Archive for Julho, 2008

Casimiro de Brito – O que Dizem os Homens
Julho 27, 2008

“Não te esqueças de mim,
dizem os homens uns aos outros,
afastando-se.”

Casimiro de Brito
(Loulé, 1938)

Padre António Vieira – Vento
Julho 27, 2008

“Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento, que se há-de colher senão vento.”

Padre António Vieira
(Lisboa, 6/2/1608 – Bahia, 18/7/1697)

Alberto de Lacerda – A Felicidade
Julho 27, 2008

” Aos outros levarei a felicidade
Que a mim obscuramente foi negada
Hei-de ficar sem nada”

Alberto de Lacerda
(Ilha de Moçambique, 20/9/1928 – Londres, 26/8/2007)

Agostinho da Silva – Aforismo
Julho 25, 2008

“Conviria talvez distinguir entre os aforismos e não os adorar a todos igualmente nem pensar sobre todos a mesma condenação desdenhosa. O aforismo nem sempre traduz o desprezo da razão ou uma mal entendida liberdade. Há aforismos que são como pequenos capítulos do livro que se quereria escrever, como fotografias tiradas momento a momento dos passos de um homem que marcha direito e firme pela sua estrada; podem ser tão logicamente encadeados entre si, constituir tão seguro edifício como o tratado que se vai completando no vagar e no silêncio. (…)”

Agostinho da Silva
(Porto,13/2/1906 – Lisboa, 3/4/1994)

Antero de Quental – O Essencial
Julho 25, 2008

“O essencial é o mundo interior, porque o outro é em toda a parte para muito pouco.”

Antero de Quental
(Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)

Sebastião, o que é para ti o Amor?
Julho 25, 2008

“Tenho para mim que o Amor é religião e namoro; alma e carne; Céu e Terra; instinto porque somos animais – e ascese porque podemos ser santos. E tenho para mim, logo a seguir, que o Amor perfeito é o que tudo harmoniza, o que é pura comunhão de antíteses. O Amor perfeito não admite que o cindamos porque é uno; que o vejamos de dois lados, porque tem só um lado. (…)”

Sebastião da Gama
(Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)

Camões – Amor
Julho 25, 2008

“Amor é feito de alma e sempre dura.”

Luís de Camões
(1517 e 1524(?) – Lx. 10/6/1580)

Da Matilde para o Sebastião
Julho 25, 2008

“Não é este século de rosas e de pombas brancas.”
“Tu sabia-lo, Sebastião. E cantaste, doente, a tua maravilhosa e maravilhada alegria. A tua maravilhosa e maravilhada fraternidade, o teu maravilhoso e maravilhado amor.
“De que cor é o sangue dos poetas?”
Sebastião, Amigo,(…) em toda a tua vida, toda a tua Poesia (…) foi sangue vivo e presente.”

Matilde Rosa Araújo
(Lisboa, 18/6/1921)

Miguel Torga – Prólogo à Edição Castelhana de A Criação do Mundo
Julho 25, 2008

“Coimbra, 11 de Novembro de 1985.

PRÓLOGO À EDIÇÃO CASTELHANA
DE A CRIAÇÃO DO MUNDO

Querido Leitor:

Antes de mais, quero apresentar-me. Sou um português hispânico.
Nasci numa aldeia transmontana, mas respiro todo o ar peninsular.
Cioso da minha pátria cívica, da sua independência, da sua História,
da sua singularidade cultural, gosto, contudo, de me sentir galego,
castelhano, andaluz, catalão, asturiano ou vasconço nas horas
complementares do instinto e da mente. E, como à dura condição de
existir junto a de escrever, muito papel tenho lavrado a contar as
emoções desse convívio físico e espiritual sem fronteiras. Convívio já
sobejamente documentado nuns Poemas Ibéricos
publicados em edição bilingue, e onde aparecem lado a lado os
heróis paradigmáticos do nosso destino comum, mas que nesta
crónica, romance, memorial e testamento, como lhe chamei no
prefácio à versão francesa, vem testemunhando dilaceradamente.

Refiro-me às páginas que dizem respeito à Guerra Civil, de que pude
presenciar ao natural alguns horrores. Só por elas talvez valha a
pena que dês atenção ao livro, para conheceres mais um depoimento ao rubro da repercussão planetária que teve esse fratricídio intolerante, que forças demoníacas exacerbaram até ao paroxismo. Tragédia que em dói ainda na carne e na alma, e que traumatizou indelevelmente todos os da minha geração. Claramente que estou esperançado que não te interessem apenas essas laudas de agonia. Atrevo-me a pensar que a tua curiosidade vá mais além. Repara no título do volume. Significa que se trata de uma obra que conta a génese progressiva numa consciência da imagem da realidade circunstancial. Nenhum de nós sente e reage da mesma maneira. Cada facto, cada fenómeno, cada estímulo tem ressonâncias específicas em cada criatura. E todos chegamos ao último dia com a visão de um mundo criado à nossa medida, original e único. O meu é este. Um espaço de tenacidade. Ilusão, lucidez e angústia, agitado por mil tormentos e convulsões, e povoado de seres reais que o tempo foi transformando em fantasmas. Que o percorras com algum proveito à luz da tua própria peregrinação, é o voto sincero que faço à entrada da patética via-sacra que é sempre, como sabes, o curto ou longo caminho de uma vida humana.

Teu
Miguel Torga”

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

Rumores do Al Berto
Julho 22, 2008

“… vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

… vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir…

… vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falar de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras…

(…)”

Al Berto
(Coimbra, 11/1/1948 – Lisboa, 13/6/1997)