Archive for Janeiro, 2007

Edmundo de Bettencourt – Biografia Breve
Janeiro 27, 2007

Madeirense, nascido no dia 7 de Agosto de 1899, descendente de um rei – Jean de Bettencourt -, poeta e uma voz famosa do fado de Coimbra, um dos fundadores da revista Presença.

Aos 9 anos iniciou-se como poeta e diria a este propósito:
” A necessidade de exprimir alguma coisa tirava-me o sono e não sofria com isso, antes desejava continuar acordado. Previa que algo estava para acontecer. Pela manhã passava ao papel um soneto inteirinho.”

“(…) para mim então menino, até essa data autor de quadras, conseguir um soneto era uma coisa transcendente. Senti-me plenamente feliz como talvez não tornasse a sentir-me em toda a minha vida. Foi esse, sem dúvida, o caso mais espantoso da minha vida profissional… de poeta.”

Inscreveu-se em Direito em Lisboa em 1919 e transferiu-se para Coimbra em 1922, tendo-se instalado na República do Funchal, onde “(…) Limitaram-se a impor-me uma serenata no dia seguinte à minha entrada para a República (…) Depois das férias conheci então Artur Paredes a cujo grupo pertenciam entre outros Roseiro Boavida e Aires de Abreu e de que passei a fazer parte. Veio depois a gravação para a Columbia.”

10 de Março de 1927 – publicação do primeiro número da revista Presença cujo nome foi sugerido por Edmundo de Bettencourt a Branquinho da Fonseca e José Régio.

Em Maio de 1930, a Presença edita o primeiro livro de Edmundo de Bettencourt O Momento e a Legenda.

Em Junho do mesmo ano, Edmundo de Bettencourt, Branquinho da Fonseca e Miguel Torga desligam-se da Presença.

Publicações posteriores:
– Poema Consagração – revista lisboeta Momento, 1934;

Balada dos Lobos e a Virgem – revista Momento, 1936;

– conclusão dos Poemas Surdos em 1940;

– opúsculo da entrevista a João Brito da Cãmara, Modernismo em Portugal, 1944;

A Força do Olhar – revista coimbrã Vértice, 1947;

Ar Livre – revista Búzio do Funchal, 1960;

TertúliaDiário Ilustrado, 1961;

Poemas de Edmundo de Bettencourt, compilação de toda a sua obra, 1963.

Edmundo de Bettencourt morre no dia 1 de Fevereiro em Lisboa onde se fixara em 1931.

Em 1981 a Assírio e Alvim edita Poemas Surdos
e em 1999 reedita a obra do poeta no centenário do seu nascimento com prefácio de Helberto Helder aumentado.
A Valentim de Carvalho edita um CD de fados.

Sophia – Mulheres à Beira-Mar
Janeiro 26, 2007

Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longa-
mente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de
ser tão verde.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Homenagem a Vergílio Ferreira – Agradecimento aos “Caros Amigos”
Janeiro 25, 2007

A Universidade de Évora homenageou Vergílio Ferreira no dia do seu octogésimo aniversário, em 25 de Janeiro de 1996, e publicou um pequeno livro à “memória de uma tarde feliz.”

O escritor não compareceu, contudo acentuou a sua presença com um texto que foi lido, por sua indicação, pelo Pró-Reitor da Universidade, Dr. José Alberto Gomes Machado, seu ex-aluno e amigo há mais de vinte anos.

Prolongo esta homenagem no tempo, decorridos precisamente onze anos, transcrevendo excertos do citado documento, ao memso tempo que (re)agradeço a oferta do livro ao meu filho, que também pisou os claustros da Universidade:

” Caros amigos:

Gostaria de agradecer-vos de viva voz o terdes vindo aqui para este encontro de amizade. Mas o homem põe e o destino impõe. E no entanto, possivelmente, é esta a melhor forma de nos encontrarmos.

(…) o nosso melhor real não é talvez aquele que hoje somos, mas aquele que fomos outrora (…). Assim o nosso encontro preferível ou mesmo o mais verdadeiro é o que o imaginário de nós guarda na sua eternidade. Porque ainda que eu tivesse vindo, era aí decerto que por fim nos reconheceríamos. (…)

Permiti-me assim que dispensemos esse esforço de nos retornarmos ao que fomos e nos imaginarmos aí sem o esforço de o conseguir. Falo de mim e de vós, mas podia falar apenas da cidade. Porque mesmo essa, quando a ela volto, envelheceu imenso na realidade imóvel de ser. (…)

De longe vos saúdo assim, a vós e à cidade, com a emoção de quem relembra o que fomos outrora numa outra realidade mais verdadeira, e que é o irreal em que nos vemos. Assim, de certo modo, vós e eu estamos mutuamente mais presentes na nossa evocação que não muda, do que se presente fôssemos neste encontro que em breve se dissipará.

E se eu tivesse vindo (…) , vós e eu não emendaríamos a memória pela nova realidade de nós, mas voltaríamos a ver-nos como outrora nos conhecemos, regressados à memória do que outrora em nós fiocu. E é aí portanto que vos saúdo, na imagem que de mim tendes e a que eu tenho de vós.

O abraço que aí nos dêmos não se desatará tão cedo como aquele aquele que vos daria se tivesse vindo até vós. Aí vos digo obrigado. E para sempre – Janeiro 96 – Vergílio Ferreira.”

