Archive for Fevereiro, 2009

António Ramos Rosa – Um Eco
Fevereiro 28, 2009

Sujei o teu nome
para me libertar de ti
o sujo foi sombra
teu nome esqueci-o

O sujo era ferida
e eu falso cantava
Não reconhecia a minha voz
Ai que deserta liberdade

Preso de novo
que rede tamanha
se laços e vozes
Um eco talvez
um eco incessante

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador,
marido da poetisa Agripina Costa Marques.

Maria José Giglio – O Vento e as Palavras
Fevereiro 28, 2009

Nunca soube escrever o vento
Se as palavras fossem bailarinas
sobre o papel

se o papel fosse árvore
em movimento

Impossível escrever o som
quando tudo é instrumento:

o céu, o mar, a terra
o corpo e seu alento

Maria José Giglio, São Paulo, Brasil (1933)
Poetisa e colaboradora de eventos literários.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Poetas de Angola: José da Silva Maia Ferreira e Cordeiro da Matta (continuação)
Fevereiro 28, 2009

Retalhos Poéticos de Angola

José da Silva Maia Ferreira

À MINHA TERRA !

(No momento de avista-la depois de uma viagem.)

De leite o mar – lá desponta
Entre as vagas sussurrando
A terra em que cismando
Vejo ao longe branquejar!
É baça e proeminente,
Tem d’ Africa o sol ardente,
Que sobre a areia fervente
Vem-me a mente acalentar.

Debaixo do fogo intenso,
Onde só brilha formosa,
Sinto n’alma fervorosa
O desejo de a abraçar:
É a minha terra querida,
Toda d’ alma, – toda – vida, –
Qu’ entre gozos foi fruida
Sem temores, nem pesar.

Bem vinda sejas ó terra,
Minha terra primorosa,
Despe as galas – que vaidosa
Ante mim queres mostrar:
Mesmo simples teus fulgores,
Os teus montes tem primores,
Que às vezes falam de amores
A quem os sabe adorar!

Navega pois, meu madeiro
Nestas aguas d’esmeraldas,
Vai junto do monte ás faldas
Nessas praias a brilhar!
Vae mirar a natureza,
Da minha terra a belleza,
Que é singella, e sem fereza
Nesses plainos d’ alem-mar!

De leite o mar, – eis desponta
Lá na extrema do horizonte,
Entre as vagas – alto monte
Da minha terra natal;
É pobre, – mas tão formosa
Em alcantis primorosa,
Quando brilha radiosa,
No mundo não tem igual!

José da Silva Maia Ferreira, (Luanda, 7/6/1827 – Rio de Janeiro, 1881)
Poeta, colaborador no Almanach de Lembranças, Lisboa, 1879, foi estudante em Lisboa, amanuense na Secretaria do Governo Geral de Angola, tesoureiro da Alfândega e oficial de Secretaria do Governo de Benguela.

Cordeiro da Matta

A UMA QUISSAMA

E na manhã fria, nevada
dessas manhãs de cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao limpo,
eu vi formoso, correcta
não sendo europeia dama
a mais sedutora preta
das regiões da Quissama.

Mal quinze anos contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!
Tinha das mulheres lindas
as graças belas, infindas
de encantos, encantos mil.

Nos lábios, postos que escuros,
viam-se-lhe risos puros
em borboletões assomar.

Tinha nos olhos divinos
revérberos cristalinos
e fulgores… de matar!

Radiava-lhe na fronte
— como em límpido horizonte
radia mimosa luz,
da virgem casta a candura
Que sói à formosura
a graça que brota à flux!…
Embora azeitados panos
lhe cobrissem os lácteos pomos
denunciavam os arcamos
de dois torneados gomos…

Joaquim Dias Cordeiro da Matta (Angola, 25/12/1857 – 1894)
Poeta, jornalista, investigador, é considerado o pai da literatura angolana, foi o primeiro a reivindicar uma literatura autóctone.

(continua)

Sophia – Instante
Fevereiro 27, 2009

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes

Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio

Sophia de Mello Breuner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

José Agostinho Baptista – Chove
Fevereiro 23, 2009

Agora chove nas abacates e nos araçás.
Chove por dentro, diluvianamente,
para sempre.
A ternura escava a sua morada subterrânea.
Oculto as minhas nascentes.

José Agostinho Baptista (Funchal, 15/8/1948)
Poeta, tradutor, colaborador em diversas publicações.

José Luís Peixoto – Ninguém Pode Saber
Fevereiro 21, 2009

ninguém pode saber que este poema é teu.
ninguém pode saber. ninguém pode saber
que este poema. ninguém. este poema é teu.
sou uma coisa da qual se tem vergonha.

