Maria Assunção Vilhena – Mocinha do Monte / Senhora da Vila

” Quando eu era mocinha, morava a menos de dois quilómetros da vila, lugar que já era considerado o monte. A vila, de que eu tanto ouvia falar, era, para mim, qualquer coisa de misterioso, de inacessível, de distante… (…)

Era o ano de 1929. Já tinha feito três anos, quando, no dia 8 de Janeiro, fui baptizada com todos os meus irmãos, na Igreja Matriz, a que chamavam Igreja do Castelo, pelo Pe. Manuel Inácio da Cruz, segundo rezam os documentos. (…)

Um pouco mais tarde, lembro-me de ir à feira do Monte, o maior acontecimento na vila (…)

A escola feminina funcionava no edifício das antiga Câmara Municipal, onde ainda se vêem as iniciais C. M. e a data 1862 (…)

Recordo com saudade a minha professora primária, como então se dizia, e parece-me ainda vê-la vir de casa, passar em frente da Sociedde Harmonia (…)

Nunca tive pena de ser moça do monte. Bem ao contrário: era com prazer que participava ou assistia às actividades campestres. A Natureza para mim não tinha segredos, porque a realidade se me apresentava em toda a sua simplicidade e pureza. (…)

Os dias destinados pelos habitantes da vila para irem passear ao monte, além do domingo, eram o dia de Maio e a quinta-feira da Ascensão ou quinta-feira da espiga. (…)

No monte onde vivíamos, era costume fazerem mastros, alguns de promessa, pelos santos populares (…)

Naquele tempo, havia ainda poucos automóveis e as crianças podiam brincar na rua sem perigo de atropelamentos (…)

Passados muitos anos sobre as vivências que acabei de escrever para não esquecer, lembrei-me de ir dar um passeio pelo monte para rever os recantos onde, mocinha, passei momentos inesquecíveis (…)

A minha vila, hoje cidade, tem crescido em quase todos os sentidos, mas conservou a maior parte dos recantos da minha infância (…)

Santiago do Cacém, 17 de Fevereiro de 1997″

M. Assunção Vilhena, autora dos excertos de GENTE DO MONTE, nasceu, cresceu e leccionou francês em Santiago de Cacém, localidade que hoje se despediu dela com saudade.

Anúncios

2 Respostas

  1. Tenho uma obsessão por biografias. Será grave?

    Não, amiga! Trata-se de uma simples “biografite”, uma insaciável e crónica inflamação literária pelo ser humano.

  2. Não, amiga! Trata-se de uma simples “biografite”, uma insaciável e crónica inflamação literária pelo ser humano

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: