Archive for Março, 2007

Dificuldades da Língua Portuguesa – Palavras de Grafia Dupla – “Ele” Há Febras!
Março 25, 2007

 

– “Atão compadri”, já “vossemecei ” viu ali aquela febra?!…

– Bela fevra, sim “senhori”! Até um tipo se baba!

-Ó pai! A “mãei” “´tá” a “chamari” a ” genti” “pó” almoço! É fêveras, “bora”!
Mas “primêro” tenho “d´iri” “comprari” “sali”, porque acabou-se e “mãei” diz que as batatas “´tão” “ensonsas”!

Ensossas ou insossas! E são fêveras! “Filho da “mãei” do moço”, que “nã” “aprendi”!

Na língua portuguesa existem palavras que admitem duas formas (nalguns casos, três) no registo gráfico.

Nas frases anteriores, temos dois exemplos:

1. febra, fevra, fêvera;

2. ensosso, insosso, sem o sal preciso; insípido – “ensonso” só existe na boca de alguns onde falta uma pitada de sal do bom “sabor” português.

Há muitas mais, algumas que sobejamente conhecemos, tais como:

cobarde/covarde;

bêbedo/bêbado;

ouro/oiro, etc.

Do Pessoa…
Março 25, 2007

… para a Carmencita, porque, segundo ela: ” O Fernando Pessoa é o homem da minha vida” – o teu marido sabe deste teu devaneio?

Desideratum

Quem me dera que a minha vida fosse
um carro de bois
que vem a chiar, de manhãzinha cedo,
pela estrada,
e que para de onde veio volta depois
quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças,
tinha apenas que ter rodas…
A minha velhice não teria rugas
nem cabelo branco…

Quando eu já não servisse,
tiravam-me as rodas
e eu ficava virado e partido
no fundo do barranco.

Fernando Pessoa

Dificuldades da Língua Portuguesa – Sinonímia e Polissemia – “— Mia”?
Março 23, 2007

 

– Sobre que “—mia” falavam a Cristina e o André? Não percebi!

– O gato da D. Foufou que mia toda a noite? Não me parece, porque eles não perdem tempo com essas conversas!

– O Mia moçambicano, que cronica, conta, romanceia, canta os ditos do avô Celestino e encanta quem o lê, ouve e vê?!… Talvez!

– Estariam a trocar impressões sobre os -mia que andam associdos aos significantes e aos significados? Deixa-me cá pensar…

Sinonímia – vários significantes para um mesmo significado, quer dizer, vocábulos materialmente diferentes, mas com sentidos equivalentes.

Polissemia – um significante possui vários significados, quer dizer, atribuição de vários sentidos a um mesmo vocábulo.

– E se era sobre alguém que tem algum problema de: alcoolemia, leucemia, glicemia, septicemia, etc.?
Sim, porque eles sabem que estas palavras e outras em que entra o sufixo tónico -ia (do grego ia, acentuado no i), o acento recai na penúltima sílaba, são, portanto graves – vamos pronunciar mia?

– Hummm, vou dormir, que já é dia!

Cartas do Pai Eça
Março 19, 2007

“Biarritz, 24.2.1900

Querida e pequena Maria

Fiquei muito contente com a tua querida carta. Estás pois curada e eis que voltas a ser Maria a leitora. Não te canses muito ainda.
Achas bonitas as mulheres bascas? Abraço e beijos do teu papá. J.”

“Lisboa, 23.3.1899

Querido Zezé

Apenas uma palavrinha hoje, para beijar-te e dizer-te que a tua cartinha me deu muito prazer. Estuda bem, comporta-te bem.
Ainda estás de férias? E a bicicleta? Grande beijo do teu papá J.”

Dificuldades da Língua Portuguesa – Fazer com que ou Fazer que?
Março 11, 2007

O uso de fazer com que é corrente, contudo esta construção gramatical está errada.

