Homenagem a Vergílio Ferreira – Agradecimento aos “Caros Amigos”

A Universidade de Évora homenageou Vergílio Ferreira no dia do seu octogésimo aniversário, em 25 de Janeiro de 1996, e publicou um pequeno livro à “memória de uma tarde feliz.”

O escritor não compareceu, contudo acentuou a sua presença com um texto que foi lido, por sua indicação, pelo Pró-Reitor da Universidade, Dr. José Alberto Gomes Machado, seu ex-aluno e amigo há mais de vinte anos.

Prolongo esta homenagem no tempo, decorridos precisamente onze anos, transcrevendo excertos do citado documento, ao memso tempo que (re)agradeço a oferta do livro ao meu filho, que também pisou os claustros da Universidade:

” Caros amigos:

Gostaria de agradecer-vos de viva voz o terdes vindo aqui para este encontro de amizade. Mas o homem põe e o destino impõe. E no entanto, possivelmente, é esta a melhor forma de nos encontrarmos.

(…) o nosso melhor real não é talvez aquele que hoje somos, mas aquele que fomos outrora (…). Assim o nosso encontro preferível ou mesmo o mais verdadeiro é o que o imaginário de nós guarda na sua eternidade. Porque ainda que eu tivesse vindo, era aí decerto que por fim nos reconheceríamos. (…)

Permiti-me assim que dispensemos esse esforço de nos retornarmos ao que fomos e nos imaginarmos aí sem o esforço de o conseguir. Falo de mim e de vós, mas podia falar apenas da cidade. Porque mesmo essa, quando a ela volto, envelheceu imenso na realidade imóvel de ser. (…)

De longe vos saúdo assim, a vós e à cidade, com a emoção de quem relembra o que fomos outrora numa outra realidade mais verdadeira, e que é o irreal em que nos vemos. Assim, de certo modo, vós e eu estamos mutuamente mais presentes na nossa evocação que não muda, do que se presente fôssemos neste encontro que em breve se dissipará.

E se eu tivesse vindo (…) , vós e eu não emendaríamos a memória pela nova realidade de nós, mas voltaríamos a ver-nos como outrora nos conhecemos, regressados à memória do que outrora em nós fiocu. E é aí portanto que vos saúdo, na imagem que de mim tendes e a que eu tenho de vós.

O abraço que aí nos dêmos não se desatará tão cedo como aquele aquele que vos daria se tivesse vindo até vós. Aí vos digo obrigado. E para sempre – Janeiro 96 – Vergílio Ferreira.”

 

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992, professor, licenciado em Filologia Clássica.

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