Archive for Junho, 2007

Dificuldades da Língua Portuguesa – “Palavrões” e Correções, Conjugações: O Presente do Indicativo e o Pretérito Perfeito
Junho 26, 2007

Apresento algumas expressões que ferem os ouvidos de uns e “ensinam” outros:

– “teria-se”, em vez de ter-se-ia;

– “percas”, em vez de perdas;

– “islamistas”, em vez de islamitas;

– “disfrutar”, em vez de desfrutar;

– ” tratam-se” de dois (…), em vez de trata-se de dois (…);

– ” conversamos na semana passada”(…), em vez de conversámos (…)

Acerca do último exemplo, chamo a atenção para a diferença entre:

– o presente do indicativo: conversamos;

o pretérito perfeito: convermos.

Acrescento alguns esclarecimentos sobre os citados tempos verbais, que espero sejam úteis:

a) PRESENTE DO INDICATIVO
O presente expressa :

1. Acto quer acontece no momento em que se falapresente momentâneo.
Ex.: Hoje está frio.

2. Acção ou estado permanentepresente durativo.
Ex.: O mês de Junho tem 30 dias.

3. Acção Habitualpresente habitual.
Ex.: A Joana não bebe e não fuma.

4. Acto futuropresente com valor futurocom advérbio ou expressão de futuro.
Ex.: Amanhã vamos a Lisboa.

b) PRETÉRITO PERFEITO

O pretérito perfeito expressa um acção passada e completamente acabada.
Ex.: Ontem falámos com o director sobre o novo projecto.

Alguns advérbios e expressões de tempo mais usadas com o pretérito perfeito:

– ontem; anteontem;

– há pouco;

– há dias;

– há semanas;

– há um ano;

– há algum tempo;

– há muito tempo;

– no domingo(semana, mês, ano) passado.

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Eugénio de Andrade – Faz, Invoca, Diz…
Junho 26, 2007

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

António José Saraiva – Para o Óscar Lopes
Junho 26, 2007

Lisboa, finais de 1978

Meu Caro
(…)
Bom. Limitando-me agora à nossa Literatura, estou a ver que a tal remodelação em que tínhamos pensado não pode ser ainda realizada na próxima edição. (…)

Eu inclino-me cada vez mais para a conclusão de que a literatura não pertence à “ciências sociais”.
É uma questão de experiência imediata, como comer uma maçã ou “fazer amor”. E o ensino da literatura é levar as pessoas a aprofundar o gosto estético para dentro. Por outras palavras, a obra literária não é um objecto de que se fale, como se fala de correntes migratórias, de padrões sociais, etc., ou mesmo do complexo de Édipo, etc. É como na músisa: só se pode falar dos instrumentos, das técnicas, dos géneros, das biografias, mas o essencial, o miolo, fica na intimidade de cada um e de todos isoladamente ( o que é um paradoxo: todos temos a nossa vida única e incomunicável, que todavia é estritamente individual e não colectiva). ” Conhecimento” tem significados completamente diferentes conforme se trata de ciências físicas ou de experiências estéticas, místicas e outras. O que se poderia dizer didacticamente sobre o conhecimento?
(…)
Um abraço do António José

Pensar com Virgílio Ferreira
Junho 26, 2007

“O amor acrescenta-nos com o que amarmos. O ódio diminui-nos. Se amares o universo, serás do tamanho dele. Mas quanto mais odiares, mais ficas apenas do teu. Porque odeias tanto? Compra uma tabuada. E aprende a fazer contas”.

Dificuldades da Língua Portuguesa – Eliminação de Acentos.
Junho 17, 2007

Os acentos circunflexos e os graves com que se assinalavam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo -mente e com os sufixos iniciados por z foram eliminados da ortografia portuguesa pelo Decreto-Lei n.º 32/73.

Exs.: Trôpego -> tropegamente;
Pé – > pezinho.

“Coisas” do O´Neill
Junho 17, 2007

“Eu andei para marinheiro
mas pus óculos e fiquei em terra.”

“Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?”

” Não ouvi bem o que disseste…”

Alexandre O´Neill

Eugénio de Andrade – Frente a Frente
Junho 17, 2007

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
Contra a carícia da folhagem,
Contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
e é tão pouco.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Sebastião da Gama – O Professor de Português
Junho 17, 2007

“Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem ciosas que eu não sei ou já me esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos”.

Sebastião da Gama
12/01/1948

Miguel Torga – Certeza
Junho 17, 2007

Não:
Nunca saberás quem sou.
Apesar destes beijos que te dou
E destas ironias que te digo,
Vou contigo
Como vou
Ao lado dum inimigo.

Miguel Torga
Coimbra, 6/11/1936

 

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Moçambique – José Craveirinha – Um Céu sem Anjos de África
Junho 17, 2007

À Guilhermina e ao Egídio

Detinha
a menina de cinco anos
tinha pai e tinha mãe
e tinha duas irmãs, Senhor!

Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de retalhos de chita
e fazia duas covinhas de ternura na face
quando sorria, Senhor!

Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de ágeis pernas de pano
olhos brilhantes de cabeças de alfinete
e fulvos cabelos de maçarocas maduras
que a febre derradeira da Detinha
não contaminou.

Olhos cerrados suavemente
boneca Detinha dos seus pais
adormeceu de tétano para sempre
mãozinhas postas sobre o peito
um vestido de renda branca
mais um anjo nosso partiu
no adeus silencioso de boneca
verdadeira num fúnebre berço branco
nossa Detinha tão pura na Munhuana
que até ainda não sabia que era mulata.

Oh! África!
Quantos anjos já nasceram das tuas Munhuanas de amor
e quantas Detinhas partiram para sempre dos teus braços
e quantos filhos inocentes deixaram o teu colo maternal
geraram rios e rios de lágrimas no teu rosto escravizado
e dormiram sem pesadelos na vasta solidão
de um coval mínimo de criança infelizmente
sem as duas covinhas na face
quando sorriam, Senhor?

E ainda não temos um talhão de céu azul para todos
e novamente uma África para amar à nossa imagem
num anjo verdadeiro anjo também cor da nossa pele
e da mesma carne mártir de feitiços estranhos
e o nosso sangue vermelho vermelho quente
como o sangue vermelho de toda a gente.

Para o tal céu onde existe o tal Deus que não sabe
línguas de África línguas de África línguas de África
e só sorriem anjos brancos de asas impossíveis de arminho
precisamente onde esse arminho só pode ser algodão de sofrimento
ainda não há lugar para meninas puras da cor
das meninas filhas e netas de mães e avós pretas
da nossa Detinha que partiu ainda boneca
e tão pura que ainda não sabia que era mulata.

E brinquedos de trapos não se misturam na Munhuana
com bonecas loiras de sapatos e tudo
porque os pais arianos rezando nas catedrais
não deixam, Senhor!

(1960)

José Craveirinha (Lourenço Marques, 28/5/1922 – Maputo, 6/2/2003)
O maior poeta de Moçambique, galardoado com o Prémio Camões em 1991.