Archive for Fevereiro, 2007

Frederico Lourenço – Auto-Retrato (continuação)
Fevereiro 28, 2007

” Foi só quando entrei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa como caloiro no ano lectivo de 1984-1985 que passei a gostar, definitivamente, de ir à escola. E o processo ficou mesmo “definitivo”, dada a minha profissão (e vocação) de professor.
(…)
Devo dizer que a coisa que mais me impressionou na Faculdade quando lá entrei como aluno foi…a variedade caleidoscópica de pronúncia na articulação da língua portuguesa.
(…)
Na Faculdade, atirei-me de alma e coração ao estudo (…). Tomei conscientemente a opção, desde o primeiro dia de aulas, de ser o melhor aluno nas cadeiras relativas à área helénica (…). Em nenhuma delas tive classificação inferior a 18; em muitas delas tive 19 (…). Todos os fins-de-semana, todos os dias de férias eram passados a estudar (…)”
(continua)

Frederico Lourenço – Auto-Retrato
Fevereiro 27, 2007

Frederico Lourenço, professor universitário (FLUL), ensaísta e romancista, tradutor da Odisseia e da Ilíada de Homero para português, autor de: Pode um desejo imenso; O curso das estrelas e A Formosa Pintura do Mundo pinta-nos o seu retrato num ambiente musical com uma janela aberta sobre a cultura grega.

” Fui concebido em Luanda (…), vim nascer a Lisboa a 8 de Maio de 1963 (…) e com dois anos já estava a viver em Oxford (…).

A minha infância inglesa foi, por um lado, triste e traumática, mas, por outro, propiciadora de tudo o que eu viria a ser no futuro (graças ao facto de me ter permitido ser bilingue: ainda hoje penso e rezo em inglês).

(…) sou muito moreno e, em todo o lado (até na Grécia!), estou sempre a ser abordado por pessoas que me perguntam se serei natural do Paquistão. Não que isso tenha para mim, hoje, qualquer estigma negativo: a masculinidade paquistanesa parece-me ser de elevado apuro estético. Mas, ter sido todos os dias da minha infância insultado na escola por ser “paquistanês” e ser diariamente alvo das crueldades requintadas de que só os rapazes britânicos são capazes lançou uma sombra tétrica sobre a minha infância, que prefiro hoje esquecer”.
(continua)

Dificuldades da Língua Portuguesa – Espoletar e Despoletar
Fevereiro 23, 2007

Os vocábulos espoletar e despoletar transitaram da linguagem militar para a comum.

Espoletar significa “pôr espoleta em”, isto é, “armar”.
Metaforicamente espoletar adquiriu o sentido de “desencadear, motivar, provocar, etc.”.

Ex.: A notícia do encerramento da fábrica espoletou pânico nos trabalhadores.Dificuldades Despoletar é formado pelo verbo espoletar e pelo prefixo des-, que indica ideia contrária, pelo que significa “desarmar, terminar, pôr fim a”.

Ex.: Alguns falantes da língua portuguesa decidiram despoletar – pôr fim a – o emprego desta palavra quando quiserem dizer desencadear.

Eugénio de Andrade – Canção
Fevereiro 20, 2007

Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.
Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma são gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Dificuldades da Línguas Portuguesa – Valores de G (gê)
Fevereiro 19, 2007

A consoante g tem dois valores:

1. j (jê)

1.1 antes de e ou i.

Ex.: Gema; ferrugem; gesso; tangerina.

Ginástica; girafa; gengiva.

1.2 a seguir às sílabas iniciais le, re, al, excepto: rejeitar e palavras da mesma família.

Ex.: Legenda; regimento; algibeira.

1.3 nos sufixos -agem, -igem e -ugem e seus derivados.

Ex.: Folhagem; fuligem; ferrugem.

1.4 nos verbos em -ger e -gir.

Ex.: Eleger; agir.

2. g (guê)

2.1 para se ler g com e ou i é necessário colocar ugue, gui.

Ex.: Guelra, guitarra.

Alguns exemplos de palavras semelhantes oralmente, mas de grafia e conteúdo diferentes

giba (corcova) —————————– jiba (erva medicinal)

rabugem (impertinência) —————— rabujem (do verbo rabujar)

urge (do verbo urgir) ———————– urje (peixe)

viagem (acto de viajar) ——————— viajem (do verbo viajar)

Miguel Torga – Luta
Fevereiro 16, 2007

“Coimbra, 16 de Fevereiro de 1979 –

Uma semana a lutar dia e noite com um poema. Consegui há pouco, finalmente, dar-lhe o remate. E foi um desconsolo quando o vi já sem precisar do meu esforço.

