Archive for Janeiro, 2008

As Crianças
Janeiro 20, 2008

Grande é a poesia, a bondade e as danças. Mas o melhor do mundo são as crianças.”

Fernando Pessoa

Dificuldades da Língua Portuguesa – Benvindas ou Bem-Vindas?
Janeiro 20, 2008

– Estive a bisbolhetar os livros da escola do meu irmão e sabes o que eu li?

– Não, mas quero que me contes qual foi o resultado dessa má-educação. Podes começar.

– Então lá vai: ” Serão, pois, benvindas (…)”. Benvindas só uma palavra, imagina!

– Mas a professosa Linguesa tinha-nos ensinado que quando se tratava de uma saudação empregava-se o hífen bem-vindas! Eu lembro-me muito bem daquela aula!

– E eu também! Só não percebo como é que o meu irmão que escreve tão bem…

– Nem eu, mas ele deve andar a pensar muito nas gémeas, as Benvindas, a Benvinda Maria e a Benvinda Mariana!…

Eugénio de Andrade – Língua
Janeiro 20, 2008

Língua;
língua da fala;
língua recebida lábio
a lábio; beijo
ou sílaba;
clara, leve, limpa;
língua
da água, da terra, da cal;
materna casa da alegria
e da mágoa;
dança do sol e do sal;
língua em que escrevo;
ou antes: falo.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Trocadilho do Aquilino
Janeiro 20, 2008

“Convencer o mestre-de-obras é, de facto, um bico-de-obra.”

Aquilino Ribeiro

José de Oliveira Cosme – As Lições do Tonecas – Notações Sintácticas
Janeiro 20, 2008

“(…)
Professor – Silêncio!… Ora hoje vamos tratar das notações sintácticas, isto é, dos sinais que servem para auxiliar a leitura e a compreensão de escrita. (…)
Temos, em primeiro lugar, o ponto. O menino sabe para que serve o ponto?

Tonecas – Sei, sim senhor: é para dizer baixinho aos actores aquilo que eles tinham a obrigação de saber de cor!

Professor – Isso é no teatro. Estamos a tratar de Gramática. Ora preste atenção O ponto serve para indicar o fim duma frase perfeita, com inflexão de voz que denota pausa absoluta. Por exemplo: O menino é burro. Ponto.

Tonecas – Perdão, perdão!… Eu sou burro? Vírgula!…

Professor – Então, se quer que tenha vírgula, obriga-me a prosseguir: … é burro, teimoso e cábula! (…)
A seguir, temos o ponto e vírgula; depois, os dois pontos. Logo depois, o ponto de interrogação…(…)
Ora depois do ponto de interrogação, temos o ponto de…

Tonecas – O ponto de… de…

Professor – (…) O ponto de admiração!

Tonecas – Ahhhhhhhhhhhhl

Professor – Ora aí está! Ponto de admiração ou exclamação! Logo a seguir, temos os pontos de…

Tonecas – O quê? Mais pontos?… O senhores! Isto não é uma aula, é uma oficina de alfaiate!

Professor – Caluda, menino! Eu vou exemplificar, para ver se consigo que responda, com jeito, ao menos a uma pergunta. Suponhamos que o seu pai lhe oferece uma bicicleta.

Tonecas – Isso é que era bom! Mas tomara ele dinheiro para mandar pôr meias-solas nestes sapatos…

Professor – Com isso não tenho absolutamente nada! Trata-se apenas dum exemplo. Admitamos, portanto, que o seu pai lhe oferece uma bicicleta. Mas como conhece o seu feitio leviano e precipitado, faz-lhe a seguinte recomendação:

– Aqui tens esta bicicleta. Anda nela com cuidado, porque se caíres…

E não lhe diz mais nada! Portanto, substituiu o resto da frase por pontos… Se caíres… Que pontos tem aqui o menino?

Tonecas – Já sei. Se cair… tenho pontos naturais!…

Professor – Não, menino! Tem pontos de reticência!

Tonecas – Ah, é verdade! E isso, é! …

Professor – E, mas não disse! Os pontos de reticência são uma das notações sin¬tácticas mais interessantes. Empregam-se muito vulgarmente na cita¬ção de provérbios. Ora experimente completar os que eu vou dizer. Verá que é engraçado. Por exemplo: Quem o feio ….

Tonecas – … bonito lhe parece!

Professor – Exactamente! (…) Vê como é interessante?

Tonecas – (Rindo) Muito interessante! Agora digo eu, sim? E o senhor professor completa…

Professor – Pois sim… Já que faz tanto empenho…

Tonecas – Então lá vai: – Quem muito se abaixa… Então? Não completa? Professor – Não conheço esse provérbio, menino!

