Archive for Setembro, 2008

Jorge de Sena – Terceira Carta do Brasil
Setembro 30, 2008

“Eu não sou linguista, coisa que aliás não há em Portugal; escritor português, não sou filólogo nem gramático, senão na medida em que, para mim, uma linguagem é um organismo vivo que tenho de conhecer em suas realizações e virtualidades, para melhor nela exprimir-se. (…)

(…) não me é indiferente o destino da língua portuguesa no Brasil. (…)

Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, fala-se e escreve-se a língua portuguesa.(…)

A língua portuguesa em Portugal, muito mais variada de região para região de um pequeno país, do que vêem de longe os estudiosos brasileiros, ou de perto a codificam e anotam os gramáticos e os dicionaristas portugueses, é todavia uma língua única, salvo a existência, em pequeninos núcleos, de enclaves dialectais, como o mirandês ou o barranquenho, que estão em vias de desaparição ante uma rede rodoviária e uma radiodifusão que lhes roubam o isolamneto de que se mantinham. (…)

Transportada para o Brasil, quando, havia quatro séculos (desde a independência e, meados do séc. XII às primeiras décadas do séc. XVI), era a língua de uma vontade de independência política em face dos outros reinos ibéricos (…), a língua portuguesa (…) tinha atingido, precisamente então, a personalidade adulta que se consubstancia em Camões, termo final de toda uma primeira fase de formação de uma língua autóctone, diferenciada e consciente. (…)

No Brasil, a língua portuguesa viu-se em face de uma realidade nova. Não tão nova, todavia, quanto por vezes se supõe.

Portugal descobriu o Brasil, e iniciou a sua colonização, um século depois e haver-se lançado na expansão ultramarina (…).

(continua)

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/78)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

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Alexei Bueno – Pergunta
Setembro 30, 2008

Será realmente a face do universo
A face da Medusa,
Esta geral destruição confusa,
Este criar perverso,

Ou será a máscara, álgida e estrelada,
Onde os cometas passam,
Turva de treva, rútila de nada,
E onde olhos se espedaçam?

4-11-1998

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26/4/1963)
Poeta, ensaísta, editor, antologista, tradutor.

Rachel de Queiroz – A Gente é…
Setembro 30, 2008

“A gente é morrendo e aprendendo”.

Rachel de Queiroz (Fortaleza, 17/11/1910 – Rio de Janeiro, 4/11/2003)
Romancista, poetisa, cronista, dramaturga, escritora de literature infanto-juvenil, jornalista, tradutora.
Foi a 1.ª mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.
Distinguida com o Prémio Camões em 1993.

Vinicius de Moraes – Da Solidão
Setembro 29, 2008

A maior solidão é a do ser que não ama.

A maior solidão é a do ser que ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.

Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno.

Ele é a angústia do mundo que o reflecte.

Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

MORAES, Vinicius de, De Para Viver um Grande Amor

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Cecília Meireles – Aspiração
Setembro 29, 2008

“Às vezes nós nos supomos donos do mundo, e temos a coragem de tentar erguer uma aspiração capaz de atingir toda a humanidade.
Construímo-la com as forças mais puras do nosso espírito, animamo-la com o sangue das mais nítidas esperanças, e apresentamo-la como a melhor parte de nós mesmos, edificada no silêncio e na sombra, fortalecida de todos os impulsos excelentes, digna de aparecer na vida para triunfar sem vacilações. Porque temos a boa-fé imensa dos que acreditam que a humanidade deseja evoluir, e receber com alegria todas as oportunidades de progresso. (…)”

MEIRELES, Cecília, Crónicas de Educação

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro

Carlos Drummond de Andrade – Estes Poetas São Meus
Setembro 29, 2008

Estes poetas são meus. (…)
Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiacovsky.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Carlos Drummond Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia

Marina Colasanti – Ver o Mundo
Setembro 29, 2008

Quando Nero queria ver
o mundo
olhava-o através de uma esmeralda.

Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através das palavras.

Marina Colasanti (Asmara, 26/9/1937)
Poetisa, contista, escritora de literatura infantil e juvenil, esposa do escritor Affonso Romano de Sant´Anna.

Affonso Romano de Sant´Anna – Alguma Coisa
Setembro 29, 2008

Alguma coisa
o oráculo dizia
dizia
dizia alguma coisa
que decifrar não conseguia.

Affonso Romano de Sant´Anna (Belo Horizonte, 27 de Março de 1937)
Poeta, cronista, ensaísta, esposo da poetisa Marina Colasanti.

Manuel Bandeira – Portugal, Meu Avôzinho
Setembro 29, 2008

Como foi que temperaste,
Portugal, meu Avõzinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?

Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira.

Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avôzinho.
Ai, Portugal, que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!

Tu de um lado, e do outro lado
Nós… No meio o mar profundo…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.

Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes…
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!

Ai, Portugal de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avôzinho,
Esse gosto misturado
Que é saudade e que é carinho!

Manuel Bandeira (Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)
Poeta, crítico literário e de arte, tradutor, professor.

Al Berto – — em ti
Setembro 25, 2008

“(…)
…em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes
navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos

… em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se ao sol

… em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal
dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas

… em ti pernoita a seiva cansada das palavras, o suco
das ervas e o açúcar transparente das camarinhas

…em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as
pérolas dos mares sem rumo

…em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este
demorado lamento…”

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948 – Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.