Archive for Abril, 2007

Cecília Meireles – Ai, Palavras!
Abril 29, 2007

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…

Cecília Meireles

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Eugénio de Andrade – Palavras
Abril 29, 2007

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio,
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Maria de Lourdes Belchior – Silêncio
Abril 29, 2007

A vida que não se troca por palavras
tão íntima, tão discreta, tão secreta
(tão em contradição com o dia a dia)
faço o mal que não quero e não faço o bem que desejo:
ensejo de verificar o barro de que somos feitos.
Mas afinal nesta animal aflito
interdito por às vezes trocar as voltas do caminho
Do efémero, do frágil e do passageiro pendente,
neste animal aflito, o grito
de apelo, anseio de infinito, com palavras
se exprime. Ou será no silêncio, inteiro,
que há-de guardar-se, verdadeira, a vida que se não
troca por palavras?

BELCHIOR, Maria de Lourdes, Gramática do Mundo

Manuel Bandeira – Neologismo
Abril 29, 2007

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento Palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar
Intransitivo:
Teadoro. Teadora.

Manuel Bandeira

José Gomes Ferreira – Um Jogo
Abril 29, 2007

(…)
No fim de contas as palavras não serviam apenas para meter na ordem gaiatos descompostos, insultar as vizinhas linguareiras da cave ou adormecer com canções os miúdos.
Tratava-se sem dúvida dum jogo (o que há de mais sério para as crianças), mas dum jogo que também agradava às pessoas crescidas.

José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras

Florbela Espança – Viva Gago Coutinho! Viva Sacadura Cabral!
Abril 29, 2007

20 de Abril de 1922

” Portugal está vivendo uma das suas horas mais belas.

Estou ouvindo as salvas em Lisboa e parece que tudo rebenta dentro do meu coração. Tenho chorado, eu que nunca choro.

É uma coisa extraordinária o que aqueles dois homens estão fazendo, e em Lisboa anda tudo maluco; não se descreve a ansiedade com que dia e noite se esperam notícias; até eu ando maluca, e poucas coisas já me comoveram nesta vida.

A marinha de guerra anda inchadíssima e com razão, caramba! Venham depressa gritar com toda a gente: Viva Gago Coutinho! Viva Sacadura Cabral”!

Florbela Espanca

Nota: Em 20 de Março de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral tinham efectuado a travessia aérea do Atlântico Sul, pela primeira vez.

Ternuras do Papá
Abril 29, 2007

Lisboa, 18.4.1898

Minha querida Maria

Uma palavrinha para te mandar um grande beijo. A tua carta encantou-me. Todos pedem notícias tuas. Digo a todos que és uma encantadora menina muito querida. Teu papá

Paris, Agosto de 1898 (?)

Meu querido Zezé

Rosa voltada em direcção da janela do teu quarto chama-te para um passeio de bicicleta.

E eu mando-te um beijo.
J.

Eça de Queiroz

L…
Abril 25, 2007

L de letras
– das letras simples
com que escrevo estes versos claros.
L de livros
– desses companheiros
em que a vida se disfarça de silêncio
e a vida não amarelece com as páginas.
L de lilás
– essa flor breve
com um cheiro azul de paz.
L de um anseio
de que está o mundo cheio;
L de um grito
que nos há-de rebentar o peito
e encher toda a cidade:
este L
alto e direito
da Liberdade.

José Carlos de Vasconcelos

Cintilações do Zeca
Abril 25, 2007

” – Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Seremos alguém”

Coimbra, 25 de Abril de 1974
Abril 25, 2007

” Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas e poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada…”