Archive for Agosto, 2008

Fialho de Almeida – O Crítico e o Gato
Agosto 31, 2008

” MEUS SENHORES,
AQUI ESTÃO OS GATOS!

Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.

Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários. Um pouco lambeiro talvez perante as coisas belas, e um quase nada céptico perante as coisas consagradas; achando a quase todos os deuses pés de barro, ventre de jibóia a quase todos os homens, e a quase todos os tribunais, portas travessas. Amigo de fazer jongleries com a primeirra bola de papel que alguém lhe atire, ou seja um poema, ou seja um tratado, ou seja um código. Paciente em aguardar, manso e pagado, com um ar de mistério, horas e horas, a surtida de um rato pelos interstícios de um tapume, e pelando-se, uma vez caçada a presa, por fazer da agonia dela uma distracção; ora enrolando-a como um cigarro, entre as patinhas de veludo; ora fingindo que lhe concede a liberdade, atirando-a ao ar, recebendo-a entre os dentes, roçando-se por ela e moendo-a, até a deixar num picado ou num frangalho.

Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque, e o animal de humor e fantasia – porque não escolheremos nós o travesti do último? É o que se quadra mais no nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.

Razão porque nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca.”

Prefácio de Os Gatos

Fialho de Almeida (Vila de Frades, Vidigueira, 7/5/1857 – Cuba, 4/3/1911)
Contista, crítico de arte e costumes, jornalista, panfletário, licenciado em medicina, que praticamente não exerceu, optando pela vida literária.

Ramalho Ortigão – Eça e o Cenáculo
Agosto 31, 2008

“Ao Diário Ilustrado

Outubro de 1874.

Sr. Redactor do Diário Ilustrado: – Aceitando com grande prazer o encargo de fornecer o artigo destinado a acompanhar no seu jornal o retrato de Eça de Queirós, não posso deixar de lhe pedir licença para incluir nos textos das Farpas essas linhas consagradas por mim, como o tributo mais caro do meu coração, ao mais íntimo dos meus amigos, e aos mais dedicado dos meus companheiros. (…)

Eça de Queirós é um dos artistas em cuja obra mais claramente se patenteia a influência do seu meio. (…)

Eça de Queirós nasceu para a literatura no Cenáculo de Antero de Quental.

Os leitores portugueses terão dificuldade em compreender o que foi o Cenáculo – tão extraordinário, tão maravilhoso, tão fenomenal, tão inexplicável era esse poderoso centro de espírito e de estudo, de fantasia e de ideias no meio da sociedade lisbonense, a mais incaracterística e mais banal do mundo.

O Cenáculo era uma pequena reunião de rapazes em sessão permanente em casa de Antero. Uns passavam lá o dia. Outros iam lá ficar de noite. Todos ali tinham os melhores de seus livros, as suas notas, as suas provisões de princípios e de tabaco. Cada um desses homens possuía, pelo menos, uma das ciências capitais que constituem as bases dos conhecimentos humanos: a física e a química, as matemáticas, a fisiologia, o direito, a história, a linguística. Antero de Quental, cabeça verdadeiramente enciclopédica, um dos mais sólidos e profundos entendimentos que tem produzido este século, era como a lógica viva daquele foco intelectual. (…)

O que é porém inconcebível é a quantidade de verve, de argúcia, de ironia, de bom humor que inundava esta academia obscura e terrível!
(…)
As sessões celebravam-se pondo cada um os pés em cima da mesa, à altura dos olhos, como na América. Tinha-se ao lado uma chávena de chá, o cigarro nos beiços, e era permitido a cada um desabotoar igualmente os seus paradoxos e o seu colete.
(…)
Era uma espécie de Boémia, se quiserem empregar ainda uma vez essa expressão antiquada. (…) Tinha o grave e austero princípio moderno do trabalho (…). Tinha a alta cultura do espírito, a grande elevação de carácter, o finíssimo melindre no ponto de honra, a dignidade inviolável (…).

