Archive for Abril, 2008

Maria Gabriela Llansol – Se…
Abril 29, 2008

“ Se eu ficasse aqui, indefinidamente a escrever, transformar-me-ia num tecido puído; desfeita quando alguém, ou alguma coisa me tocasse, deixaria apenas poeira com o brilho das palavras e dos seres.”

Maria Gabriela Llansol

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Biblioteca Itinerante
Abril 29, 2008

Biblioteca Itinerante

Era uma carrinha, talvez um carro gigante aos meus olhos de criança, que parava periodicamente no jardim da vila, demasiado alta para as minhas pequenas pernas magricelas e trémulas, na qual penetrava tímida e curiosamente, como se se tratasse de uma gruta desconhecida de paredes esculpidas de tesouros sem fim, que me era permitido tocar, trazer para casa saltitando, saciar a minha sede de saber, imaginar, descobrir mundos e afagar dolorosamente com beijos de até sempre!
Maria

Miguel Torga – Porto
Abril 12, 2008

Porto 2

” Eu gosto do Porto. (…) e amo-o de um amor platónico, avivado de ano a ano à passagem para a minha terra natal, quando o Menino Jesus acena lá das urgueiras.
(…)
De vez em quando perco a cabeça, estrago os horários e vou ao Museu Soares dos Reis ver o Pousão, passo pela igreja de S. Francisco, ou meto-me num electríco e dou a volta ao mundo, a descer à Foz pela Marginal e a subir pela Boavista. (…)

A velha e livre cidade do Porto (…), é muito velha no meu sangue e na minha consciência.
Quanto a mim, é instinto e compreensão, sabe de há muito que os valores autênticos da vida têm de ser sólidos como a praça da Liberdade e altos como a Torre dos Clérigos. (…)”

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

José Régio – Toada de Portalegre
Abril 12, 2008

Toada de Portalegre

Em Portalegre, cidade,
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras
[e sobreiros,

Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela…

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia de ténue, mas viva, obsidiante
[memória

De antigas gentes e traças,
Cheias de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
Quis-lhe bem, como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como ao do meu aconchego.

Em Portalegre, cidade
(…)
Do vento soão queimada.
(Lá vem o vento soão!
Que enche de pavores,
Faz febre, esfarela ossos,
Dói nos peitos desesperados
(…)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão
Uma pequena varanda
Diante duma janela.

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tolhe, gela,
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
De serras, ventos, penhascos, oliveiras
[e sobreiros.

Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!

Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis de distancias,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto
Campos verdes e amarelos,
Salpicados de oliveiras,
E que frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquo geleiras.

Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Eu sentia o chão fugir-me,
– Se abriam diante dela,
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras
[e sobreiros
(…)

José Régio

Florbela Espanca – Évora
Abril 12, 2008

Évora 2

Évora! Ruas ermas sob os céus
cor de violetas roxas… Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora!… O teu olhar… o teu perfil…
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!

… Em cada viela o vulto dum fantasma…
E a minh´alma soturna escuta e pasma…
E sente-se passar menina e moça…

Florbela Espanca

Bocage – Setúbal
Abril 12, 2008

Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado,
Mansa corrente deleitosa, amena,
Em cuja praia o nome de Filena
Mil vezes tenho escrito, e mil beijado;

Nunca mais me verás entre o meu gado
Soprando a namorada e branda avena,
A cujo som descias mais serena,
Mais vagarosa para o mar salgado.

Devo enfim manejara por lei da sorte
Cajados não, mortíferos alfanges
Nos campos do colérico Mavorte;

E talvez entre impávidas falanges
Testemunhas farei da minha morte
Remotas margens, que humedece o Ganges.

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 15/9/1765 – Lisboa, 21/12/1805)
Poeta.

Antero e Torga – Coimbra
Abril 12, 2008

Univ. Coimbra 1

Lindas águas do Mondego
Por cima olivais do monte,
Quando as águas vãos crescidas
Ninguém passa alem da ponte!
Ó rio, rio da vida,
Quem te fora atravessar!
Vais tão cheio de tristezas…
Ninguém te pode passas.
(…)

Antero de Quental

“…Reclinada molemente na verdejante colina, como odalisca em seus aposentos, está a sábia Coimbra, a Lusa Atenas. Beija-lhe os pés, segredando-lhe de amor, o saudoso Mondego.(…)”

Miguel Torga

Eugénio de Andrade e Miguel Torga – Lisboa
Abril 12, 2008

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.

Eugénio de Andrade

“Lisboa é bonita. (…) a cidade medieval de Álvaro Pais e Fernão Lopes, a encabeçar uma revolução social, a renascentista e aventureira de Vasco da Gama e Camões, a descobrir novos mundos e a cantá-los (…); a liberal e romântica de Garrett e de Herculano, a reformar a alma e o corpo. – e a de agora … (…)
Lisboa é essa flor em que o destino nos transformou; o Tejo, o rio onde nos perdemos a contemplar a própria imagem.”

Miguel Torga

Praias
Abril 12, 2008

“A luz afoga-se no silêncio destes lugares desertos. Um mergulhão em voo picado entra numa onda.

Pedra Casca: caminha pelas areias e pensa na cidade que se liquefaz na memória. Passo a passo, estremece com aquilo que desejas. E não desejas mais do que entrar neste mar, como o mergulhão.

Burrinho: uma noite são mil anos. Mil anos são um dia. Respira fundo e pensa: “Sou um aventureiro, quero conhecer todos os países e todos os povos do Mundo”.

Morgavel: dizem que os pássaros e as borboletas são a alma dos mortos. Talvez tenhas chegado à casa que flutua no meio da barragem. Descansa, agora, no agasalho dos teus antepassados.

Oliveirinha: estende o corpo, adormece debaixo da sombra do meu. Sorris, quando te segredo: que a sombra te seja leve.

Samoqueira: caminhamos pelos continentes em direcção à casa imaginada. Espoliados de projectos e de esperança.
(…) É para esse litoral que nos dirigimos.”

Al Berto

Entre o Sono e o Sonho
Abril 9, 2008

Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim
E o quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Fernando Pessoa