Miguel Torga – Prólogo à Edição Castelhana de A Criação do Mundo

“Coimbra, 11 de Novembro de 1985.

PRÓLOGO À EDIÇÃO CASTELHANA
DE A CRIAÇÃO DO MUNDO

Querido Leitor:

Antes de mais, quero apresentar-me. Sou um português hispânico.
Nasci numa aldeia transmontana, mas respiro todo o ar peninsular.
Cioso da minha pátria cívica, da sua independência, da sua História,
da sua singularidade cultural, gosto, contudo, de me sentir galego,
castelhano, andaluz, catalão, asturiano ou vasconço nas horas
complementares do instinto e da mente. E, como à dura condição de
existir junto a de escrever, muito papel tenho lavrado a contar as
emoções desse convívio físico e espiritual sem fronteiras. Convívio já
sobejamente documentado nuns Poemas Ibéricos
publicados em edição bilingue, e onde aparecem lado a lado os
heróis paradigmáticos do nosso destino comum, mas que nesta
crónica, romance, memorial e testamento, como lhe chamei no
prefácio à versão francesa, vem testemunhando dilaceradamente.

Refiro-me às páginas que dizem respeito à Guerra Civil, de que pude
presenciar ao natural alguns horrores. Só por elas talvez valha a
pena que dês atenção ao livro, para conheceres mais um depoimento ao rubro da repercussão planetária que teve esse fratricídio intolerante, que forças demoníacas exacerbaram até ao paroxismo. Tragédia que em dói ainda na carne e na alma, e que traumatizou indelevelmente todos os da minha geração. Claramente que estou esperançado que não te interessem apenas essas laudas de agonia. Atrevo-me a pensar que a tua curiosidade vá mais além. Repara no título do volume. Significa que se trata de uma obra que conta a génese progressiva numa consciência da imagem da realidade circunstancial. Nenhum de nós sente e reage da mesma maneira. Cada facto, cada fenómeno, cada estímulo tem ressonâncias específicas em cada criatura. E todos chegamos ao último dia com a visão de um mundo criado à nossa medida, original e único. O meu é este. Um espaço de tenacidade. Ilusão, lucidez e angústia, agitado por mil tormentos e convulsões, e povoado de seres reais que o tempo foi transformando em fantasmas. Que o percorras com algum proveito à luz da tua própria peregrinação, é o voto sincero que faço à entrada da patética via-sacra que é sempre, como sabes, o curto ou longo caminho de uma vida humana.

Teu
Miguel Torga”

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

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