PEIXOTO, José Luís, A Criança em Ruínas

José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sor, Setembro de 1974)
Poeta, romancista, dramaturgo, colaborador de diversas publicações nacionais e estrangeiras, licenciado em LLM, variante de Inglês Alemão.

Palavras Parónimas Desapercebido/Despercebido; Descrição/Discrição; Descriminação/Discriminação; Despensa/Dispensa; Destinguir/Distinguir; Destinto/Distinto(continuação)
Fevereiro 21, 2009

Continuação de algumas parónimas – palavras que têm significado diferente, mas que se aproximam tanto na grafia como na pronúncia -, que confundem frequentemente o falante da língua portuguesa:

Desapercebido / despercebido

a) desapercebido – incauto, desprevenido.
Ex.: O velhinho caminhava desapercebido, por isso caiu.

b) despercebido – sem ser visto.
Ex.: O teu erro ortográfico não passou despercebido.

Descrição / discrição

a) descrição – exposição.
Ex.: A Isaura fez a descrição do espectáculo.

b) discrição – qualidade de discreto.
Ex.: A Claúdia usa sempre de discrição.

Descriminação / discriminação

a) descriminação – absolvição.
Ex.: Depois da descriminação, o José regressou finalmente a casa.

b) discriminação – diferenciação.
Ex.: A discriminação religiosa é contrária aos direitos do Homem.

Despensa / dispensa

a) despensa – compartimento.
Ex.: A despensa da casa da Edite é muito grande.

b) dispensa – licença.
Ex.: A Otília pediu dispensa à cordenadora e saiu mais cedo.

Destinguir / distinguir

a) destinguir – fazer desbotar.
Ex.: A água muito quente pode destinguir a roupa de cor – avisou a Maria José.

b) distinguir – diferenciar.

Ex.: O daltónico é incapaz de distinguir certas cores – afirmou a Vicência.

Destinto / distinto

a) destinto – sem tinta.
Ex.: O pincel está destinto.

b) distinto – singular.
Ex.: O Marco tem um comportamento distinto

(continua)

Bernardim Ribeiro – Menina e Moça
Fevereiro 21, 2009

Página do Início de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.

“Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha. Escolhi para meu contentamento (se entre tristeza e saudades há algum) vir-me viver a este monte, onde o lugar e míngua da conversação da gente fosse como para meu cuidado cumpria – porque grande erro fora depois de tantos nojos, quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda esperar do mundo o descanso, que ele nunca deu a ninguém – (..)”

Bernardim Ribeiro (Torrão, Alcácer do Sal, 1482 – Lisboa, Outubro de 1552)
Poeta, novelista, introdutor do bucolismo em Portugal, colaborador no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, com quem integrou a roda dos poetas palacianos, à qual também pertenciam Sá de Miranda e Gil Vicente, entre outros.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Angola
Fevereiro 21, 2009

Quando, como surgiu e como se desenvolveu a literatura africana de expressão portuguesa?

A literatura africana de expressão portuguesa nasceu quando os portugueses se expandiram nas descobertas de África.

Em 1482, os portugueses chegaram à Foz do Zaire e em 1575 fundaram São Paulo de Assunção de Loanda – primeira povoação portuguesa -, actual capital de Angola.

A criação do ensino oficial, a liberdade de expressão e a instalação do prelo constituem os alicerces para a edificação da cultura africana – séc. XIX, anos quarenta.

Breve Percurso Africano

Angola

Em 1849, José da Silva Maia Ferreira marca o início da literatura angolana de língua portuguesa com o seu livro de poemas Espontaneidades da Minha Alma

Decorrida mais de uma década, Cordeiro da Mata, angolano, e outros portugueses radicados, Eduardo Neves, J. Cândido Furtado e Ernesto Marecos* – rerguiam a voz da poesia.

* Ernesto Mareco (1836- Moçambique, 1879) – viveu em Luanda desde 1850 e foi um dos fundadores da revista A Aurora.

(continua)

Mário Dionísio, o Amigo
Fevereiro 19, 2009

Palavras de Alexandre Pinheiro Torres *

“ Mário Dionísio foi para mim, e sempre, mais do que um amigo, um amigo que nunca deixou de me falar com um sorriso de verdadeira franqueza fraternal, especialmente quando de mim discordava ou eu dele.

Meu Mestre, não só do Neo-Realismo, mas também de toda a crítica verdadeiramente criadora. (…)”

* Alexandre Pinheiro Torres (Amarante, 27/10/1923 – Cardiff, 3/8/1998)
Romancista, poeta, ensaísta, historiador de literatura, crítico literário, tradutor, professor catedrático, co-fundador da revista Serpente, bacharel em Ciências Físico-Químicas, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas

Mário Dionísio (Lisboa, 16/7/1916 – Lisboa, 17/11/1993)
Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico, professor universitário.