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992, professor, licenciado em Filologia Clássica.

Eugénio de Andrade – Cristalizações
Janeiro 25, 2007

1.
Com palavras amo.

2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.

3.
Despe-te
como o orvalho da manhã.

4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.

5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?

6.
Estou de passagem:
Amo o efémero.

7.
Onde espero morrer
Será manhã ainda?

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Do Eça para a Maria
Janeiro 24, 2007

Santa Cruz, 4.6.1898

Minha pequena e querida Maria

Umas palavrinhas para te dar um bom-dia de Santa Cruz e para te pedir que dês muitos beijos aos teus irmãos. Esta terra é muito linda, e creio que muito te agradaria, bem como a Zezé. A casa porém é muito velha. E depois não tem jardim. O Luís manda-te beijos.
Mil beijos do teu papá

Florbela Espanca – Auto-Retrato
Janeiro 22, 2007

“Aos oito anos já fazia versos, já tinha insónias e já as coisas da vida me davam vontade de chorar. Tive sempre esta mesma sensibilidade doentia, esta profunda e dolorosa sensibilidade que um nada martiriza, esta mesma ternura apaixonada pelos bichos inocentes e simples. Ficava horas debruçada sobre um formigueiro, dizia coisas ternas aos sapos e às aranhas, e era eu quem criava os pardais e as andorinhas caídas dos ninhos que o meu irmão, solícito, me levava para que eu lhes servisse de mãe. Quando matava as moscas para alimentar as andorinhas, já o triste problema da injustiça da sorte me atormentava. Porquê sacrificar as moscas em benefício das aves? Não compreendia: se ambas tinham asas!…”

“Tive os melhores professores de tudo na capital do Alentejo (que se são melhores não são bons), de bordados, de pintura, de música, de canto, e afinal sou uma eterna curiosa de livros e alfarrábios. e mais nada.

” (…) uma corajosa rapariga, sempre sincera consigo mesma. (…) Honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, recta sem princípios, e sempre viva, exaltantemente viva, a palpitar de seiva quente como as flores selvagens da tua bárbara charneca”

O Mundo quer-me mal porque ninguém tem asas como eu tenho!

Florbela Espanca

Eugénio de Andrade – No Alentejo, com as cegonhas
Janeiro 21, 2007

Há quem goste do Alentejo pelo ensopado de borrego, os brancos da Vidigueira, os tintos de Borba ou de Redondo.

Outros gostarão dele pelo cromeleque dos Almendres, o Templo de Diana, o Convento da Conceição, onde a quase lendária Mariana Alcoforado teria (…) escrito as mais exasperadas e comoventes cartas de amor (…).

Outros ainda virão ao Alentejo pelos cavalos de Alter, os girassóis em flor dos arredores de Beja, as garças brancas dos campos de
Montemor, o ulmeiro único de Portalegre (…). Mas também se poderia descer ao Alentejo pela áspera melancolia dos corais de Vila Nova de São Bento, ou somente pelas gloriosas oliveiras de Serpa (…).

São boas razões para amar o Alentejo, mas as minhas são outras.

Os meus primeiros contactos com o Alentejo são antigos. À roda dos meus vinte e poucos anos calcorreei muito os seus caminhos, desde Niza a Mértola, desde Sines a Monsaraz, naturalmente com olhos muito mais deslumbrados do que são hoje os meus, umas vezes com o etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira, outras tendo por companhia quem se confiava à minha juventude, que então era muito transbordante. Com o Ernesto e o Benjamim, num velho Dois Cavalos, a que chamava Rouquinho pelos frequentes ataques de rouquidão do seu motor (…)

E uma tarde chegámso a Beja com um calor que rachava as pedras e uma luz espessa e branca quase sufocante. Entrámos na pensão para um duche e um gaspacho e (…) corremos ao Convento da Conceição (…), pois trazíamos na cabelça a convulsiva beleza das cartas de Mariana (…).

Depois deste primeiro encontro, o mundo deu muita volta.
Com a freira de Beja tive de lidar de perto, pois um amigo pediu-me para traduzir as Lettres Portugaises. (…)

Voltei a Beja para o lançamento de uma das edições das Cartas (…). Fizemos então leituras no Convento e na Biblioteca, ceámos n´Os Infantes, percorremos as ruas empinadas da Mouraria, sentámo-nos na Praça da loggia florentina (…), deixámo-nos envolver, como se fora um linho fresco, pela serenidade da igrela de Santa Maria..

Só faltava descobrir o Convento de S. Francisco, transformado com inteligência e bom gosto em pousada. (…), onde me sinto como andorinha ou cegonha que regressa ao sítio onde fez ninho (…).

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Miguel Torga – O Alentejo
Janeiro 20, 2007

“Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento.

(…) E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo.

(…) o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito e a realidade dum solo exausto.”

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

António Gedeão – Choro
Janeiro 19, 2007

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é o meu.

António Gedeão

Jorge de Sena- Dedicatória à Sophia e ao Francisco
Janeiro 18, 2007

“Peregrinatio ad loca infecta” – Portugália, Lisboa, 1969

Para a Sophia e o Francisco, na sua “peregrinação” por um Portugal livre, esta “peregrinação” com a maior amizade do Jorge
Madison, Outubro 1969