Archive for Agosto, 2006

Sebastião da Gama – O Poeta
Agosto 30, 2006

O Poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade… E diz assim: «É preciso saber olhar…». E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos… E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás… E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ave…… E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso… E acha que tudo é importante… E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim… E reparou que os homens estavam tristes… E escreveu uns versos que começam desta maneira: «O segredo é amar…».

Sebastião da Gama

Sebastião da Gama – Nosso?
Agosto 30, 2006

Nosso?

Nosso é o Mar. Nosso e renosso.
Pela dor, pela teimosia, pela esperança.
Nosso até onde a vista o não alcança.
Nosso até onde é nosso o que for nosso.
(…)
Sebastião da Gama

Maria Assunção Vilhena – Mocinha do Monte / Senhora da Vila
Agosto 24, 2006

” Quando eu era mocinha, morava a menos de dois quilómetros da vila, lugar que já era considerado o monte. A vila, de que eu tanto ouvia falar, era, para mim, qualquer coisa de misterioso, de inacessível, de distante… (…)

Era o ano de 1929. Já tinha feito três anos, quando, no dia 8 de Janeiro, fui baptizada com todos os meus irmãos, na Igreja Matriz, a que chamavam Igreja do Castelo, pelo Pe. Manuel Inácio da Cruz, segundo rezam os documentos. (…)

Um pouco mais tarde, lembro-me de ir à feira do Monte, o maior acontecimento na vila (…)

A escola feminina funcionava no edifício das antiga Câmara Municipal, onde ainda se vêem as iniciais C. M. e a data 1862 (…)

Recordo com saudade a minha professora primária, como então se dizia, e parece-me ainda vê-la vir de casa, passar em frente da Sociedde Harmonia (…)

Nunca tive pena de ser moça do monte. Bem ao contrário: era com prazer que participava ou assistia às actividades campestres. A Natureza para mim não tinha segredos, porque a realidade se me apresentava em toda a sua simplicidade e pureza. (…)

Os dias destinados pelos habitantes da vila para irem passear ao monte, além do domingo, eram o dia de Maio e a quinta-feira da Ascensão ou quinta-feira da espiga. (…)

No monte onde vivíamos, era costume fazerem mastros, alguns de promessa, pelos santos populares (…)

Naquele tempo, havia ainda poucos automóveis e as crianças podiam brincar na rua sem perigo de atropelamentos (…)

Passados muitos anos sobre as vivências que acabei de escrever para não esquecer, lembrei-me de ir dar um passeio pelo monte para rever os recantos onde, mocinha, passei momentos inesquecíveis (…)

A minha vila, hoje cidade, tem crescido em quase todos os sentidos, mas conservou a maior parte dos recantos da minha infância (…)

Santiago do Cacém, 17 de Fevereiro de 1997″

M. Assunção Vilhena, autora dos excertos de GENTE DO MONTE, nasceu, cresceu e leccionou francês em Santiago de Cacém, localidade que hoje se despediu dela com saudade.

Sophia – Um dia puro
Agosto 24, 2006

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999.

Eugénio de Andrade – Trabalho da Língua
Agosto 23, 2006

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Irene Lisboa – Escrever
Agosto 23, 2006

Se eu pudesse havia de…
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
cada palavra seca, irressoante!
Sem música, com um gesto,
uma pancada brusca e (…).
Para quê,
mas para quê todo o artifício
cada composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não…ou sim.
E, como isto, continuando…
E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava…
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traísse…
fino e sem cor…medroso…
“ infinitamente delicadas coisas do espirito…
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos…
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente…
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

Irene Lisboa

Jorge de Sena – Biografia Breve
Agosto 21, 2006

Jorge de Sena

1919 – no 2 de Novembro, nasce Jorge Cândido de Sena em Lisboa.

1932 – Inicia estudos no Liceu Camões, após transição do Colégio Vasco da Gama.

1936 – Termina os estudos liceais e entra para a Faculdade de Ciências de Lisboa, a fim de efectuar os estudos preparatórios de ingresso na Escola Naval. Inicia-se na poesia.

1937 – Redige o primeiro conto de Génesis: “Paraíso Perdido”. Ingressa na Escola Naval. Integra o navio-escola Sagres, como cadete, e viaja pela África, Brasil e Canárias.

1938 – É demitido da Marinha de Guerra. Escreve o segundo conto do Génesis: “Caim”. Conhece José Blanc de Portugal na Faculdade de Ciências.

1939 – Estreia-se literariamente com a publicação do poema Nevoeiro no quinzenário universitário Movimento, n.º 1 de 13 de Março; no n.º 2, surge o primeiro texto de crítica: Em prol da poesia chamada moderna, com o pseudónimo Teles de Abreu.

(continua)

Espera
Agosto 21, 2006

Canções ecoam mansas pelos vales
e sobem as montanhas docemente
e delas adormece o solo quente
e eu sobre ele sonho a cor dos males…

Tudo está em mim à espera que tu fales…
Por essa terra fora, terra quente
só aos ecos respondem docemente
os sons cruéis que eu quero que tu cales!…

A tua voz não vem com a dos ecos…
ao pé de mim só estalam ramos secos…
e de ti nada chega aos meus ouvidos

E em mim vou sempre esperando a tua voz…
Será somente o meu pensar em nós?
Ou tocar-me-á em todos os sentidos?…

11/9/38
19/11/39
Jorge de Sena

Jorge de Sena – Carta para a Mécia
Agosto 21, 2006

“Lx, 19/3/49

Minha muito querida Mécia

Escrever-me-ás, como eu agora te escrevo; mas o que dizemos já não tem nem precisa de resposta. Sem ti, sabes como fico, como não sei viver, mesmo para as mínimas coisas, que todas vêm de ti, são por ti ou para ti. Saudades, sinto-as outra vez, e não são já iguais às que sentia dantes: tu me falas, és uma parte de mim, que sempre o foi mas não como agora. Muitos beijos, muitos, demorados e longos do teu
Jorge”

Nota: Esta carta foi escrita por Jorge de Sena na véspera do seu casamento com Maria Mécia Lopes.

“Quanta Flor”
Agosto 20, 2006

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobe não cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos
Em redor do teu vulto é como um vão!
Quem as esparze “ quanta flor!“ do céu,
Sobre nós dois, sobre os nosso cabelos?

Camilo Pessanha