Archive for Agosto, 2009

Agostinho de Silva – Alfabetizar
Agosto 31, 2009

“Alfabetizar hoje uma pessoa não é apenas mostrar-lhe como se escreve isto ou aquilo (…), eu explico-lhe como é que é, e ele fica alfabetizado para o importante, que no fundo é perceber o mundo actual e o mundo em que vivemos.”

Agostinho da Silva (Porto,13/2/1906 – Lisboa, 3/4/1994)
Filósofo, poeta, ensaísta, professor, licenciado em Filologia Clássica (1929), doutorado com louvor (1929), colaborador da Revista Seara Nova, fundador do Núcleo Pedagógico Antero de Quental (1939), co-fundador de universidades no Brasil, criador de Centros de Estudos.

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Padre António Vieira – Falar
Agosto 31, 2009

“Para falar ao vento, bastam palavras.
Para falar ao coração, são necessárias obras.”

Padre António Vieira (Lisboa, 6/2/1608 – Bahia, 18/7/1697)
(“Paiaçu”)
Religioso, Prosador e pensador, orador do séc. XVII.

Maria Assunção Vilhena – Sines e o Banho de 29
Agosto 29, 2009

“(…) chamava-se o banho de 29 e dizia-se que valia por nove. Todos procuravam tomar banho nesse dia que aumentava de nove o número dos que efectivamente tomavam.

Não eram só pessoas que recebiam essa benesse do mar, mas também bois, vacas, cabras, ovelhas…

Muito antes do sol nascer, os lavradores dos campos mais próximos dirigiam-se à praia com os seus rebanhos ou manadas para tomarem esse banho virtuoso.

Apesar da hora matutina, havia muitos espectadores; até nós e os nossos vizinhos!
As nossas mães faziam-nos sair da cama muito cedo para irmos assistir àquele espectáculo que era muito divertido; os pastores tinham um trabalho difícil para obrigarem os animais a entrarem na água: armados de grossos cajados, distribuíam pancada a torto e a direito a faziam uma gritaria que se misturava com o berrar das cabras, o balir das ovelhas, o mugir dos bois e vacas e o rolar das ondas.

Depois do banho do gado, era o das pessoas. Toda a gente queria banhar-se para receber o benefício dos nove banhos; pessoas de todas as idades, mesmo velhos trôpegos encostados a cajados penetravam na água gelada, mal se aguentando em pé com tanto tiritar ou com o ímpeto das ondas. Às vezes, era necessário pescar alguns alguns que não conseguiam sair da água senão ao colo e tinham de ser aquecidos com umas copadas de aguardente, além de mantas e de fatos de fazenda, como em pleno Inverno…

Durante toda a manhã nos divertíamos à custa dos outros, mas quando chegava a vez do nosso banho era uma fita, porque tínhamos um medo horrível das ondas e da água fria.

Cada um gritava para seu lado, quando os pais ou as vizinhas forçavam os moços e as moças a entrar no mar para aproveitarem a bênção do banho de 29. Se não fôssemos obrigados, molharíamos apenas as pernas até aos joelhos e os mais medricas mesmo só os pés, e lá se iam embora nove banhos miraculosos… Nunca cheguei a saber qual era o valor desses banhos…

Nesse dia, meu pai estava sempre presente como se de grande festa se tratasse. Alugava um barquito com o respectivo remador e levava-nos a passear na baía. Disso gostava eu muito, porque a água transparente mudava de cor: ora era azul, ora era verde, mas sempre deixando ver cardumes de peixes prateados que passavam rente ao casco do barco. (…)”

VILHENA, Maria Assunção, in Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém, 1925)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e leccionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e escreveu obras neste âmbito.

Gentílicos ou Patrios de: Castelo de Vide, Chaves, Coimbra, Colares, Corvo e Covilhã (continuação)
Agosto 17, 2009

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.
Eis alguns, nacionais:

Castelo de Vide——- castelo-vidense

Chaves——————– flaviense

Coimbra —————– conimbriense, coimbrão, coimbrense

Colares—————— colarejo

Corvo ——————- corvino, corvense

Covilhã—————– covilhanense

(continua)

Matilde Rosa Araújo – Bailia Primeira
Agosto 2, 2009

Vamos bailar! Ai bailar,
Vamos bailar a bailia:
Ai! Quando eu bailo contigo,
à meia-noite é meio-dia.

ARAÚJO, Matilde Rosa, in O Cantar da Tila

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 18/6/1921)
Contista, poetisa e novelista com prevalência na literatura infanto-juvenil, professora, licenciada em Filologia Românica.

José Carlos de Vasconcelos – Meu Artesanato é de Gaivotas
Agosto 1, 2009

Meu artesanato é de gaivotas
no mar e no céu,
duro ofício de asas e vento.
Levanto-me de madrugada e começo o corropio
na oficina, o desacato de luz inicial:
nuvens, sal, tintas,
tudo num enorme desalinho.

Esmero-me no trabalho das mãos.
Conjugar sargaço e música – eis o desafio.
Aparelho-me de paciência e barro,
lixo, minhocas, peixe miúdo.
Amaino-me de fúrias, alturas excessivas.
A ciência do voo é a mais difícil. E exige arte.

Às vezes, a ensaiar, despenha-se uma gaivota.
E lá se parte o lume. São mil cacos,
mil estrelas vivas pelo chão.
Penso então mudar de ofício.
Dedicar-me aos pássaros de gaiola.
Ou a outro ramo, sem os segredos do vento,
de um simples saber exacto.

Mas quando vejo as gaivotas no mar e no céu
é um tão grande contentamento
que volto sempre ao meu velho artesanato.

José Carlos de Vasconcelos (Freamunde, Paços de Ferreira, 10/9/1940)
Poeta, jornalista, advogado, Director do Jornal de Letras e coordenador editorial da revista Visão