Archive for Junho, 2009

Luís de Magalhães – O Brasileiro Soares, Prefácio
Junho 16, 2009

“Bristol, 21 de Maio de 1886

Meu caro Luís Magalhães: quando você, no ano passado, me leu o esboço de O Brasileiro Soares, o que nele logo me prendeu foi a originalidade, larga e rigorosa, com que estava modelada a figura do seu Joaquim Soares da Boa Sorte.
(…)
Ora em Portugal o homem que mais evidentemente simbolizava a acção aos olhos turvos do romantismo era esse labrego, que, largando a enxada, embarcava para o Brasil num porão de galera, com um par de tamancos e uma caixa de pinho – e anos depois voltava de lá, na Mala Real, com botas novas de verniz, grisalho e jucundo, a edificar um palacete, a dar jantares de leitão ao abade, a tramar eleições e a ser barão…
(…)
E o curioso, meu caro Luís, é que, todos os tipos habituais do nosso romance romântico – só o brasileiro tem origem genuinamente portuguesa, de raiz.
(…)
O brasileiro, porém, era só nosso, deste solo que pisamos, castiço e mais originalmente português que a chalaça e a louça das Caldas. Mais que nacional, era local. Era do Minho, como o vinho verde.
(…)
Aquele que você encontra na Guardeira, o Joaquim da Boa Sorte, era excelente, cândido, casto, trabalhador, verdadeiro, magnânimo, de alma forte e amante.
(…)
O seu livro, caro Luís, tem a realidade bem observada e a observação bem exprimida – as duas qualidades supremas, as que devem procurar antes de tudo na obra de arte, onde outrora se admirava principalmente a imaginação e a eloquência. Mas você faz além disso, com o seu Brasileiro Soares, uma verdadeira reabilitação social.
(…)
Você desbrasileirou o brasileiro, humanizando-o; e como todo aquele que, com um tranquilo desprezo das convenções, faz uma obra de verdade, você elevou-se insensivelmente a esse feito mais raro, e melhor, que se chama uma boa acção.

Eça de Queirós”

Luís de Magalhães (Lisboa, 13/9/1859 – Porto, 14/12/1935)
Poeta, prosador, fundador de revistas, entre elas, a Revista Científica e Literária com António Feijó, e tertúlias, licenciado em Direito, amigo dos grandes nomes da Geração de 70, secretario de Eça, Governador Civil de Aveiro, Ministro dos Negócios Estrangeiros, reunia os intelectuais da época na sua Quinta do Mosteiro da Moreira da Maia.

António Feijó – Carta para Luís de Magalhães
Junho 12, 2009

“Rio Grande, 19 de Outubro, 1888

(…)
Eu estou sofrendo do mesmo mal que me tem atacado – a paixonite aguda, mas toda carnal, toda besta, como a daquele jornalista das Mensonges.

Todos os dias faço protestos de romper, de acabar por uma vez, mas chegada a hora, estupidamente, inconscientemente lá estou caído, como um animal.

Não imaginas que tortura é isto, quando a gente conserva fria e serena a razão.

Saindo eu daqui é natural que a pecadora se ausente, e que eu possa libertar-me enfim, porque atrás dela não vou. Aqui o juro aos deuses!

Ela é uma criatura desta força: fugiu ao marido com um amante, e o marido que ia morrendo de paixão, continua passados 5 anos a namorá-la e a requestá-la, com uma ternura que faz dó.

O amante, sabendo-se ultimamente corneado, tentou abandoná-la e fugiu para a Baía, mas não pode resistir e voltou. Chegado aqui, e reconhecendo-se vergonhosamente enfeitado por mim, fugiu de novo (…) perdido de amores ainda.

Ficou só, e por isso caiu-me inteiramente nos braços. Mas ao cabo de dois meses reconheci que estava vítima como os outros! Abençoei aqueles cornos que me caíam do céu, como a Redenção, e procurei encontrar-me com o inimigo em casa dela, para romper. Assim aconteceu, mas imagina o meu espanto, quando vejo o meu competidor, um velho de longas barbas brancas. Fiquei horrorizado e fugi!

(…) mais tarde (…) encontrei-a à minha porte, com uma criada, dizendo-me que se não a mandasse entrar faria um escândalo de acordar toda a vizinhança (…).

Em cima foram prantos, súplicas, etc. Dizendo-me (…) que não queria receber de mim um vintém, porque eu era simplesmente o seu querido. Resisti, praguejei. Fiz de tirano. Mas não houve meio. (…)

Ora aí tens o inferno em que me encontro, De mais a mais é bonita e perfeita. Tem 26 anos e é o corpo mais doce e flexível que a minha língua tem saboreado. Lastima-me.

Adeus. Recomenda-me a todos os teus. Como vão os teus pequerruchos?

Dá notícias tuas para aqui ao teu amigo do coração

Feijó”

António Feijó (Ponte de Lima, 1/6/1859 – Estocolmo, 20/6/1917)
Poeta e diplomata, fundador da Revista Científica e Literária com Luís de Magalhães – 1880, Coimbra -, colaborador nas revistas Arte, A Ilustração Portuguesa, O Instituto, Novidades, Museu Ilustrado, licenciado em Direito.

Luís de Magalhães (Lisboa, 13/9/1859 – Porto, 14/12/1935)
Poeta, prosador, fundador de revistas, entre elas, a Revista Científica e Literária com António Feijó, e tertúlias, licenciado em Direito, amigo dos grandes nomes da Geração de 70, secretario de Eça, governador civil de Aveiro, Ministro dos Negócios Estrangeiros, reunia os intelectuais da época na sua Quinta do Mosteiro da Moreira da Maia.

Dificuldades da Língua Portuguesa – Verbos AluarAlunar
Junho 12, 2009

Os verbos Aluar e Alunar são distintos, têm significado diferente, por isso, não devem ser confundidos:

Aluar, v. t. Tornar lunático; adoidar.
Ex.: – Cala-te, rapariga! Até parece que estás aluada!

Alunar, v. int. Pousar na lua.
Ex.: Espera-se que em 2020 os astronautas portugueses alunem.