Archive for Agosto, 2007

Eugénio de Andrade – Matinal
Agosto 23, 2007

As estridulações das cigarras e a brisa marinha embalam a madrugada sob a vigília dourada do farol e um céu de estrelas adormecidas.
A respiração suspende-se para beber sofregamente este trago de bom dia.
A voz do poeta ergue-se…
” Podes confiar-me sem receio
as pequenas tarefas matinais.
Deixa ficar as nuvens,
a poeira acesa nos telhados,
os martelos da tristeza sobre a mesa.
O meu país é entre junho e setembro,
antes da primeira neve chama por mim”.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

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Dai-me…
Agosto 6, 2007

Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores,
logo que sejam muitas…
Não, nem sequer muitas flores,
Falai-me apenas

Em me dardes muitas flores
Nem isso…Escutai-me apenas
pacientemente (quando vos peço)
Que me deis flores…
Sejam essas flores que me
deis…
(…)
Álvaro de Campos

Fernando Sylvan – Todos já Vimos…
Agosto 4, 2007

Uma lágrima num rosto infante, faminto e sujo, de olhos tristes, espera a piedade de uma rajada de vento para secá-la…

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadaveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

Fernando Sylvan

Natália Correia – Magia
Agosto 4, 2007

É o teatro: A magia que descobre
O rosto que a cara do homem encobre

Natália Correia

Eugénio de Andrade – Adágio Sostenuto
Agosto 4, 2007

A música outra vez, de vaga
em vaga, colina
em colina;
concertada voz de sete
estrelas, primeira respiração
do mundo, alta
e prometida harmonia;
dói, fere
fundo; também apazigua,
acaricia, ilumina
a terra, tornada
próxima; de colina em colina,
vaga em vaga – a música,
nua, bárbara.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

João de Deus – Dia de Annos
Agosto 4, 2007

Com que então, caiu na asneira
De fazer, na (…) feira,
Vinte e (…) annos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas…fazê-los…não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o anno passado…
Agora, o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo! Coitado!
Não faça tal…porque os annos…
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa, que, em summa,
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho,
Mas…annos…! Não caia nessa!
Olhe…que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los…queira ou não queira!

João de Deus

Sebastião da Gama – Um Canto do Sebastião
Agosto 4, 2007

O Sol já se escondeu…
Precisamente quando,
feliz,
eu desatei a cantar.
(Só por feliz eu cantei.)

Agora quero acabar,
que já me dó a garganta,
mas
vou ainda cantando,
temendo
dar por mim de novo triste
assim que esteja calado.
(… Como se a minha Alegria
nascesse de eu ter cantado.)

Sebastião da Gama

Eu, António Ramos Rosa
Agosto 4, 2007

Com a minha língua
crio novos mundos a partir do nada
e vivo no nada sem me aniquilar nele

Não sujeito a vida
deixo-a vir com o seu dom de vida
e transformo-a em pássaros e janelas
que sobrevoam as cabeleiras das mulheres
abraçando as suas ancas redondas numa
fábula verde

Tenho dois rostos
quando digo sim digo não
e o meu não cruel vibra um sim radioso
à mulher quando banhas o teu corpo
e o lavas com as tuas mãos
não é outro corpo que tu sentes no teu?

Eu sou a tua interrogação
eu sou a tua respiração
e a cor da tua respiração

Eu saboreio-te poro a poro
tacteio-te e no teu corpo toco uma melodia
nua

Eu sou um ser errante não sei fixar-me em
nada
sou um criador volúvel
propago as minhas ondas e raízes
e amo quase sem necessidade de amar

Porque amo como o vento e com as raízes
do vento
e com as raízes da água

Tudo o que em mim entra
transforma-se numa exalação de pétalas
em flores de água
em espaços e páginas
em navios errantes

Casimiro de Brito – Aos Meus Amigos
Agosto 4, 2007

Aos Meus Verdadeiros Amigos
A mão do amigo dentro da mão
ilumina
o caos.

Casimiro de Brito

As Melhores Graças
Agosto 4, 2007

Toda a tua vida passas,
Margarida,
Tão tola, tão presumida,
Agarrada a um espelho velho!
E afinal as melhores graças
Não as tens: Simplicidade,
Modéstia, Naturalidade…
-Que isso não se aprende ao espelho…

Virgílio Couto