No Cenáculo havia um criado. Não sei em virtude de que imagem retórica se lhe chamava Via Láctea.
(…)
O trabalho que se lhe incumbia era este: examinar atenta e vigilantemente tudo o que se passasse no Universo, e informar o Cenáculo,
(…)
Pouco depois da partida do Via Láctea, o Cenáculo todo dispersava.
Os belos dias alegres da mocidade, que marcavam indelevelmente o destino e a vida do homem, terminavam para Antero de Quental e para os amigos. Destes uns casaram e voltaram à família, outros partiram. Batalha Reis entrou no professorado. Oliveira Martins foi para Espanha. Lobo de Moura seguiu a carreira adminsitrrativa. Salomão Saragga casou.
(…)
Eça de Queirós foi por esse tempo para o Egipto, e fez com o conde de Resende a viagem do Oriente.
(…)
Foi na sua volta do Oriente que Queirós se encontrou comigo em Lisboa. Não tínhamos nada que fazer, nem um, nem outro, e íamos uma noite passeando ao acaso, quando nos ocorreu darmos à cidade alguma coisa para ler para o outro dia. (…)
Então, em acto contínuo, um de nós – não me lembro qual – sentou-se a uma mesa e encheu um caderno de papel, que o Diário de Notícias principiou a publicar ao outro dia. Depois o que principiara passou a pena ao outro, e assim fomos escrevendo sempre, revezadamente, por espaço de dois meses, acompanhando a publicação, e fazendo na véspera o folhetim do outro dia.
Foi deste modo que nasceu O Mistério da Estrada de Sintra.
(…)
Para nós ambos esse trabalho tornou-se um laço estreito e simpático. Oh! o bom humor, o bom desleixo, a boa alegria com que o fizemos! O desplante, o arrojo, com que criámos as nossas personagens misteriosas (…)! Os nosso trens (…)! os nossos naufrágios! os nossos envenenamentos! os nosso homicídios! as nossas caçadas ao tigre (…)! as nossas lindas mulheers louras (…)!

Dissolvido o Cenáculo, Queirós aliou-se ao grupo do nosso amigo e engenheiro João Burnay, o qual vivia de paredes meias comigo.
(…)
Queirós respeitava-o como a um mestre. Burnay tinha-o adoptado. Aconselhava-o muito. Demonstrava-lhe que ele nunca seria um artista positivo sem uma sólida educação prática … (…)
Queirós tinha efectivamente, nessa época, uma grande carência de conhecimentos práticos. Um dia no Minho, Camilo Castelo Branco havia-lhe dado mel. Ele ficou pasmado de que o mel existisse. Tinha sempre considerado o mel, que nunca provara senão nas odes do Sr. Vidal, como uma imagem retórica, criada por Lucrécio, e que Plínio adoptara como mera ficção poética, curiosa para os naturalistas.
(…)
Queirós, possuindo os gérmenes de todas as qualidades do carácter e de todos os poderes do espírito, teve a sorte feliz de encontrar constantemente no mundo o meio mais apropriado ao seu desenvolvimento. (…)

Como escritor Eça de Queirós encheu a sua paleta das tintas mais variadas.
Criou a fonte dos efeitos mais encontrados, dos tons mais novos, mais originais, mais imprevistos.
Dotou-se de variadíssimos conhecimentos adquiridos não tanto nos livros como nas viagens, nas conversações, nos acidentes de uma vida (…), de todas as comoções da alma, de todas as sensações dos nervos.
(…)
Lede-o. (…)

O que escreve estas linhas é (…) um pobre diabo de artista (…).
Aqui têm esta quinzena, a qual fez oito anos e que eu considero para todos os efeitos da sua vida futura como se estivesse ainda nas fachas da infância e acabasse de soltar neste momento o seu primeiro vagido!
(…)
Já agora, (…) o meu único sonho hoje em dia é este: – a glória, e, se mo não levarem a mal – uma folha de parra!”

