Archive for Janeiro, 2009

Augusto Gil – Balada da Neve
Janeiro 28, 2009

Para os homens e mulheres já maduros, que se deixaram encantar por este poema quando desfolhavam as páginas do seu livro da terceira classe e que orgulhosa e livremente o decoraram – e recitam na rua, ao frio, como presenciei há dias -, e para todos os que ainda o não conhecem, este presente do Augusto Gil

Balada da Neve

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim…
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente,
E a chuva não bate assim…

É talvez a ventania;
Mas há pouco, poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho…

Quem bate assim levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?…
Não é chuva nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía,
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça,
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
A neve deixa inda vê-los.
Primeiro bem definidos,
Depois em sulcos compridos
Porque não podia erguê-los!

Que quem já é pescador
Sofra tormentos… enfim!…
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhe dais tanta dor?…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza…
– E cai no meu coração.

Augusto Gil (Lordelo do Ouro, 31/7/1873 – Guarda, 26/11/1929)
Poeta, colaborador de jornais, advogado, director-geral das Belas-Artes.

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Luísa Dacosta – Apelo
Janeiro 28, 2009

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

Luísa Dacosta (Vila Rela de Trás-os-Montes, 16/2/1927)
Escritora de literatura infantil, poetisa, contista, ensaísta, crítica literária, tradutora, colaboradora de jornais e revistas, professora, licenciada em Histórico-Filosóficas.

Miguel Torga – Pátria
Janeiro 28, 2009

Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.
Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga da terra
Debruada de mar.

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

Natália Correia – Revolução
Janeiro 27, 2009

“(…) A minha Revolução é já de há muito tempo. Antiquíssima. Chama-se o homem. Equilaterizado na plenitude das suas quatro dimensões: espírito, intelecto, alma e corpo.”

Natália Correia (Fajã de Baixo, S. Miguel, 13/9/1923 – Lisboa, 16/3/1993)
Poetisa, romancista, ensaísta, jornalista e dramaturga.

José Cardoso Pires – A Censura
Janeiro 27, 2009

“Senti a mão da Censura logo no primeiro texto que publiquei em livro, uma antologia universitária intitulada Bloco. Morte imediata, livro apreendido sem demora porque a política da escrita estava atenta aos candidatos a escritor. (…)”

José Cardoso Pires (São João do Peso, 2/10/1925 – Lisboa, 26/10/1998)
Romancista, contista, novelista, cronista, ensaísta, dramaturgo.

Manuel Alegre – Portugal
Janeiro 27, 2009

Este verde azul cinzento
este sol esta bruma este
Sabor a Atlântico por dentro
Do ventre oeste.

Este não haver regresso
do verbo navegar.
País do avesso
só mar.

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

Helder Macedo – Busca
Janeiro 27, 2009

Quis ver o rosto do nada
quando olhei
para ver quem me seguia
ou seguiria
enquanto olhasse
a sombra indecifrada
desta não sei se selva
ou estrada
ou talvez praia
ou destino perdido no caminho

Helder Macedo (Krugersdop, 1935)
Poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário, colaborador de antologias, jornais e revistas nacionais e internacionais, licenciado em Estudos Portugueses e Brasileiros e História, doutorado em Letras.

Maria Isabel Barreno – A Escrita
Janeiro 27, 2009

“Eu penso que há que enfrentar a escrita sem complexos, nem espartilhos prévios (…).
Há que viver o acto da escrita. “

Maria Isabel Barreno (Lisboa, 10/7/1939)
Romancista, novelista, contista, ensaísta, autora de trabalhos sociológicos e de guiões para a televisão e cinema, colaboradora de jornais e revistas, integrou o Movimento Feminista de Portugal com as escritoras; Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, com as quais é co-autora das Novas Cartas Portuguesas, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas.

Padre Manuel Antunes – A Santidade
Janeiro 27, 2009

“A santidade da verdade não é cómoda. Exige daqueles que não querem tornar-se completamente indignos dela um tal sentimento de renúncia, uma tal lucidez do olhar, uma tal capacidade de solidão que só poucos, muitos poucos, sabem conquistar.”

Padre Manuel Antunes (Sertã, 13/11/1918 – Lisboa, 16/1/1985)
Sacerdote, professor universitário, ensaísta, grande amigo de: Almada Negreiros, António Sérgio, Jorge de Sena, José Régio e Vitorino Nemésio, doutorado em Filosofia e Teologia.

Teixeira de Pascoaes – A Raça Portuguesa
Janeiro 27, 2009

“A Raça portuguesa é uma noite sentimental, constelada de estrelas, que são os cantos dos nossos poetas.(…)”

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877- Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.