Miguel Torga – Luta

“Coimbra, 16 de Fevereiro de 1979 –

Uma semana a lutar dia e noite com um poema. Consegui há pouco, finalmente, dar-lhe o remate. E foi um desconsolo quando o vi já sem precisar do meu esforço.

Coimbra, 16 de Fevereiro de 1985

Não sei como há-de ser. Padeço tormentos para manter esta discrição humana e literária em que sempre vivi. As bocas do mundo necessitam de alimento. É um assédio cada vez mais insistente de todos os lados e por todos os meios. E vou resistindo como posso, a bem ou a mal.
(…)
O que sou quero continuar a sê-lo privadamente; e o que escrevo, quero continuar a dá-lo a conhecer sem alardes. Existencialmente, cada vez me apetece mais o retiro dos anacoretas.
(…)
Quanto aos livros, hoje como ontem, apenas os concebo propiciados ao leitor no pretório das montras. Mais nada. Mas as pessoas compreendem mal isto, e não desarmam. Solicitam, pressionam, invadem. Hoje assim aconteceu. O que batalhei ao bocal do telefone!
(…)
Acabei por deter o intruso ao cabo da linha (…) E fiquei tão aliviado quando o perigo passou que tive a sensação de ser livre pela primeira vez.”

In Diário

Miguel Torga

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