Óscar Lopes – Carta para António José Saraiva (“Porto, 5/5/77”)

” Porto, 5/5/77

Caro Saraiva

Olá! Agora é raro a gente contactar.

Incluo uma nota de edições do Instituto Orientale enviado pelo Rossi.

Tenho para te entregar o ultimo n.º da revista Alfa, Univ. de Marília, Brasil.

E o Celso Cunha pediu-me o teu endereço, suponho que para te convidar para o XV Congresso de Filologia e Linguística Românicas, 25-29 de Julho p.f.

Creio que terás recebido os 360 contos da 1.ª edição da História da Literatura (o desconto de imposto profissional e selo é da ordem dos 30 contos). Esta História da Literatura é um espinho que tenho atravessado na garganta, enquanto não conseguirmos actualizar metodologicamente.

Julgo que irei ter mais tempo para estudar, pois deixei a gestão nos fins de Fevereiro. Parti logo a seguir para Angola, onde trabalhei um mês num curso de preparação de professores de Português, e voltei ainda mais arrasado do que fora, com 10 horas de trabalho diário a 35 graus em Luanda (no Lubamgo, ex – Sá da Bandeira, o clima é mais ameno). Encontrei-me com grande parte da malta dirigente, estive com o Neto e com o Fidel.
(…)
A minha posição na Faculdade está em risco. Saí do Conselho Directivo com enorme satisfação, mas agora está a ser visada a minha posição de catedrático.
Estou-me nas tintas para o penacho, que não solicitei (…).

Como tive de pedir a exoneração do lugar do Liceu, sou capaz de ter de ir para a aposentação, caso não queira ir parar à Província.

Bati 30 anos à porta da Universidade. Mandaram-me entrar por três anos para aguentar com os tufões num trabalho administrativo esgotante e honesto. Agora que estava a organizar um trabalho sério e colectivo de Investigação, no Centro de Linguística que lancei e estimulei, atirarm-me às malvas porque não estou doutorado (que oportunidade tive eu para isso? E terei menos competência do que os doutores que estão a ser reintegrados, como, aqui no Porto, o António Cruz e o Soveral?).

Pessoalmente, voltei às boas relações com o Seabrinha, que está em vertiginosa ascensão universitária, jornalística e política (…).

Quem leia esta carta atabalhoada poderá pensar que estou azedo, mas não estou. Ando apaixonado por uma hipótese que tem o horroroso nome de topologia da deixis. (…)

Um abraço do Óscar.”

NEVES, Leonor Curado, António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência

Óscar Lopes (Leça da Palmeira, 2/10/1917)
Ensaísta, crítico literário, especialista em Linguística e Literatura, colaborador em diversos jornais e revistas, professor liceal e catedrático, licenciado em Filologia Românica e Histórico-Filosóficas.

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