Archive for Outubro, 2006

Menotti del Picchia – O Voo
Outubro 25, 2006

Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se as nossas estradas,
tempo e vento desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que o teu mistério seja uma noite,
enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que o teu voo te leva
sempre para mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Canta! Canta para conservar a ilusão de festa
e de vitória!
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde qeu nasceste
não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu? Que importa a rota?
Voa e canta enquanto resistirem as asas.

Menotti del Picchia
(poeta brasileiro)

Falar e Escrever
Outubro 7, 2006

Reflectir sobre a sabedoria popular:

Falar sem se cuidar é atirar sem apontar.

Escreva com entusiasmo, mas releia calmo.

As Flores de Sebastião
Outubro 7, 2006

” Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda a hora a poesia nos visita.”

Vamos visitar Sebastião numa aula e ver como ele toca nas suas flores?

Maio, 20

Gente muito fina. Eu tenho por eles, além de amor, admiração. Tenho pena de não poder ter mais convivência individual com eles – trazer um para minha casa, estar cada dia com um deles, a falar, a ouvi-lo falar, a vê-lo por dentro. Que rapazes estupendos! Que sorte grande me caiu nas mãos!

Hoej vai haver um exercício. Falei com o Aragão dois dias antes – foi comigo até à Avenida. Este Aragão é do melhor que eu conheço – inteligente e distinto; está ali alguém de quem eu direi mais tarde: – “É meu aluno” – (Eu não tenho ex-alunos). Ora tendo eu dito que gosto de ver, nos exercicios, variedade de soluções, o Aragão a certa altura propõe: – “E o Senhor também aprende connosco, não é verdade? Nós mostramos-lhe coisas que o Senhor não via ou não via assim!” É isso mesmo, Aragão. E bem hajas por teres percebido que entre ensinar e o aprender há tão pouca diferença que os dois conceitos se exprimem em francês pela mesma palavra.

Um exercício de Português é sempre para mim um caso de cosnciência: é preciso que possa haver para cada questão, uma solução diferente (ou pessoalíssima, pelo menos); que o exercício lhes interesse; que o exercicio esteja dentro das suas possiblidades(…).

O exercício de hoje foi assim:

I
a) Abre o livro na “Nau Catrineta” e lê-a de ponta a ponta com olhos de ler;

b) 1) Que coisas “de pasmar” encontraste nesse romance?
2) Qual é, na tua opinião, o seu momento mais emocionante?

c) Procura e copia para o teu exercício os versos que te pareçam contar alguma coisa sobre o carácter do capitão; se quiseres, tomarás esses mesmos versos como ponto de partida para uma redacção chamada “O capitão da NAu Catrineta” (ou como te apeteça):

d) Supõe por minutos que és professor e que estás a contar aos teus alunos, tintim por tintim, o que é o romance popular. Claro que há muitos professores que não gostam de romance. Lá têm as suas razões e as dizem – como tu as terás e as dirás, se porventura, também não gostas.

II

a) Que querem dizer as palavras:

Enxergas
Alvíssaras
Gajeiro?

b) Que verso achas melhor:

Este:
“Que a não puderam comer”

Ou este:
“Que a não puderam tragar?”

Porquê?

De um modo geral os rapazes responderam como era de esperar: com inteligência e personalidade. Deram claramente a entender que não foi por brincadeira que eu meti numa alínea: “Abre o livro na “Nau Catrineta” e lê-a de ponta a ponta com olhos de ler.”

Esta, afinal, é que era a única tarefa; ler de ponta a ponta a com olhos de ler.

O Augusto continua a não precisar de fazer exercícios sobre o romance: (consta um poema: A NEVE NO ALGARVE)

Do Miguéis para a Irene
Outubro 7, 2006

Minha querida Amiga. Você adivinhou tudo, ou quasi tudo. Minha querida Amiga, quem me diria que eu havia de vir a Bruxelas buscar uma certeza definitiva?
Com efeito, há muitos anos que, apesar da amizade e da ternura que sempre brotaram de mim, e da comoção fácil perante uma desgraça ou uma alegria – há muitos anos, dizia eu, que julgava morto o meu coração.

Interrogava-me muitas vezes, ansioso e apavorado, creia.Não há nada pior do que sentirmos-nos incapazes de amar profundamente alguém ou alguma coisa. Amar de amor. O desejo é diferente. E o capricho também.

O amor, que é uma forma crónica e doentia do desejo, acompanha-se duma exacerbação do instinto do “par”. É uma coisa cruel. Sente-se o mundo de repente deserto; só nós e ela. Tudo o mais é nulo. Se beijarmos a boca doutra mulher, por muito bela que seja (…), não nos fica senão amargura. Chegamos a não “desejar” de desejo a mulher que amamos. É um salto no infinito. E quando, muito perto dela, o desejo nos assalta, é a emoção mais forte e mais profunda. É uma queimadura no coração. Qualquer coisa de inegualável. Para o sentir o homem sacrifica tudo.

Minha Amiga, eu ando há semanas terrível, doentiamente apaixoando. Ou tiro disto toda a razão de ser dos meus actos futuros, ou ficarei para sempre vazio. Isto fica absolutamente entre nós. Eu ainda não escrevi uma palavra a tal respeito. Faço-o a si, porque a estimo excepcionalmente.

Trata-se de uma judia russa, de 21 anos. Ser extraordinário! O mais souple, o mais arguto e obstinado que possa imaginar. Duma espiritualidade profunda e de nenhum modo romântica. Duma ternura alucinante pelas coisas e os seres, duma exaltação interior e primitiva. A sua voz é lenta e ondulosa.

Tudo nela é onduloso – o olhar, que sai duns olhos azuis enormes, profundos -, o sorriso, os movimentos. Não é bela, é formosa. E a sua lentidão, uma impressão indefinível de fraqueza (que exalta o meu instinto protector de macho) cai sobre nós como uma rede de aço. É Omfale. Só um defeito: não me tem amor. Pior: tem por mim uma simpatia rara – é a minha companheira de todos os ócios, e estudamos o meu caso, juntos, como se se tratasse de outrem.

Creia minha amiga, que a existência se tornou numa tortura constante para mim. Onde irei parar, não sei. Esta mulher faria de mim alguém – ou um pulha. Felizmente,é boa, honesta, emotiva e generosa. Uma desgraça! Se ao menos fosse má, eu tinha pretexto para a abandonar!

Adeus, querida Amiga; desculpe tudo isto ao seu dedicado amigo e admirador.

Rodrigues Miguéis

P.S: Como vê, trata-se dum romance vivo. Mas comecei a escrevê-lo sob uma forma fantasiosa. Eu lhe escreverei brevemente. Adeus

6 Jan.º 1940

Nota: No envelope desta carta para Irene Lisboa, Miguéis escreveu: ” A vida não é só literatura”.