Ramalho Ortigão (Porto, 24/10/1836 – Lisboa, 27/9/1915)
Escritor, professor de Francês- de Eça e Ricardo Jorge -,
jornalista e bibliotecário.

Jerónimo Cantador de Argote e a Dialectologia Portuguesa (continuação)
Agosto 27, 2008

M. E quantos Dialectos locaes tem a lingua Portugueza?

d. Muytos, mas os principaes são cinco.

M. Quaes são?

D. O Dialecto da Provincia da Estremadura, o da Provincia de Entre Douro, e Minho, o da Beyra, o do Algarve, e o de Tras os Montes.

M. E que cousa he o Dialecto da Provincia da Estremadura?

D. He a pronuncia, palavras, e o modo de fallar a lingua Portugueza usado nas terras da Provincia da Estremadura.

M. E que cousa he o Dialecto da Provincia de Entre Douro, e Minho?

D. He a pronuncia palavras, e o modo de fallar a lingua Portugueza usado nas terras da Provincia do Minho, o mesmo se deve dizer competentemente dos demais.

M. E em que differe o Dialecto de Entre Douro, e Minho do da Estremadura?

D. Differe na pronuncia, porque a letra V, consoante pronuncião com B, ao Vinho dizem Binho; a letra B, pronuncião como V consoante, ao Vento dizem Bento.
As letras ão pronuncião om, ao Não dizem Nom, ao Pão Pom.
Differe nas palavras, porque à Viração chamão Maré, à Alameda chamão Devesa.
Differem no modo de fallar, porque fazem a alguns nomes masculinos femininos, e aos femininos masculinos, O fim dizem Afim. A febre dizem O febre, e também mudão em alguns Verbos as terminaçoens das pessoas, Eu estive dizem Eu esteve. Eu fiz dizem Eu fez.”

(continua)

Antero de Quental e a Opinião Pública
Agosto 27, 2008

“A esse monstro moderno chama-lhe a filosofia absurdo – embora o mundo persista em chamar-lhe opinião pública.

E é este o vulto escuro que interpõe sempre a sua forma confusa entre a verdade e os homens. É a maldição das sociedades democráticas, a contradição das forças colectivas, a sua verdade.

Lança mil vozes discordantes numa mesma hora a sua boca, que se chama imprensa. E como é um deus monstruoso, os seus sacerdotes são disformes e grotescos, são bonzos e não apóstolos; e o mundo que lhes obedece não pode todavia reprimir um sorriso de escárnio ao ver passar a falange sagrada dos jornalistas!”

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político, licenciado em Direito.

Eça de Queirós e o Mito do Santo Antero
Agosto 26, 2008

Eça, estudante de Direito em Coimbra, tal como Antero de Quental, criou de 1862-1863 o mito do Santo Antero:

“Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio, atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas da lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava.

A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda, À maneira sírica, reluziam, aureoladas. (…) parei, seduzido, com aimpressão de que não era aquele um repentista picaresco ou amvioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII – mas um Bardo, um Bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. (…)

Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo:
– É o Antero!…
(…)
Intimidade, porém, com aquele que eu depois chamava “Santo Antero”, só verdadeiramente começou na manhã em que o visitei, com muita curiosidade e muita timidez, na sua casa do Largo de S. João.”

Eça de Queiroz (Póvoa do Varzim, 25/11/1845 – Paris, 16/8/1900)
Diplomata e escritor, considerado o melhor escritor realista português do séc. XIX

Oliveira Martins e os Queridos Amigos
Agosto 26, 2008

“Um dos nosso queridos amigos, um dos que conhecem de perto Antero de Quental – e somente o conhece quem com ele viveu longo tempo na intimidade -, interroga-me geralmente deste modo: – E Santo Antero como vai?”
O terceiro amigo, o que pergunta, sabemos que é Eça de Queiroz, autor desse retrato maravilhoso publicado no In Memoriam de Antero sob o título “Um génio que era um santo”.

