Archive for Julho, 2007

Eugénio de Andrade – Breve Poema
Julho 31, 2007

Chove, é o deserto, o lume apagado,
que fazer destas mãos, cúmplices do sol?

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

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Eugénio de Andrade – A Pequena Vaga
Julho 16, 2007

Mar de pequena vaga e céu azul:
a irrupção das frésias na manhã
faz destas ruas um jardim do sul.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Idiomatismos
Julho 10, 2007

Andam por aí umas coisas esquisitas. Querem ver?

– O João anda com a cabeça à roda.

– A Júlia anda com a chefe nas palmas da mão.

– A Maria e a colega andam com a pedra no sapato em relação aos maridos.

– O Rui anda com a pulga atrás da orelha por causa do concurso.

– A tia Joaquina anda com ela fisgada..

– O Jorge anda com os azeites e a mulher com o credo na boca.

– A Raquel anda num corropio.

– O vizinho anda à coca, e a esposa prefre andar à bulha.

E há ainda quem prefira andar:

– à solta;

– atrás de…; com…;

– com a casa às costas;

– de beiço caída;

– de borla;

– de gatas;

– de mal a pior;

– de mão em mão;

– de orelha arrebitada;
– nas bocas do mundo;

– no ar;

– numa fona;

– por…; arames; atalhos;

– sobre brasas…

As expressões populares que empreguei para caracterizar uma pessoa ou um facto chamam-se idiomatismos.

Zibaldone
Julho 10, 2007

Neste país de monólogo,
do fala-só, muitos poucos
conversatam uns co´os outros,
e é sempre uma conversata
triste e chata,
um não-ter-que-dizer que não se esgota
senão e plavras pela boca fora.

(O´Neill, 1984)

António Lobo Antunes – A Feira do Livro
Julho 9, 2007

“A Feira do Livro é estar sentado debaixo de um guarda-sol às listas, a dar autógrafos e a comer os gelados que a minha filha Isabel me vai trazendo de uma barraquinha três editoras adiante, preocupada com as atribuições de um pai sisudo, de repente da idade dela, a escrever dedicatórias, de língua de fora, numa aplicação escolar.

Isto não é uma queixa: gosto das pessoas, gosto que me leiam, gosto sobretudo de conhecer as pessoas que me lêem e me ajudam a sentir que não lanço ao acaso do mar, garrafas com mensagens corsárias que se não sabe onde vão ter, e gosto dos romances que escrevi. Tenho orgulho neles e tenho orgulho em mim por ter sido capaz de os fazer. De modo que ali estou, satisfeito, e timido (….)”

António Lobo Antunes (Lisboa, 1/9/1942)
Romancista e cronista, distinguido com o Prémio Camões em 2007, médico especializado em Psiquiatria.

Conselhos Morais
Julho 9, 2007

(Para viver em paz)

Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada:
tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás;
quanto podes não farás,
quanto sabes não dirás,
quanto vês não julgarás,
quanto ouves não crerás,
se quiseres viver em paz.
Seis coisas sempre vê,
quando falares, te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando.

D. João Manuel (séc. XV)

A. Correia de Oliveira, José-Alberto Marques, José de Almada Negreiros – Livros
Julho 4, 2007

Lê os bons livros. Os livros
Onde mais discreto amigo?
Dizem-me tudo o que sabem,
Não contam o que eu lhes digo!
Lê bem. Se vais à botica,
Levas mel ou rosalgar?
Escolhe: há livros-veneno:
Não te vás envenenar.

A. Correia de Oliveira

 

SEM TÍTULO 1

Abrir um livro
É ler as páginas inteiras
como quem percorre
inteira,
pelas ruas,
uma cidade
e ter a certeza
de que é possível
encontrar a liberdade
Essa coisa com sabor
a laranja apetecida,
que na prática
as regras não são da gramática,
mas da vida.

José-Alberto Marques

NUMA LIVRARIA

Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. (…)

José de Almada Negreiros

Eugénio de Andrade – Andanças de Poeta
Julho 4, 2007

Pelo céu cor de violeta,
que lindo,
que lindo vai o poeta.
Pôs uma camisa branca
e sapatos amarelos
as calças agarradinhas
são da feira de Barcelos.
Pelo céu vai o poeta.
Sobe, sobe de bicicleta.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.