Archive for Outubro, 2008

Recordando Maria Lamas
Outubro 8, 2008

Maria Lamas, grande vulto da literatura portuguesa do séc. XX, nasceu no dia 6 de Outubro de 1893.
Convido-vos para celebrarmos o seu aniversário – dois dias depois, mas o Natal não é todos os dias? – com duas mensagens suas e com a indiscrição de correspondência que lhe foi endereçada – brindemos!

“Ninguém tem direito a duas fatias de pão enquanto houver na terra um homem que não tenha nem um migalho.”

“Escreverei nos livros e espalharei no mundo inteiro a mensagem das bocas que a morte por perseguição pela fome, pelo frio, emudeceu violentamente – antes do tempo.”
**Maria Lamas

Postal de *David Bernardino

22 de Fevereiro de 1970

Avózinha

Estou a escrever-lhe no velho porto à sombra de uma das três enormes mulembas que, com certeza, ainda se lembram de si. Tudo o mais está modificado (até a vila crismaram de Folgares…!) principalmente depois de ter sido feita a 20 km uma barragem no Cunene, que vem electrificando e irrigando a região. Temos de combinar uma visita nossa, para melhor comparar a recordação com a realidade,

Té depois a 15 dias!
Um chicoração grandalhão, grandalhão

* Médico e intelectual radicado em Angola, assassinado por apoiantes da UNITA em 1993.

Postal de Mário Soares

13 de Julho de 1972

Querida Amiga

Há muito que não tenho notícias suas directas. Mas vou sempre seguindo os seus passos com inalterável amizade e admiração. Tem passado bem? Oxalá! Cumprimentos aos seus e um abraço muito afectuoso e grato do seu
Mário

Carta de Marguerite Yourcenar

6 de Abril de 1981

Cara Maria Lamas

Disseram-me hoje que não viria a Lisboa durante a curta estadia que eu aí farei, o que me parece muito aconselhável, porque a distância entre Évora e Lisboa é apesar de tudo grande para uma pessoa doente.
Envio-lhe daqui as minhas mais cordiais lembranças e congratulo-me com a reedição da sua tradução de Adriano. A capa, tirada de um antigo plano da “Villa Adriana” (o de Francesco Piranèse, suponho), é imaginativa e bonita.
Eu também estou um pouco doente, pois apanhei frio em Espanha, após uma longa estadia em Marrocos quente e dourado. (…)
Desejo-lhe muita saúde e peço-lhe apresente os meus cumprimentos à sua encantadora filha.
Afectuosamente

Marguerite Yourcenar

** Maria Lamas (Torres Novas, 6/10/1893 – Lisboa, 6/12/1983)
Poetisa, cronista, novelista, folhetinista, escritora de literatura infanto-juvenil, jornalista, tradutora, intervencionista política, lutadora pelos direitos das mulheres, humanista.
Usou os pseudónimos: Maria Fonseca; Serrana d´Ayre e Rosa Silvestre.

As Dúvidas do Zé-Concertina – Copo de Água / Copo com Água / Copo para Água
Outubro 8, 2008

Conversa entre o Zé-Concertina, as Vogais e outras mais…

– Olá, Menina!

– Olá, Sr. Zé-Concertina! Como está?

– Bem, obrigado! E a Menina? Uma flor como parece? Vinha aqui a matutar numa coisinha, que a Menina pode esclarecer-me.
Quando chegar à tasca do Valentim cheio de sede, peço-lho um “copo de água” ou “um copo com água”?

– Pede-lhe um copo de água, que significa um copo cheio de água.
Se o Sr. Zé-concertina disser ou pedir um copo com água está a referir-se a um copo com alguma água.

– Ah! Menina! Um copo com água?!… Isso era se eu precisasse de uma pinguinha de água para tomar um comprimido.

– Muito bem, Sr. Zé-Concertina! Mas se tivesse pedido uma garrafa de água e, entretanto chegasse um amigo, que também estivesse com sede, o Sr. Zé-Concertina pedia um copo para água ao Sr. Valentim – destinado a beber-se água por ele.
Sr. Zé-Concetina, também tem de estar atento às expressões:

– “caixa de fósforos” e “caixa com fósforos”;
Ex.: Comprei uma caixa de fósforos.
Está uma caixa com fósforos ao pé do fogareiro.

– “cabaz de fruta” e “cabaz com fruta”.

