Miguel Torga – O Épico

“Coimbra, 10 de Junho de 1948 – Quatro dias depois do centenário de Gomes Leal – o dia de Camões. Se a coisa fosse só de calendário, dir-se-ia que os poetas estavam de parabéns. Mas não. Gomes Leal foi apenas recordado para ser reivindicado. Quanto ao Épico, ninguém hoje, em consciência, se lembrou dele. Pelo menos em Coimbra, nem a mais pequena homenagem se lhe prestou. (…)

Há, de resto, a respeito de Camões um equívoco lamentável. Contra o que possa parecer, a Pátria nem o sente, nem o ama. Sentir Camões, porquê? Artificialmente, cada nação cria o seu escritor oficial: e artificialmente o impõe com estátuas, praças e feriados. Simplesmente, ninguém se deixa vencer. (…) Camões cristalizou uma época nacional, mas nacional num sentido popular e profundo (…)

(…) A grande obra d´Os Lusíadas, no que tem de nacional, é do século XVI. Por isso, tive sempre certa dificuldade em vê-lo entendido, esticado a toda a nossa duração passada e futura. No que haja nele para isso capaz de servir em todos os tempos e costumes, em boa vontade já não é nacional, mas universal.”

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

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