Archive for Novembro, 2009

Sebastião da Gama na Voz Amiga de Luís Filipe Lindley Cintra (continuação)
Novembro 23, 2009

“(…) Aquele solitário habitante do Portinho da Arrábida, “perfeito amador” da Serra e da solidão, sentia uma necessidade imperiosa de se aproximar dos outros homens, quando se encontrava entre eles.
Fazia-o sem nenhum espécie de reserva: abrindo-se, dando-se a eles numa entrega total. Assim se manteve sempre: por maiores que tenham sido as desilusões, nunca pôde nem quis abandonar esta atitude, a única em que podia estar sem constrangimento.

Em breve nos tornámos amigos. Foi graças a essa amizade que comecei, a partir de 1943, a ser um dos primeiros a conhecer os poemas que viriam a formar Serra-Mãe.

Chegava da Arrábida e recitava-me os versos acabados de compor. Pude assim sentir de perto como o Poeta vivia a sua poesia. Ao recitar os seus poemas, como que se transfigurava: os seus olhos brilhavam, todo o seu corpo vibrava e parecia acompanhar a voz, que articulava lentamente cada verso. (…)”

GAMA, Sebastião,Serra-Mãe

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

Cláudia Galhós – O Sonho
Novembro 22, 2009

“O sonho é motor de criaçao, de acção e de existência. (…) mas para o sonho poder ser sonhado tem de haver uma base real que o vá alimentando e, no meu caso, é o jornalismo, mas na área da cultura, para estar vulnerável ao espanto. Mas hoje em dia é preciso ter muita coragem para sonhar.”

Cláudia Galhós (Lisboa, 1972)
Jornalista e escritora.

José Régio – Falar de Deus
Novembro 22, 2009

” Diga o que diga é só falar de Deus”

José Régio pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
(Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia.

Sebastião da Gama na Voz Amiga de Luís Filipe Lindley Cintra
Novembro 22, 2009

“Conheci-o no Verão de 1942, candidato à admissão na Faculdade de Letras. Tinha ele então dezoito anos. Impressionavam, desde o primeiro contacto, a sua espontaneidade, a sua franqueza, a vivacidade e a pureza do seu olhar, e também a sede de convivência, de comunicação, que o levava a entrar rapidamente em contacto com todos os que o rodeavam.

Havia de observar depois, na Faculdade, como essas primeiras impressões tinham fixado aspectos constantes e profundos da sua personalidade. (…)”

(continua)

GAMA, Sebastião, Serra-Mãe

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

Miguel Torga – O Silêncio
Novembro 22, 2009

“Coimbra, 23 de Novembro de 1987 – O silêncio. A carapaça dorida com que me defendi sempre do alarido agressivo dos outros, sem me trair nem lhes dar corda.”

TORGA, Miguel, Diário

Miguel Torga
(São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico

Luís de Camões – Cantiga para Leanora
Novembro 22, 2009

MOTO
Descalça vai para a fonte
Leanor pela verdura;
vai fermosa e não segura

VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelo d´ouro o trançado,
tão linda que o mundo espanta;
chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa e não segura.

Luís de Camões (1517 e 1524(?) – Lx. 10/6/1580)
O maior poeta português de todos os tempos

Al Berto – A Madressilva
Novembro 22, 2009

“foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida”

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lx, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

As Dúvidas do Zé-Concertina – Estada e Estadia
Novembro 22, 2009

Conversa entre o Zé-Concertina, as Vogas e outras Mais…

– Ó “ti´Manel,” não seja teimoso! Está para aí com os cabelos em pé, que até parece um leão, e a atirar gafanhotos para o bigode sem precisão nenhuma – insistia o Sr. Zé-Concertina, ao balcão da tasca do Sr. Valentim.
Então se eu já lhe disse e redisse que a Menina e mais a professora, a Sr.ª D. Linguesa, explicaram-me tudo, porque é que não quer perceber?

– Mas quem é que você se julga para estar a dar-me lições? – questionou o “ti´ Manel”, que andava arreliado com a vida e afogava as mágoas nuns copázios de aguardente.

– Pois eu reafirmo: O Capitão Pato prevê a estadia no porto de Sines até 5.ª feira, e ao “ti´Manel” desejo uma boa estada aonde for passar férias com a sua patroa. Eu até escrevi tudo num papelinho, que tenho aqui na algibeira, quer ver?