– Já percebi, Menina. Quer ouvir? Há bocadinho passei pela praça e vi o Jacinto a carregar uma “cabaz de pêssegos” – cheia deles -, e a mulher levava um “cabaz com figos” – alguns.
Muito obrigado, Menina!

– Não tem de quê, Sr. Zé-Concertina!

Jorge Listopad – “Sou poeta”…
Outubro 7, 2008

“Sou poeta provavelmente em tudo o que faço.”

” Poesia é o meu signo, o meu sinal, a minha vida.”

Jorge Listopad (Praga, 26/11/1921, naturalizado português na década de 50)
Poeta, colunista, crítico, encenador teatral, realizador, professor universitário, pedadgogo.

Carlos Porto – Alguém Chora
Outubro 7, 2008

Alguém disse chora
O homem atravessou o rio iluminado
alguém chora
O homem pela água passa
tantas lágrimas
Uma voz padecia por todas as vozes
algures uma mulher
Alguém disse chora

Carlos Porto, Pseudónimo de José Carlos da Silva Castro (Porto, 1930)
Crítico teatral, dramaturgo, poeta e tradutor.

Murilo Mendes – Vieira da Silva
Outubro 7, 2008

Diurno e nocturno\Longo e breve
Másculo e feminino
Onda e serpente
Água metálica
Chama rastreante
É o bicho que habita
N aescadaria do século
Entre o sibilar das granadas
E a saudade dos minuetos.

Bicho nervoso
Minucioso
Tece uma trama há mil anos
Que se transforma com a luz,
Em contraponto às formas
Da cidade organizada.

E o bicho minucioso
Pesquisa sua eprfeição.
Bicho diurno e nocturno.

MENDES, Murilo, in Metamorfoses

Murilo Mendes(Juiz de Fora, 13/5/1901 – Lisboa, 13/8/1975)
Expoente máximo da poesia modernista brasileira, foi dentista, telégrafo, auxiliar de guarda-livros, notário, inspector do Ensino Secundário, professor universitário, esposo de Maria da Saudade. Cortesão.

I Exposição dos Surrealistas
Outubro 5, 2008

I Exposição dos Surrealistas (Junho – Julho de 1949)

Da esquerda para a direita: Henrique Risques Pereira,
Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos.

Alexandre Pinheiro Torres – Passaporte para Cardiff
Outubro 5, 2008

“Veio 1965. Salazar tem a esplêndida ideia de me prender, a mim, ao Manuel da Fonseca e ao Abelaira na qualidade de membros do júri da extinta Sociedade Portuguesa de Escritores por termos dado o Prémio da Novelística da SPE ao livro Luanda de Luandino Vieira.

Proíbido, e os outros, de assinar textos ou de ver o seu nome referido na imprensa, logo que solto, trato de mudar de país. (…) Acabo por optar pela Inglaterra, seguindo o exemplo dos liberais do século XIX. (…) Cardiff está bem. É a cidade ideal. Muitos parques, lagos, mar ao lado (…).”

Alexandre Pinheiro Torres (Amarante, 27/10/1923 – Cardiff, 3/8/1998)
Romancista, poeta, ensaísta, historiador de literatura, crítico literário, tradutor, professor catedrático, co-fundador da revista Serpente, bacharel em Ciências Físico-Químicas, licenciado em Ciência Histórico-Filosóficas.

José Cardoso Pires – Carta para Alexandre Pinheiro Torres
Outubro 5, 2008

“Prezado Senhor Escritor das Inglas,

Sacou Vossa Senhorai o trapo para me espevitar de lusitaniedade. Fê-lo em boa hora sua e para vaidade minha, já que me lançou para a posteridade, e por escrito, a cavalo num tubarão do tamanho da Moby Dick.
Bem haja, como se diz no arcebispado do Peso de Castelo Branco.

Dos feitos que por vossa notícia pratiquei não me seria próprio falar. (…)
Mas se a um coitado se pede modéstia, bom será que não se lhe cale a verdade. (…)

Permiti, pois, que por dever de exactidão Vos restitua a mariposa e ponha à vista as chagas que me deixastes em vossas ligeiras descrições a meu respeito.

