Archive for Fevereiro, 2008

Alice Pereira Gomes – Biografia Breve
Fevereiro 19, 2008

Foto: Alice Pereira Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes, com o marido, Adolfo Casais Monteiro em 1934.

Alice Pereira Gomes nasceu no dia 24 de Agosto de 1910 em Granjinha – Tabuaço.

Estudou no Porto.

Foi professora do Ensino Primário naquela cidade e também em Lisboa.

Fundou a Associação Portuguesa para a Educação pela Arte.

Pedagoga, escritora de literatura infantil e tradutora escreveu as seguintes obras:

Douro Encantado

Histórias de Coca-Bichinhos

Giroflé-Giroglá

Bichinho Poeta

História de uma Menina

Vidinha de Cheiro

A Nau Catrineta

A Lenda das Amendoeiras

Os Ratos e o Trovador

Aprender Sorrindo I e II

Barco no Rio

Poesia da Impoesia

Antologias

Antologia Poética de Autores Portugueses e Brasileiros

Poesia para a Infância – organizou e prefaciou.

Tradução

Principezinho de Saint-Exupery.

Faleceu em 1983.

Em Janeiro de 1984, o filho de Alice Pereira Gomes e de Adolfo Casais Monteiro, o Prof. Doutor João Paulo Monteiro, doou o seu vasto espólio à Biblioteca Nacional.

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As Dúvidas do Zé-Concertina – Siniense
Fevereiro 10, 2008

Conversa entre o Zé-Concertina, as  Vogais e Outras Mais…

– Ó mana, já viste o jornal que aquele Sr. de bigode traz na mão?

– Sim, mas o que é que tem? Parece-me um jornal municipal. E a ti?

– Tens razão, mana! Mas repara no título.

– Oh! Eu estou a ver bem? Será das lentes? “Sineense”?!!!… Não acredito!

– Mas não sabem escrever o gentílico da terra?!…

– Desculpem, mas podem explicar-me quem é o gentílico, se faz favor?

– Ó Zé-concertina, não é “quem”; não estamos a falar sobre uma pessoa.

– “`Tá” …

– “´Tá”?!… Outra vez? Já te ensinámos que não existe nenhum verbo “tar” na língua portuguesa! Está, do verbo estar, que podes pronunciar: “istar” ou “star”.

– Está bem! Mas o que é um gentílico?

– Gentílico ou pátrio é a designação do nome que indica a nacionalidade, origem ou lugar de nascimento ou residência de alguém, ou proveniência de alguma coisa.

– E siniense é o gentílico de Sines.

– Exactamente!

– Nós explicamos-te: quando a sílaba da palavra é átona, a vogal dessa sílaba pode evoluir para i, por isso, siniense e açoriano são as formas correctas, particularidade da Língua Portuguesa; quando a sílaba é tónica, mantém-se.

– Está bem! Agora passo a dizer bem os “is” de siniense. Certo?

– Desculpa, Zé-Concertina, mas a pronúncia correcta de siniense é “seniense”, porque, quando o “i” se repete em sílabas consecutivas, só o último (tónico ou átono) se mantém; os outros, por dissimilação, convertem-se em “e” mudo –

– Olhem, hoje não quero aprender mais nada, senão dou cabo da caixa dos pirolitos! Passem bem! Cumprimentos à D. Linguesa! Isto é que é um fado!

Adolfo Casais Monteiro – Três Poemas: Poeta, Aurora, Fado
Fevereiro 10, 2008

POETA

Poeta: uma criança em frente do papel,
Poema: os jogos inocentes,
invenções do menino aborrecido e só
A pena joga com palavras ocas,
Atira-se ao ar a ver se ganha o jogo.
Os dados caem: são o poema: Ganhou.

Adolfo Casais Monteiro, Confusão,1929 – primeiro poema do seu primeiro livro.

AURORA

A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho da cada um, a expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.
Adolfo Casais Monteiro

FADO

Música triste
desenganado
canto nocturno
a pouco e pouco
vai penetrando
meu coração

Nocturna prece
ou pesadelo
não sei que sombra
aquele canto
em mim deixou.

Febre ou cansaço?
Não sei! Nem quero.
lúgubre pranto
de roucas vozes
não tem beleza
– só emoção.

É como um eco
de noites mortas
de vidas gastas
ao deus dará.

Mas eu o recebo
dentro de mim.
Entendo. Choro.
Eu o recebo
Como um irmão.

Adolfo Casais Monteiro
1939

Carta de Sophia para Jorge de Sena
Fevereiro 10, 2008

Paris, Março de 1962

Meu caro Jorge

Estou a escrever-lhe em França, à volta de Itália, onde fui ao Congresso da COMES (Comunidade Europeia de Escritores). São duas da manhã e estou verdadeiramente exausta e por isso esta carta não pode ser tão detalhada como eu queria. Fui para Florença com a Agustina Bessa-Luís que era a delegada portuguesa. Poucos dias antes da minha partida veio a minha casa uma senhora italiana da COMES chamada Lusso. Veio trazida pelo O´Neill. Pediu-lhe versos meus, dei-lhe um Mar Novo ela abriu em duas páginas e declarou que eu não devia escrever poesia tão alheia aos problemas sociais portugueses.