Coimbra, 16 de Fevereiro de 1985

Não sei como há-de ser. Padeço tormentos para manter esta discrição humana e literária em que sempre vivi. As bocas do mundo necessitam de alimento. É um assédio cada vez mais insistente de todos os lados e por todos os meios. E vou resistindo como posso, a bem ou a mal.
(…)
O que sou quero continuar a sê-lo privadamente; e o que escrevo, quero continuar a dá-lo a conhecer sem alardes. Existencialmente, cada vez me apetece mais o retiro dos anacoretas.
(…)
Quanto aos livros, hoje como ontem, apenas os concebo propiciados ao leitor no pretório das montras. Mais nada. Mas as pessoas compreendem mal isto, e não desarmam. Solicitam, pressionam, invadem. Hoje assim aconteceu. O que batalhei ao bocal do telefone!
(…)
Acabei por deter o intruso ao cabo da linha (…) E fiquei tão aliviado quando o perigo passou que tive a sensação de ser livre pela primeira vez.”

In Diário

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

Ecos de Zeca Afonso na 1.ª Pessoa
Fevereiro 4, 2007

“Estamos sempre a mudar dentro daquilo que somos profundamente.

A verdade é que a minha formação é de origem cristã.

Até ao fim da adolescência, eu ia regularmente à missa, assistia ao santo ofício, confessava-me. Hoje passa-se algo como um regresso às origens, não porque me tenha tornado de novo católico praticante, evidentemente, mas percebo que no fundo tenho uma concepção religiosa do universo.

Vi, um dia destes, O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini, e fiquei perturbado. E estou a ler autores como S. João da Cruz, e S. Francisco de Assis. Há uma espécie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, não o Cristo institucional, o eclesiástico da minha infância, mas o Cristo dos que têm fome e sede de justiça.”
15.6.85

Zeca Afonso (Aveiro, 02/08/1929 – Setúbal, 23/02/1987)
Compositor e cantar, professor, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Zeca Afonso – A Drummond de Andrade
Fevereiro 4, 2007

(com a devida vénia)

Velho Drummond se te tivera
Junto de mim a esta hora
em que o silêncio é uma ordem
e a solidão longa espera
Tu me prestaras teu verbo
ou tua mão estendida
cheia dessa humanidade
que alguma vez pressentira
se alguma vez a entendera
como agora

Lembrar-te Drummond amigo
num território macabro
É como levares contigo
Um filho desnaturado

(escrito na prisão de Caxias)

Zeca Afonso (Aveiro, 02/08/1929 – Setúbal, 23/02/1987)
Compositor e cantar, professor, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Zeca Afonso – Biografia
Fevereiro 4, 2007

1929, 2 de Agosto – Nasce José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos em Aveiro, Largo das Cinco Bicas.

1933 – Viaja no paquete “Mouzinho” em direcção a Angola onde o pai fora colocado como delegado do procurador da República no Bié.

1937 – Parte para Moçambique ao encontro dos pais.

1938 – Completa a instrução primária em Belmonte.
Os pais são presos em Timor e enviados para um campo de concentração, na sequência da invasão dos japoneses, e Zeca Afonso deixa de ter notícias da família durante três anos.

1940 – Frequenta o Liceu D. João III em Coimbra onde vive na casa de uma tia.
É conhecido por “Turcopês”, porque transformava nas aulas de educação musical: ”Portugueses não temem revezes” por “Turcopezes não metem verrezes”.
Interessa-se por cantigas e começa a jogar futebol.
Conhece o guitarrista António Portugal.

1949 – Ingressa no curso de Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Coimbra.
Integra o Orfeão Académico e da Tuna da Universidade de Coimbra.
Torna-se um dos criadores do grupo coral do Colégio de Órfãos, que daria origem ao Coro da faculdade de Letras.
É conhecido como intérprete de fados e baladas.
Casa-se, tem dificuldades financeiras, faz a revisão do “Diário de Coimbra” e tem dois filhos, os quais, após o divórcio dos pais, vão viver para África com os avós.

1943-55 – Destaca-se pela sua “distracção” e dificuldade em dar ordens durante o cumprimento do serviço militar no COM da Escola de Oficiais Milicianos de Infantaria de Mafra.

1956 – Dá a sua primeira aula de História de capa e batina num colégio particular de Mangualde.
Ao longo da sua carreira de professor do ensino secundário dará aulas em: Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e novamente em Faro.

1958 – Grava o primeiro disco – Baladas de Coimbra.
Em Lagos, acompanha o movimento das eleições presenciais em que o general Humberto Delgado é concorrente.
Em Faro, constitui um grupo de amigos da natureza e da poesia – Luísa Neto Jorge, António Barahona da Fonseca, Manuel Pité, Jo´se Louro e António Bronze.

A “ Balada de Outono”, que gravará pouco depois, marca a revolução musical.

1960 – Agitação no meio estudantil coimbrão, após a eleição de uma lista da esquerda académica.
“Os Vampiros” de Zeca Afonso e outras baladas marcam presença.

1961 – Conhece Zélia em casa de Luísa Neto Jorge e António Barahona da Fonseca, em Faro, com que virá a casar-se, de quem terá dois filhos, e a quem dedicará a canção: “ Maria, nascida no monte , à beira da estrada”.

