Miguel Torga – Comemorar o Seu Aniversário

Se a condição física o permitisse, Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, médico, colaborador da Presença, fundador das revistas Sinal e Manifesto, escritor reconhecido mundialmente, justamente distinguido com prémios nacionais e internacionais, teria completado cento e um anos ontem.

Para comemorar o seu aniversário, escolhi estes excertos do seu Diário, Volumes I e IV:

“Termas de S. Vicente, 12 de Agosto de 1938– Estas romarias de Portugal! E eu que faço hoje trinta e um anos! Porque no fundo tenho passado a vida a arranjar coragem para me atirar a um baile destes e suar duma vez o lirismo que me envenena. Mas completo hoje trinta e um anos. Agora, só mesmo fazendo um filho depressa e delegando nele.”

“Lavadores, 12 de Agosto de 1946 – Trinta e nove anos. Meia vida passada (…). E tudo por fazer!

Comecei tarde, sem nenhuma preparação, e com defeitos horríveis, que tenho ido limando pouco a pouco, mas que resistem como fortalezas. Nasci afirmativo de mais, puritano de mais, uno de mais, apesar duma timidez confrangedora, duma aceitação natural da volúpia e duma disperrsão aflitiva a cada instante.

Tenho medo de um polícia e sou capaz de enfrentar um exército;
passo a vida a praticar virtudes que proíbo terminantemente aos outros; escrevo um poema, a dar consulta. De maneira que nunca consegui encontrar aquele equilíbrio criador onde julgo existir o pomar das grandes obras.

Debato-me entre forças contraditórias, e ao cabo de cada livro sinto-me insatisfeito e culpado como um pecador que não cumpriu bem a sua penitência. Não tenho ambições fora da arte, e, dentro dela, só desejo conquistsar a glória de a ter servido humilde e totalmente; mas não consegui ainda dar-lhe tudo, jogar a vida e a morte por ela. Para isso era preciso calcar aos pés o homem civil que sou, e não posso. Necessito de ter as minhas contas em dia como qualquer mortal honrado, e afligem-me os assuntos do mundo como casos pessoais.

Também tenho afectos. E o trama de deveres e apegos (…) . Abandono tudo para correr a casa dum amigo que está com dor de dentes, e passo uma noite em claro porque operei um doente, e ele pode ter uma hemorragia. Mas a minha fraqueza maior é não poder desprezar ninguém, mesmo os próprios inimigos. São meus semelhantes, apesar de tudo, e eu não consigo descrer do homem, seja ele como for. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento. Sofro por eles.

A minha grande alegria é admirar os outros, e procuro encontrar em cada um as linhas positivas do seu caminho. Afinal somo todos elos de uma grande corrente, e é pelos ferrujentos que ela pode quebrar. (…)

E tudo por fazer!

Mas quê! Quando devia estar a ler os clássicos, andava a capinar café; quando me apetece escrever,estou a curar anginas; e quando é preciso salvar o artista, ponho-me a salvar o homem.”

Miguel Torga
(São Martinho de Anta, Vila Real, 12 /8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)

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