Miguel Torga – No Gerês em Agosto – II

“Gerês, 1 de Agosto de 1953

NIRVANA

Paz das montanhas, meu alívio certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo, sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu desnecessário.

Gerês, 12 de Agosto de 1955 – Serra. Sempre que me encontro aqui, quando chega este dia, perco-me pelas fragas. Vou fazer anos à Calcedónia, ao Cabril ou à Borrajeira – aos picos mais altos da montanha.(…)

Nota: Miguel Torga nasceu a 12 de Agosto de 1907.

Gerês, 27 de Agosto de 1958

PRENÚNCIO

Na tarde calma, ondula
A invisível ramagem dum poema.
Uma secreta brisa,
Que apenas se adivinha,
Percorre o mundo íntimo das coisas
E acorda em sobressalto
As folhas do silêncio.
Falta ainda o poeta…
Mas a evidência
Da sua voz
É como a luz do sol quando amanhece:
De tão branca, parece
Que descora a ilusão da madrugada…
Antes ele não viesse,
E em cada solidão se mantivesse
Esta bruma de música sonhada.

Gerês. 12 de Agosto de 1962 – O acaso não podia ter-me posto diante dos olhos, neste dia natalício, espelho mais límpido e revelador do que um festivo mastro ensebado onde o rapazito gastou horas a fio o entusiasmo e os fundilhos das calças, na mira de chegar ao cimo e deitar mão à prenda almejada. Há cinquenta e cinco anos que faço o mesmo no trono escorregadio da vida, só eu sei com que tenacidade e que insucesso.

Gerês, 11 de Agosto de 1963 – Sim, conseguem-se às vezes uns momentos de paz no seio destes panoramas privilegiados do mundo.(…)

Gerês, 12 de Agosto de 1965

DESGARRADA

Na sina que me foi lida,
Este dia é sempre assim:
Sol na paisagem da vida,
E sombra dentro de mim.

Gerês, 6 de Agosto de 1966 – A felicidade dos suficientes!
– Eu nunca falhei!
E só lhe pude responder alanceado, como num gemido:
– Pois eu falhei sempre.

Gerês, 2 de Agosto de 1968

REFLEXÃO

Sim, olhar a paisagem…
Olhá-la como um bicho
Ou como um lago.
Olhá-la neste vago
Sentimento
De pasmo e transparência.
Olhá-la na de ciência
Original,
Com olhos de inocência
E de cristal. ”

Miguel Torga

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