Oliveira Martins, 1885, Introdução aos Sonetos Completos de Antero de Quental

Oliveira Martins (Lisboa, 30/4/1845 – Lisboa, 28/8/1894)
Político, cientista social e escritor.

Jerónimo Cantador de Argote e a Dialectologia Portuguesa
Agosto 24, 2008

Jerónimo Cantador de Argote, primeiro dialectólogo português publicou um diálogo didáctico nas Regras da Língua Portugueza, 1725, que reproduzo, integral, mas gradualmente:

Mestre Que quer dizer Dialecto?

Discípulo Quer dizer modo de fallar.

M. Que cousa he Dialecto?

D. He o modo diverso de fallar a mesma lingua.

M. Dizey exemplo.

D. O modo, com que se falla a lingiua Portugueza nas terras v. g. da Beyra, he diverso do com que se falla a mesma lingua Portugueza em Lisboa porque em huma parte se usa de humas palavras, e pronuncia, e em outra parte se usa de outras palavras, e outra pronuncia, não em todas as palavras, mas em algumas. Esta diversidade pois de fallar, que obseerva a gente da mesma lingua, he que se chama Dialecto.

M. E quantas castas ha de Dialectos?

D. Muytas, mas as principaes são tres.

M. Quaes são?

D. Dialectos locaes, e Dialectos de tempo, e Dialectos de profissão.

M. Que cousa he Dialecto local?

D. Dialecto local he a differença, com que se falla a mesma lingua em diversas terras da mesma nação.

M. Dizey exemplo.

D. A diversidade, com que se falla a lingua Portugueza nas terras da Beyra, e da Estremadura, he Dialecto local.

(continua)

Os Vencidos da Vida
Agosto 24, 2008

Os Vencidos da Vida, designação sugerida por Oliveira Martins, e definida mais tarde por Eça como um grupo jantante, a Geração de 70, movimento académico de Coimbra, surge no panorama literário português do séc. XIX como uma revolução cultural – política e literária.

Na fotografia, da esquerda para a direita:

1. Sentados :
– Ramalho Ortigão;
– Eça de Queiroz;
– Conde de Ficalho;
– António Cândido.

2. Em Pé:
– Conde de Sabugosa;
– Carlos Mayer;
– Carlos Lobo de Ávila;
– Oliveira Martins;
– Luís de Soveral;
– Guerra Junqueiro;
– Bernardo Pindela.

Maria Alberta Menéres – Por entre o Crepitar dos Automóveis
Agosto 23, 2008

Por entre o crepitar dos automóveis
o bulício inquebrável da cidade
o relincho das nuvens quando imóveis
me oferecem na garupa a liberdade,

por entre o que hoje sei e nunca sei
deste abrupto silêncio que me invade
sem que uma nesga azul do que inventei
deixe de ser mentira ou ser verdade,

pudera um dia alguém ter leve imagem
de mim que fico e parto sem vontade
ao sabor de um destino de viagem,

pudera eu querer parar em minha idade,
aperceber-me enfim da percentagem
que sobrando me está de eternidade.

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil.

Alexandre Herculano – A Pertença dos Monumentos Históricos
Agosto 23, 2008

“Entenda-se, enfim, que nenhum monumento histórico pertence propriamente ao município em cujo âmbito jaz, mas sim à nação toda. Por via de regra, nem a mão poderosa que o ergueu regia só esse município, nem as somas que aí se despenderam saíram dele só, nem a história que transforma o monumento em documento é a história de uma vila ou cidade, mas sim a de um povo inteiro.”

Alexandre Herculano (Lisboa, 28/3/1810 – Santarém, 13/9/1877)
Escritor, historiador, jornalista e poeta.