Maria Assunção Vilhena – Sines e o Banho de 29

“(…) chamava-se o banho de 29 e dizia-se que valia por nove. Todos procuravam tomar banho nesse dia que aumentava de nove o número dos que efectivamente tomavam.

Não eram só pessoas que recebiam essa benesse do mar, mas também bois, vacas, cabras, ovelhas…

Muito antes do sol nascer, os lavradores dos campos mais próximos dirigiam-se à praia com os seus rebanhos ou manadas para tomarem esse banho virtuoso.

Apesar da hora matutina, havia muitos espectadores; até nós e os nossos vizinhos!
As nossas mães faziam-nos sair da cama muito cedo para irmos assistir àquele espectáculo que era muito divertido; os pastores tinham um trabalho difícil para obrigarem os animais a entrarem na água: armados de grossos cajados, distribuíam pancada a torto e a direito a faziam uma gritaria que se misturava com o berrar das cabras, o balir das ovelhas, o mugir dos bois e vacas e o rolar das ondas.

Depois do banho do gado, era o das pessoas. Toda a gente queria banhar-se para receber o benefício dos nove banhos; pessoas de todas as idades, mesmo velhos trôpegos encostados a cajados penetravam na água gelada, mal se aguentando em pé com tanto tiritar ou com o ímpeto das ondas. Às vezes, era necessário pescar alguns alguns que não conseguiam sair da água senão ao colo e tinham de ser aquecidos com umas copadas de aguardente, além de mantas e de fatos de fazenda, como em pleno Inverno…

Durante toda a manhã nos divertíamos à custa dos outros, mas quando chegava a vez do nosso banho era uma fita, porque tínhamos um medo horrível das ondas e da água fria.

Cada um gritava para seu lado, quando os pais ou as vizinhas forçavam os moços e as moças a entrar no mar para aproveitarem a bênção do banho de 29. Se não fôssemos obrigados, molharíamos apenas as pernas até aos joelhos e os mais medricas mesmo só os pés, e lá se iam embora nove banhos miraculosos… Nunca cheguei a saber qual era o valor desses banhos…

Nesse dia, meu pai estava sempre presente como se de grande festa se tratasse. Alugava um barquito com o respectivo remador e levava-nos a passear na baía. Disso gostava eu muito, porque a água transparente mudava de cor: ora era azul, ora era verde, mas sempre deixando ver cardumes de peixes prateados que passavam rente ao casco do barco. (…)”

VILHENA, Maria Assunção, in Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém, 1925)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e leccionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e escreveu obras neste âmbito.

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