– Mostre-me lá, mas não pense que me convence – desafiou o “ti´Manel”.

– Eu vou ler – afirmou o Sr. Zé-Concertina com um papelinho amarrotado na mão:

Estadia – “demora que o capitão do navio fretado para transporte de mercadorias é obrigado a fazer no porto.” É um termo da linguagem náutica.

Estada – “acto de estar”, é uma palavra derivada de estar, pertence à linguagem comum.

– Vou pensar no seu assunto, Zé-Concertina e depois falamos! Venham daí dois bagacinhos, Valentim, um para mim, outro para este meu amigo – retorquiu o “ti´Manel”, batendo nas costas do Sr. Zé-Concertina.

– Obrigado, “ti´Manel”, mas eu prefiro um sumol, já que não se fazem prirolitos e uma garrafa de gasosa é logo para sete. – adiantou o Sr. Zé-Concertina.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Cabo Verde: Jornal Certeza
Novembro 22, 2009

Mindelo, São Vicente, 1944. Foram publicados apenas dois números, pois a Censura proibiu a saída do terceiro.

Certeza apela, na voz dos seus organizadores, alunos dos Liceu Gil Eanes: Nuno Miranda, José Spencer, Arnaldo França, SIivestre Faria, Guilherme Rocheteau, Filinto Menezes e Tomaz Martins, e colaboradores: Eduíno Brito, Nuno MIranda, Orlanda Amariles, Teixeira de Sousa e os metropelitanos: Maria Guilhermina, Manuel Ferreira (ou Luís Pinto e Luís Terry (goês), entre outros, a uma perspectiva da vida influenciada pealo Movimento Neo-Realista português – Afonso Ribeiro, Alves Redol,Carlos de Oliveira, Fernando Namora Joaquim Namorado, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Soeiro Pereira Gomes, Vergílio Ferreira.

Eis como alguns se expressam:

Arnaldo França
“Amigo cabo-verdiano, camarada jovem dos brancos do liceu, se pensas iniciar uma literatura viva e humana em que traduzas bem, ou mal, as angústias e as esperanças dos teus irmãos de raça, o teu jornal é este.”

“O nosso jornal é uma lápide. Uma lápide que contará tudo aquilo que nos animou na aleluia deslumbrante dos nosso dezoito anos.” – últimas linhas do n.º 1.

“Partir
deixar a ilha tão pequena
que o vento nómada
bafeja
e as onds do mar
rodeiam”

António Nunes – residente em Lisboa
“Mamãe!
Sonho que um dia,
estas letras de terra que se estendem, quer seja Mato Engenho, Dàcabalaio ou Santana,
filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
Serão nossas”

Nuno Miranda
“Oh, esse momento d´oiro
em que tombaram, um por um, os deuses!”

Certeza não se revestia exclusivamente de poesia. Nos seus escassos números surgiram outros temas:
– a mulher e o sue papel participante – Orlanda Amariles;

– questões locais e reflexões sobre a actividade literária – José Spencer;

– um conto – José Spencer;

– condições sócio- económicas do estudante cabo-verdiano – Nuno Miranda.

(continua)

Agostinho de Silva – A Paixão e o Amor
Novembro 19, 2009

“(…) no amor o sujeito pode ser activo, mas a paixão é passiva (…).
Ora o amor é activo, portanto criador; a paixão já não, dado que o ser foi dominado por alguma coisa.
Quando se diz: estou apaixonado por isto ou por aquilo, no fundo também podemos dizer, se quisermos, estou dominado por isto ou por aquilo. A pessoa que se apaixona por outra tem tendência a obedecer-lhe…
(…)
Sinto-me cada vez mais apaixonado, mas por coisas que a matemática não prova que existem, isto é, por religião. (…)”

Agostinho da Silva (Porto,13/2/1906 – Lisboa, 3/4/1994)
Filósofo, poeta, ensaísta, professor, licenciado em Filologia Clássica (1929), doutorado com louvor (1929), colaborador da Revista Seara Nova, fundador do Núcleo Pedagógico Antero de Quental (1939), co-fundador de universidades no Brasil, criador de Centros de Estudos.