Esta Madame Lusso chegou a Florença um dia depois de mim trazendo consigo o seguinte grupo: Urbano Tavares Rodrigues, Natália Correia, O´Neill, (José) Cardoso Pires, Orlando da Costa (português de Goa) e um escritor de Braga e o A. Quadros. Independentemente do grupo chegou o António Pedro e a Ilse Losa e o marido.

Tratava-se de escolher o novo delegado português para a COMES que devia ser escolhido de entre os presentes.
(…)
Vim de Lisboa pensando que se tratava dum congresso apenas literário. Vim encontrar um congresso politico, praticamente exclusivamente politico, anti-fascista. Como você sabe eu sou anti-fascista, anti-salazarista, anti-ditaduras. E por isso mesmo acho infinitamente estranho que nem o O´Neill nem a Madame Lusso (que é igual a um policia) ou o Cardoso Pires, que estiveram em minha casa nas vésperas da minha partida, me tenham dito do que se tratava. A Agustina B.L., no Porto, pôs o António Pedro ao corrente mas comigo como só falou por carta, num país de correspondência vigiada nada me pode dizer.

O Congresso era anti-fascistas – coisa com que concordo – mas os métodos usados foram fascistas, mal-educados e policiais. Que haverá por trás disto tudo. Todo o ambiente do Congresso foi de nervosismo e de desconfiança e eu sem o Francisco ao meu lado (…). Muita falta me fez ali a sua presença.
(…)

Quanto à atitude politica da Agustina penso poder garantir que ela não é nem salazarista nem fascista. Considera o nosso governo criminoso mas considera também inoportuno afirmá-lo no estrangeiro. Pensa também que o COMES deve defender a liberdade do escritor mas sem espírito partidário.

A minha atitude politica é diferente da da Agustina, como você sabe, mas penso que a atitude dela deve ser respeitada porque acredito na liberdade. Acho que não se deve criar em nome do anti-fascismo um novo fascismo. (…)

No meio de tudo isto vi Florença. Creio que não a podia ter visto melhor: vi-a no clima em que Dante foi perseguido, Savonarola queimado, Miguel Ângelo insultado e amargurado. (…)

Miguel Ângelo domina Florença. Domina-a com a sua profunda amargura e com aquela grandeza quase inacreditável que é a medida verdadeira do homem.
O ambiente da cidade é tal que na noite da minha chegada, desprevenida ainda de tudo quanto ia acontecer, escrevi um longo poema que começa:

Estabelece, a Poesia, a Transparência
(…)
Há muito tempo que não recebo notícias suas. Passaram por Lisboa uns brasileiros que vinham da sua parte mas não tiveram tempo para falar connosco. Peço-lhe a maior prudência quando me escrever. Não sei o que será a minha volta a Portugal. (…) Tenho quase medo de que não me deixem entrar em Portugal. (…)

Peço-lhe que me diga imediatamente e discretamente que recebeu esta carta. Para a Mécia e para si um abraço e mil saudades

Sophia”

Helena Marques – As Mulheres
Fevereiro 10, 2008

“ As mulheres detinham um espaço privilegiado nas histórias de Carlota. E as que mereciam esse espaço acabavam sempre, mais cedo ou mais tarde, por ser qualificadas de insubmissas. As mulheres obedientes, cordatas, respeitadoras da hierarquia masculina e severas transmissoras da inquestionada observação do seu lugar e das suas limitações, não entravam nas memórias de Carlota. (…)

Carlota evocava as insubmissas à luz do que nelas mais a impressionara: a integridade, a fidelidade aos projectos, a capacidade de desafio, o desprezo pelas convenções mesmo quando as convenções eram razoáveis, a recusa em reconhecer a qualquer pessoa – por maior que fosse o preço ou o risco – competência de tutor, de juiz ou de carrasco. (…)”

Helena Marques, O Último Cais, 1992, Prémio Ler/Círculo de Leitores – romance de estreia da autora.

