
sem deixar marca.

Egito Gonçalves

Em Sines…
Junho 16, 2006

“escuto o lamento das águas e os passos rápidos das crianças pelas dunas
os ventos varrem, os ventos ainda uivam em todas as frestas do Bairro das Índias
Índias de fome, Índias de noite gelada…

procuro no fundo das algibeiras bonecos da bola, e as cobras nos valados do Rio da Moura
o sumo fresco das amoras e o cheiro fresco do sabão…a memória envolve-me nos lençóis que secam estendidos ao sol(…)

em mim nada secou
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar…e no coração persistente das plantas”

Al Berto

Pedro Pires – Grama
Junho 15, 2006

Não é bonito trocar
O sexo, seja ao que for,
Pois isso até pode dar
Desgostos ao ofensor…

Assim, grama, de pesar
Diz logo que não tem tino
Quem como fêmea o tratar,
Pois ele é bem masculino…

Mas a grama, erva daninha
Que prejudica a campina
Fica toda contentinha
Por a verem feminina

Pese tantos gramas disto
Ou daquilo. Veja bem:
O grama, peso, está visto,
De fêmea é que nada tem!…

Pedro Pires, ORTOGRAFIA

Eugénio de Andrade – “(…) É urgente o amor, é urgente permanecer.”
Junho 13, 2006

OS TRABALHOS DA MÃO

Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.

L

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
te pergunatrem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

DESPERTAR

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

“Sem aquillo”… Ainda não há…
Junho 12, 2006

“(…) sem aquillo a que hoje se chama grammatica não há clareza de linguagem, e sem aquillo a que hoje se chama syntaxe não há coordenação de pensamento.”

In carta de Eça para Mariano Pina, 08/04/1888

Sophia – Desejo
Junho 11, 2006

“Pudesse eu não ter laços nem limites…”

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).