O verbo fazer é transitivo – não contém uma ideia completa -, portanto necessita de um complemento directo – quem faz, faz alguma coisa.

O complemento directo de um verbo transitivo é sempre um substantivo ou uma expressão substantiva – um pronome, um infinitivo verbal, uma oração integrante.

Exs.: Ontem a avó fez folares.

O Diogo faz sorrir a Ana.

O acidente na avenida fez que eu me atrasasse.

Se considerarmos outros exemplos de verbos transitivos, compreenderemos melhor o emprego errado de com a seguir ao verbo.

Ex.: Queria (com) que os meus amigos viessem provar uma receita nova, por isso pedi-lhes (com) que não faltassem ao almoço; espero (com) que venham!

Ruy Belo – A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO
Março 11, 2007

O senhor deus é espectador desse homem
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha finitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio

Ruy Belo

Frederico Lourenço na Minha Memória
Março 10, 2007

Roma, 23 de Maio de 2006

Passeio pelo Forum Romano e pelo Palatino na companhia de uma amiga.

Quebrei o silêncio da contemplação referindo que era impossível estar ali sem me lembrar das aulas de Cultura Clássica, sobretudo do Prof. Frederico Lourenço, um jovem esbelto, distinto e sábio, meu examinador na prova oral da cadeira em 26 de Julho de 1991, com quem deveria ser maravilhoso ter uma aula naquele local!

Frederico Lourenço – Auto-Retrato (continuação)
Março 10, 2007

“ O meu pai sempre me incentivou bastante para a área de letras clássicas, e a poesia de Sophia de Mello Breyner sobre a Grécia despertou-me uma grande paixão por essa cultura”.

“Tenho fé e a religião é muito importante na minha vida, mas não vou à missa”.

“Claro que também gosto de estar com pessoas, adoro a minha família, a minha irmã e os meus sobrinhos, mas preciso muito da minha solidão”.

“ Na faculdade, conheço quase toda a gente, professores e funcionários. Tenho uma vida muito familiar e passo lá bastante tempo (…)”. A faculdade acaba por ser a minha segunda casa. Às vezes, tenho a sensação que se tivesse um saco cama, passava a ser a primeira”.

Frederico Lourenço – Auto-Retrato (continuação)
Março 1, 2007

“(…) eu era pianista desde criança. (…) A minha adolescência passada ao teclado era a preparação (pensava eu) para a vida que eu ambicionava de pianista internacional. As coisas não tiveram o desfecho que eu previra, mas percebo hoje que todas aquelas horas ao piano não foram perdidas, pois preparam-me para aquilo por que serei lembrado depois de morrer, para o contributo que, afinal, veio dar sentido à minha vida: a tradução da Ilíada e da Odisseia de Homero.
(…)
Curiosamente, o meu percurso como helenista começou por me afastar de Homero, o poeta que conhecia melhor quando cheguei à Faculdade (…). À medida que ia conhecendo melhor a biblioteca do Instituto Clássico André de Resende, ia ficando mais fascinado pela antiguidade grega tardia: os epigramatistas da Antologia Palatina eram os meus poetas preferidos (…) Depois descobri os poetas alexandrinos do século III a.C.: Calímaco (o T. S. Eliot grego), Teócrito e Apolónio de Redes.
Já licenciado, o primeiro poeta sobre o qual me debrucei a sério foi Aristófanes.
(…)
De Aristófanes, foi um curto salto para Eurípides; e, acabada a tese de doutoramento, senti que se abrira em mim o espaço mental necessário para voltar a Homero, à Odisseia, na certeza de que nunca (mas nunca) faria a Ilíada… Mas, tal como o piano, a tradução acabou por se tornar viciante. Ou então é da cadeira, que entretanto pude comprar, que é demasiado confortável. Pelo menos assim o testemunha a minha nova empresa, que é de pôr em português o maior poeta lírico da antiguidade clássica: Píndaro.”
(continua)