Miguel Torga – No Gerês em Agosto – I

“Gerês, Pedra Bela, 20 de Agosto de 1942

PÁTRIA

Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
qualquer coisa profunda e dolorida,
traída,
Feita de terra
E alma.

Uma paz de falção na sua altura
A medir as fronteiras:
-Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras…

Gerês, 7 de Agosto de 1944

EMBALO

Sono ao cantar das águas, ópio leve
A quem se empresta à vida…
Brando Deus que nos compra e que nos deve
À nossa Deusa mãe adormecida.
(…)
Um pesadelo só de vez em quando:
E se o Deus adormece?
Mas o Deus acordado vai cantando
A música imortal que nos merece…

Gerês, 28 de Julho de 1945 – Thomas Mann Os Buddenbrook. Um romance, mas sobretudo uma cultura.(…) este homem tem artes de nos meter num tal emaranhado de ideias, de conceitos, de cogitações, que a vida passa a ter não apenas o seu caudal de lances e de emoções, mas uma beleza maior, feita da fisiologia íntima do saber.(…)

Gerês, 17 de Agosto de 1948 – Leitura maciça de alemães. Goethe, Schiller, Eichendorff, George… Mas estes diabos dão-me sempre a estranha impressão de que estão a fazer exercícios de aplicação literária numa alta academia. São geniais, e tudo, claro. Mas iguais e monótonos do princípio ao fim. Falta-lhes a originalidade inglesa ou a finura francesa (…)

Gerês, 8 de Agosto de 1949

PEQUENA PRECE

Vem, humilde canção,
Que humildemente espero.
Vem ao meu coração,
Onde te quero
E onde sei que te posso receber.
Vem, pequena ilusão
De viver.

Gerês, 9 de Agosto de 1950 – Quanto mais percorro o país, mais me convenço de que ainda são os poetas que melhor sabem exprimir a nossa realidade telúrica e humana. Os mais belos quadros que possuímos da vida portuguesa, surpreendida nos seus vários aspectos, são trechos de poesia. Meia dúzia de cantigas de amigo, pedaços do Cancioneiro Geral, composições de Camões, Diogo Bernardes, Cesário, António Nobre e Junqueiro são documentos que deixam a perder de vista os poucos prosadores que tentaram a pintura de costumes.(…)

Gerês, 3 de Agosto de 1952

ACORDE FLORESTAL

Ouço-vos por instinto,
Sussurrantes pinhais!
Não entendo as palavras, mas pressinto
Que são poemas que me recitais…

Poemas simples, de raiz agreste,
Ondulada e discreta melodia
Que ressuscita e veste
O cadáver de cada penedia. ”

In Diário

Miguel Torga

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