Sobre isso um só reparo Vos faço (…): é que falastes de tubarões de espécie vulgar como se fora desses que me ocupei na minha caçada, quando bem vistes com vossos olhos que a fera cuja ira dominei e tomei como presa era da temida casta dos Tubarões Almirantes, vulgo, Tenreiros, universalmente amaldiçoados por sua voracidade e expedientes malignos. (…)

Alguém de saber piedoso usava dizer que “tubarões e figurões não se matam com orações” e, porque assim também considero, (…) passo, pois, a outro ponto do Vosso escrito e esse de tão ab irratio natura que escandalizou os cavalheiros pensantes daqui e de outras pátrias que connosco tiveram trato e comércio.

Refiro-me, como já pressentís, ao pecado da soberba apátrida tão comum nos estrangeirados. Porque sacando do trapo do desdém e com simplezas de aldeão (…) denegristes, sem pudor cristão, a comarca lusitana a que julgo ainda pertenceis. Aí, deixai que Vos diga, incorrestes em pecado capital. Pois sabei que, em meu sentir, a Comarca é suma e intocável. Por mim não só não a enjeito como lhe presto honra com toda a devoção da minha humilde pessoa.

É certo que os estrangeiros mal avisados têm dela mau entender devido a heresias a que são atreitos e dão fraca aceitação à nossa maneira de ser e de estar.

Uns não compreendem que, sendo uma pátria agrícola, (…) que isto de comprar sustento ao alheio é uma sábia maneira de não cansar esta terra que não nasceu para couval, mas para jardim da Europa.

Também há lá fora quem não abranja que sejamos católicos sem discussão, no todo e por decreto, apesar de tão parcos em santos devidamente canonizados, virgens apócrifas e santos apalavrados para breve; aos que assim pensam cumprirá lembrar que aqui se fez rei o Santo Ofício e escola a Mesa Censória, sacrifícios que só os eleitos da Fé sabem sofrer e ministrar.

E quedo-me. Poderia lembrar-vos muitos outros casos de mistério lusitano causadores de espanto e inveja às Cortes dos poderosos:
(…) que todos os séculos somos navegadores sem precisar de frota; que em todas as europas do mundo o operário lusitano é o melhor entre os primeiros, apesar de ele não dar por isso.

Eis, para Vosso governo, alguns aparentes desacertos que nos fazem acertados e inconfundíveis (…) porque temos uma nossa maneira orgulhosamente só de estar com Deus e com a História.

Nosso providencialismo que nos sossega.

Nossos filósofos brumosos.

Nossa mansidão e nossa ortografia guerreira.

Nosso manguito (…) como discurso contra as tentações das heresias do tempo.

Com o manguito me fico também quando vindes falar das Inglas e doutros Fetais, e rio-me a bom rir (…).

Beberemos boa ale se quiserdes, mas aqui, em casa lusa, que para isso temos Tuborg e Calsberg que fazem invejados daneses. Praticaremos então sobre estes e outros desmandos do Vosso escrito e tudo acabará em concertação, à sombra de Deus. Assim o espero.

Até lá muitas recomendações à senhora Vossa Esposa, que as minhas para convosco só à vista terão fim.”

José Cardoso Pires, São João do Peso, 2/10/1925 – Lisboa, 26/10/1998)
Romancista, contista, novelista, cronista, ensaísta, dramaturgo.

Nota: Esta carta é a resposta à fábula sobre o seu autor existente na abertura do livro de Alexandre Pinheiro Torres Tubarões e peixe miúdo.

Alexandre O´ Neill – O Poeta
Outubro 5, 2008

“(…) o Poeta não pode ser aparentemente muito diferente da sua poesia. A obra, chamemos-lhe assim, é sempre reflexo da vida que se tem, porque ela ou reflecte as ideias ou reflecte realidades, mas é uma fonte de reagir.”

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

Alberto de Oliveira (Brasil) – Aspiração
Outubro 4, 2008

Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;

Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;

Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se a cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa,
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;

E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;

Ser palmeira, depois de homem ter sido esta alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra:

E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques
treme, E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;

Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!

E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem,
Meu canto triunfal!

E isto que aqui digo então dizer: — que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;

E pedir que, o uno sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh’alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!

Alberto de Oliveira, pseudónimo de António Mariano Oliveira (Saquarema, 28/4/1857 – Niterói, 19/1/1937)
Poeta – “o Príncipe dos Poetas” -, professor de Português, co-fundador da Academia Brasileira de Letras, farmacêutico.