Tonecas – Pois é fácil! … Quer que eu diga? (…) Quem muito se abaixa, sobe-lhe o sangue à cabeça!… (Ri) Não conhecia?…

Professor– Não. Mas acho-o muito certo! (…)”

José de Oliveira Cosme

Agostinho de Silva na Primeira Pessoa
Janeiro 19, 2008

“ (…) Em consciência, não posso votar num partido. A lista é de um partido, portanto, eu não devo votar, quando não sou de nenhum partido. Mas mesmo em relação aos independents, quando os há, a questão é meramente ilusória, porque eles acabam por se constituir num grupo de alinhados que, na prática, reage como qualquer partido. (…)”

“(…) são dois verbos distintos, o verbo amar e o verbo ter; a posse destrói sempre o amor. (…) Se tem a ver com a posse não é paixão. Bom, mas vamos então à posse: se uma pessoa faz as coisas no mundo “por”, é uma coisa; se as pessoas fazem alguma “para”, é diferente. (…)

“ (…) Eu costumo dizer que Van Gogh se suicidou porque até ao fim da vida não conseguiu que o reconhecessem como pintor. Bom, Deus criou “por”, não “para”. O pintor que pinta para depois vender o quadro, pintou “para”. Quem ama, ama “por”, não há confusão possível com o verbo “ter”. Às vezes, é muito difícil viver bem com o “por”, porque o “para” entra muito em conflito com o “por”. (…)”

“(…) o amor é activo, portanto, criador; a paixão já não, dado que o ser foi dominado por alguma coisa. Quando se diz: estou apaixonado por isto ou por aquilo, no fundo também podemos dizer, se quisermos, estou dominado por isto ou por aquilo. A pessoa que se apaixona por outra tem tendência a obedecer-lhe. (…)”

“(…) às vezes, quando vou visitar amigos que têm crianças, levo bolos ou brinquedos; como é normal, eles atiram-se logo às prendas. Mas vem a mãe e diz assim: “Já agradeceu?” Pronto, aí o poético é imediatamente destruído. Muitas vezes não deixamos as crianças serem o que são. (…)”

“(…) Muitas vezes acontecem contrariedades para as quais é preciso paciência, é por isso que eu digo que “paciência” se devia escrever com “s”, para mostrar como ela é passiva. Creio que, para aturar a vida presente, não é de paciência que precisamos; o que é preciso é acreditarmos no futuro com entusiasmo. (…)”

“(…) Alfabetizar hoje uma pessoa não é apenas mostrar-lhe como se escreve isto ou aquilo. (…) Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo todo poder entrar. (…)”

“(…) Como é que eu posso estar sozinho se no fundo sou um homem que se interessa por tanta coisa que existe no mundo? (…) eu sinto-me sempre acompanhado. Mais que não fosse, pelo menos, tinha o Sol e a chuva. (…)”

Ruy Belo – A Poesia
Janeiro 18, 2008

” A poesia é uma coisa que também se aprende”.

Ruy Belo

Alexandre O´Neill – Imaginar
Janeiro 18, 2008

“Imaginar, primeiro, é ver
Imaginar é conhecer, portanto agir”.

Alexandre O´Neill

Agostinho de Silva na Primeira Pessoa
Janeiro 18, 2008

“(…) acabei por ser reintegrado, mas mais tarde* (…), os grandes “culpados” foram o Roberto Carneiro e o Primeiro-Ministro.

No fundo, o Cavaco também desejava que isso acontecesse. Um dia, ele e o meu Pedro encontraram-se…(…) E então ele perguntou-lhe por mim (…). Porém, antes de se despedirem, o Cavaco saiu-se com esta:

“ – Então, e os gatos dele?”

“(…) Ora, quando ele pergunta pelos gatos, este homem vem demonstrar que até tem uma linha de humanidade que não se deve desprezar. (…)”

“(…) um dia, quando o João de Deus Pinheiro ainda era Ministro da Educação pediu-me que fosse ao Ministério porque queria falar comigo.
Lá fui, e então o João de Deus, entre outras coisas, disse-me:

“ – Olhe, chamei-o aqui para lhe transmitir um recado do Primeiro-Ministro. Ele acha que o senhor merecia, pelas coisas que tem feito pela cultura, um subsídio permanente da Secretaria de Estado da Cultura. Vamos, pois, pensar nisso.”

Então, eu respondi-lhe:

“ – Olhe, Senhor Ministro, eu estou no ICALP, e eles dão-me uma bolsa que, para mim, é o bastante para viver. Claro que o montante desse subsídio permanente, provavelmente até é maior, mas não vale a pena. O dinheiro que recebo, chega, não preciso de mais. Gostava, no entanto, de agradecer ao seu chefe a ideia de se ter lembrado de mim.”

Trataram do encontro e lá fui. (…) ao Cavaco Silva, que arranjou um tempinho e me recebeu, agradeci-lhe (…).”

* Junho de 1992

(continua)

Miguel Torga – Sísifo
Janeiro 18, 2008

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.