Archive for Maio, 2008

Manuel Alegre – Coração Polar
Maio 29, 2008

Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus beijos de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde o sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

Manuel Alegre (1936)

Relatos Simples do Al Berto
Maio 29, 2008

“aqui te faço os relatos simples
dessas embarcações perdidas no eco do tempo
cujos nomes e proveito de mercadorias
ainda hoje transitam de solidão em solidão …”

Al Berto (1948-1997)

António Ramos Rosa – O Brilho das Palavras…
Maio 29, 2008

” O brilho das palavras igual ao brilho do silêncio”

António Ramos Rosa (1924)

Matilde Rosa Araújo – O Mundo é Belo
Maio 29, 2008

– Mãe, o mundo é mau,
Torna a flor lodo
E um pássaro num verme,
E eu não sabia…
– Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo
E saberás!

Matilde Rosa Araújo (1921)

Eugénio de Andrade – Uma Palavra no Escuro
Maio 29, 2008

Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
Do fundo do tempo,
martelava.
Contra o muro.
Uma palavra
No escuro.
Que me chamava.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Saudades e Beijos do António Lobo Antunes
Maio 29, 2008

“2.2.71

Minha jóia adorada
(…)
Meu amor minha vida eu gosto tudo de ti, e amo-te e adoro-te. Não te esqueças de mim. Vai tudo correr bem. Ainda bem que o miúdo aumenta e pontapeia. Muitas saudades para ele, e, para ti, milhões de beijos do teu marido Alves GTS GTS GTS GTS”

António Lobo Antunes (Lisboa, 1/9/1942)
Romancista e cronista, distinguido com o Prémio Camões em 2007, médico especializado em Psiquiatria.

Fiama Hasse Pais Brandão – Amor é…
Maio 29, 2008

AMOR é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só-próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

Fiama Hasse Pais Brandão (1939-2007)

Teixeira de Pascoaes – O Homem é…
Maio 29, 2008

“O HOMEM é um animal apaixonado.

Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente.”

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Ortografia – Formas Correctas
Maio 29, 2008

Algumas grafias correctas

Açoriano

Brócolos / brocos (grafia dupla)

Camoniano

Cabo-verdiano

Catrapus / catrapuz (grafia dupla)

Crânio

Deteriorado

Ensosso / insosso (grafia dupla)

Escrivaninha

Inclusive

Intervindo

Obsessão / obcecar

Percalço

Pirenéus

Pormenor

Quaisquer

Rubrica

Herberto Helder – O Verão …
Maio 26, 2008

” O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva como o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa, completamente
pelas mãos.”

Herberto Helder (1930)