1963 – Conclui o curso superior, que interrompera, com uma tese sobre Sartre.

1964 – Viaja para Moçambique como professor de Liceu, na tentativa de aproximar-se dos filhos mais velhos, acompanhado por Zélia.
Envolve-se em actividades políticas junto dos seus alunos, dos quartéis do exército colonial e do Centro Associativo de Lourenço Marques.
Colabora com o Teatro de Amadores da Beira.

1967 – Regressa a Portugal, na sequência de problemas com a administração colonial e fixa-se na zona de Setúbal como professor de Liceu.
É vítima de um esgotamento cerebral e internado durante um mês e posteriormente é expulso do ensino.
Vive com dificuldades, de explicações e dos discos que grava com regularidade.
Edição do 1.º LP, “ Baladas e Canções”

É publicada a 1.ª edição do livro: “Cantares de José Afonso” – 2.ª no ano seguinte – com notas do próprio e duas quadras de “Grândola”.

1968 – Grava o segundo álbum: “Cantares de Andarilho” e o single “ Menina dos Olhos Tristes”.

1969 – Participa no primeiro encontro da “La Chanson Portugaise de Combat” na Mutualité, Paris e na campanha para a eleição de deputados à Assembleia Nacional pela Comissão Democrática Eleitoral de Setúbal.
Grava o LP “ Contos Velhos, Novos Rumos”
É-lhe atribuído o Prémio da Casa de Imprensa pelo melhor disco.

1970 – Grava: “Traz Outro Amigo Também” – textos de apresentação de Bernardo Santareno.
Edição do livro: “Cantar de Novo” com uma introdução às Canções de José Afonso por António Cabral.
É-lhe atribuído o Prémio da Casa de Imprensa pelo melhor disco.

1971 – Actua no Festival de Vilar de Mouros.
Grava em França, Herouville, de 11 de Outubro a 4 de Novembro, o álbum “Cantigas de Maio”.
É-lhe atribuído o Prémio da Casa de Imprensa pelo melhor disco.

1972 – Desloca-se ao Rio de Janeiro , na sequência de uma votação popular promovida pelo “Diário de Lisboa”, a fim de apresentar a canção: ”A Morte Saiu à Rua”, em homenagem ao escultor comunista José Dias Coelho, assassinado pela PIDE.
É publicado o livro: “José Afonso” pela Livraria Paisagem, Porto, apresentado e coordenado por José Viale Moutinho.
Sai o álbum “Eu vou ser como a Toupeira”.

1973 – Participa no III Congresso da Oposição Democrática em Aveiro cantando, entre outros: “O que faz falta”.
´E preso em Caxias.
O álbum “Venham Mais Cinco” é gravado em Paris, no final do ano, com a colaboração de José Mário Branco.

1974, 29 de Março – Participa no Encontro da Canção Portuguesa no Coliseu – a PIDE e a censura só permitem que cante: “Milho Verde” e “Grândola Vila Morena”.
25 de Abril – encontra-se escondido em casa de uns amigos.
Grava em Londres, no final do ano, ”Coro dos Tribunais”.

1976 – Grava o álbum: “Com as Minhas Tamanquinhas”.
É-lhe atribuído o prémio Internacional de Folclore pela Deutscher Phono Akademie da RFA.

1978 – O disco “Cantigas de Maio” é considerado o melhor de sempre.
José Afonso é o responsável pela música de “Zé do Telhado”.

1979 – Participa no Festival da Canção em Bruxelas.

1980 – Publica um pequeno volume de quadras populares e na RFA sai ”Eh! Zeca Afonso! – canções e textos de Portugal”.

1981 – Actua em Paris, dá dois concertos no Auditório Carlos Alberto no Porto e canta no II Encontro Mundial da Juventude Trabalhadora da CISL, Sevilha.

1982 – Moçambique recebe-o e Samora Machel acolhe-o como a um Chefe de Estado.
Surgem os sintomas da doença e procura resposta para a sua situação em vários países.

1983 – É reintegrado no ensino oficial.
Últimos espectáculos em Lisboa e no Porto.
Edição dos álbuns: “José Afonso ao vivo no Coliseu” e “Como se fora seu filho”.

1984 – Costa Pinheiro e Júlio Pomar prestam homenagem a José Afonso com duas serigrafias originais.

1985, 28 de Janeiro – Homenagem a José Afonso no Thêatre de La Ville.
Dezembro, último disco: “Galinhas do Mato”

1986 – Quase não abandona o seu domicílio.

1987, 23 de Fevereiro José Afonso morre no Hospital de Setúbal.

Maria Teresa Horta – Existem Pedras
Fevereiro 2, 2007

Existem pedras nos olhos
mas não as tragas
contigo

Meu amor
e meu amigo

Existem pedras nas mãos
mas não as uses
comigo

Meu amor
e meu amigo

Existem pedras sedentas
de amor e muito perigo
Não queiras que elas inventem
motivo do meu castigo

Maria Teresa Horta