Ramalho Ortigão – Eça e o Cenáculo

“Ao Diário Ilustrado

Outubro de 1874.

Sr. Redactor do Diário Ilustrado: – Aceitando com grande prazer o encargo de fornecer o artigo destinado a acompanhar no seu jornal o retrato de Eça de Queirós, não posso deixar de lhe pedir licença para incluir nos textos das Farpas essas linhas consagradas por mim, como o tributo mais caro do meu coração, ao mais íntimo dos meus amigos, e aos mais dedicado dos meus companheiros. (…)

Eça de Queirós é um dos artistas em cuja obra mais claramente se patenteia a influência do seu meio. (…)

Eça de Queirós nasceu para a literatura no Cenáculo de Antero de Quental.

Os leitores portugueses terão dificuldade em compreender o que foi o Cenáculo – tão extraordinário, tão maravilhoso, tão fenomenal, tão inexplicável era esse poderoso centro de espírito e de estudo, de fantasia e de ideias no meio da sociedade lisbonense, a mais incaracterística e mais banal do mundo.

O Cenáculo era uma pequena reunião de rapazes em sessão permanente em casa de Antero. Uns passavam lá o dia. Outros iam lá ficar de noite. Todos ali tinham os melhores de seus livros, as suas notas, as suas provisões de princípios e de tabaco. Cada um desses homens possuía, pelo menos, uma das ciências capitais que constituem as bases dos conhecimentos humanos: a física e a química, as matemáticas, a fisiologia, o direito, a história, a linguística. Antero de Quental, cabeça verdadeiramente enciclopédica, um dos mais sólidos e profundos entendimentos que tem produzido este século, era como a lógica viva daquele foco intelectual. (…)

O que é porém inconcebível é a quantidade de verve, de argúcia, de ironia, de bom humor que inundava esta academia obscura e terrível!
(…)
As sessões celebravam-se pondo cada um os pés em cima da mesa, à altura dos olhos, como na América. Tinha-se ao lado uma chávena de chá, o cigarro nos beiços, e era permitido a cada um desabotoar igualmente os seus paradoxos e o seu colete.
(…)
Era uma espécie de Boémia, se quiserem empregar ainda uma vez essa expressão antiquada. (…) Tinha o grave e austero princípio moderno do trabalho (…). Tinha a alta cultura do espírito, a grande elevação de carácter, o finíssimo melindre no ponto de honra, a dignidade inviolável (…).

No Cenáculo havia um criado. Não sei em virtude de que imagem retórica se lhe chamava Via Láctea.
(…)
O trabalho que se lhe incumbia era este: examinar atenta e vigilantemente tudo o que se passasse no Universo, e informar o Cenáculo,
(…)
Pouco depois da partida do Via Láctea, o Cenáculo todo dispersava.
Os belos dias alegres da mocidade, que marcavam indelevelmente o destino e a vida do homem, terminavam para Antero de Quental e para os amigos. Destes uns casaram e voltaram à família, outros partiram. Batalha Reis entrou no professorado. Oliveira Martins foi para Espanha. Lobo de Moura seguiu a carreira adminsitrrativa. Salomão Saragga casou.
(…)
Eça de Queirós foi por esse tempo para o Egipto, e fez com o conde de Resende a viagem do Oriente.
(…)
Foi na sua volta do Oriente que Queirós se encontrou comigo em Lisboa. Não tínhamos nada que fazer, nem um, nem outro, e íamos uma noite passeando ao acaso, quando nos ocorreu darmos à cidade alguma coisa para ler para o outro dia. (…)
Então, em acto contínuo, um de nós – não me lembro qual – sentou-se a uma mesa e encheu um caderno de papel, que o Diário de Notícias principiou a publicar ao outro dia. Depois o que principiara passou a pena ao outro, e assim fomos escrevendo sempre, revezadamente, por espaço de dois meses, acompanhando a publicação, e fazendo na véspera o folhetim do outro dia.
Foi deste modo que nasceu O Mistério da Estrada de Sintra.
(…)
Para nós ambos esse trabalho tornou-se um laço estreito e simpático. Oh! o bom humor, o bom desleixo, a boa alegria com que o fizemos! O desplante, o arrojo, com que criámos as nossas personagens misteriosas (…)! Os nosso trens (…)! os nossos naufrágios! os nossos envenenamentos! os nosso homicídios! as nossas caçadas ao tigre (…)! as nossas lindas mulheers louras (…)!

Dissolvido o Cenáculo, Queirós aliou-se ao grupo do nosso amigo e engenheiro João Burnay, o qual vivia de paredes meias comigo.
(…)
Queirós respeitava-o como a um mestre. Burnay tinha-o adoptado. Aconselhava-o muito. Demonstrava-lhe que ele nunca seria um artista positivo sem uma sólida educação prática … (…)
Queirós tinha efectivamente, nessa época, uma grande carência de conhecimentos práticos. Um dia no Minho, Camilo Castelo Branco havia-lhe dado mel. Ele ficou pasmado de que o mel existisse. Tinha sempre considerado o mel, que nunca provara senão nas odes do Sr. Vidal, como uma imagem retórica, criada por Lucrécio, e que Plínio adoptara como mera ficção poética, curiosa para os naturalistas.
(…)
Queirós, possuindo os gérmenes de todas as qualidades do carácter e de todos os poderes do espírito, teve a sorte feliz de encontrar constantemente no mundo o meio mais apropriado ao seu desenvolvimento. (…)

Como escritor Eça de Queirós encheu a sua paleta das tintas mais variadas.
Criou a fonte dos efeitos mais encontrados, dos tons mais novos, mais originais, mais imprevistos.
Dotou-se de variadíssimos conhecimentos adquiridos não tanto nos livros como nas viagens, nas conversações, nos acidentes de uma vida (…), de todas as comoções da alma, de todas as sensações dos nervos.
(…)
Lede-o. (…)

O que escreve estas linhas é (…) um pobre diabo de artista (…).
Aqui têm esta quinzena, a qual fez oito anos e que eu considero para todos os efeitos da sua vida futura como se estivesse ainda nas fachas da infância e acabasse de soltar neste momento o seu primeiro vagido!
(…)
Já agora, (…) o meu único sonho hoje em dia é este: – a glória, e, se mo não levarem a mal – uma folha de parra!”

Ramalho Ortigão (Porto, 24/10/1836 – Lisboa, 27/9/1915)
Escritor, professor de Francês- de Eça e Ricardo Jorge -,
jornalista e bibliotecário.

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