Adolfo Casais Monteiro – Carta para a Mãe
Fevereiro 10, 2008

Araraquara, 3 de Junho de 63

Querida Mãe,
Cá vou vivendo, e economizando, mesmo sem fazer nada para isso (vantagem de viver numa cidadezinha chata …), para ver se no fim do ano sempre vou à Europa. Que posso contar? Nada que valha a pena, pois dar aulas, escrever artigos e conversar com este e aquele não tem nada que sirva para contar! (…)

Viu com certeza nos jornais que o Ribeiro Couto morreu em Paris, quando se preparava para vir de volta para o Brasil; eu tinha-lhe escrito há bem pouco, talvez ele nem tenha chegado a receber a minha carta. Para mim foi um grande choque, como pode calcular. No dia seguinte, falei dele e li poesias dele na minha aula de Teoria da Literatura – e quase desatei a chorar ao ler a “Correspondência de Família”. Espero escrever um artigo sobre ele. E já escrevi sobre o Aquilino. E tinha vontade de escrever sobre o Papa, (1) que talvez a esta hora já tenha morrido, e que merece o respeito e a admiração de toda a gente. Pela primeira vez, na minha vida, está um HOMEM PURO no trono de S. Pedro… Com católicos assim eu entendo-me.
Pois é, a vida aqui continua na mesma. Os Senas continuam muito simpáticos para mim, vou frequentemente a casa deles, e janto lá todos os domingos. Vamos escrever um livro, o Sena e eu, sobre Teoria da Literatura, não há nenhum em português – e até já temos editor antes de o ter começado. (…)

Devo ir este ano a Brasília, fui convidado para fazer um pequeno curso lá, sobre o romance em Portugal. (…)

Bom, por hoje fico por aqui – e lembro-me que está há muito tempo sem me escrever, é uma vergonha! Tem visto o João Paulo? Eu recebi carta dele há dias. Muitos beijos do seu filho muito amigo.

(1) João XXIII

(continua)

Maria de Lourdes Belchior – Poética?
Fevereiro 9, 2008

Luto com as palavras como quem luta
com fantasmas? Vêm e vão, prendo-as
e fixo-as ao papel. Domesticadas
ei-las no entanto carregadas de sentido e de mistério
Uso-as, escolho as mais límpidas e lisas
Para as trespassar de sonho e de verdade
Mas será que só o “fingimento” as colhe e torna
grávidas de poesia? Engravida-se a palavra
de vento, de lamento, de sonho ou de nada?
Fica só a palavra, rude ou branda, pesada,
alada, penetrada do real. Mas que real?
O imaginário a invadir como animal
o quintal da nossa comedida quotidiana vida?

Maria de Lourdes Belchior

Um Pensamento da Florbela
Fevereiro 9, 2008

“Há bocas sorridentes que gritam para dentro d´alma o uivo dos chacais nos matagais desertos.”

Florbela Espanca (1894-1930)

Adolfo Casais Monteiro – Carta para a Esposa, Alice Pereira Gomes
Fevereiro 8, 2008

Lisboa, 7 de Julho de 39

“Meu Amor:

Fiquei, senti-me tão só depois de te ires embora! Ficou tudo tão vazio! Mas é por pouco tempo, paciência.

No próprio dia em que foste, tive uma boa notícia, que para mim é boa por razões materiais e por uma razão que tu só poderias compreender o que o Raul Proença (a) significa para uns tantos moços da minha geração. Mas vamos a factos: comunicou-me o Câmara Reys (b) que o Raul Proença me convidava para colaborar no “Guia de Portugal”, que vai continuar. O “Guia de Portugal” é a mais bela das obras realizadas pelo Proença quando estava na Biblioteca Nacional. E como só ele é pessoa para continuar uma obra que a ditadura interrompeu, o Salazar, por meio e tierces personnes, “deixa” que a Biblioteca continue uma obra, que é para haver um guia de Portugal a quando das festas dos centenários.

Aparte a satisfação de ver o Proença ganhar dinheiro, tenho a de ir trabalhar com a pessoa que depois da morte do Leonardo (c), eu mais respeito dos “mais velhos”.

Não faço a menor ideia do que isso “valha” materialmente – ver-se-á.

Vou agora dar a lição ao meu secretário da Legação, pelo que termino. Dá saudades a essas gentes todas, e pergunta aos rapazes se lhes interessam alguns livros recentemente publicados pela Inquérito.

Almocei hoje com o Brandeiro e respectiva esposa, cuja me pede que te mande saudades.

Amanhã à tarde, como não tenho lição, penso ir com o Fernando Barros à Caparica, para tostar o coirão.

Muitos beijos do teu

Adolfo

(a) Pensador, escritor, grande vulto da República, fundador da “Seara Nova”, que seria o primeiro director da Biblioteca Nacional, que foi demitido pela ditadura salazarista.

(b) Professor e ensaísta que sucedeu a Raul Proença na direcção da “Seara Nova”.

(c) Leonardo Coimbra, filósofo e professor universitário, director da velha Faculdade de Letras do Porto – encerrada durante a ditadura salazarista.

(continua)

Ungulani Ba Ka Khosa – O Imperador
Fevereiro 8, 2008

“Dizem que o imperador, ao desembarcar em Lisboa, ficou estupefacto pelo número elevado de pretos que lhe acenavam.

De entre as várias perguntas que fez, uma ficou memorável:
– Ainda não saímos de Xilunguine?

O mundo deixara de ter fronteiras.”

Ungulani Ba Ka Khosa, Ualalapi