Archive for Janeiro, 2010

Eugénio de Andrade – As Maçãs
Janeiro 20, 2010

Também ele vai morrer, o verão.
Do verde ao vermelho
as maças ardem sobre a mesa.
Ardem de uma luz sua, mais madura.
E servem-me de espelho.

Hospital de Santo António, 21/7/2002

Eugénio de Andrade(Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, , nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Eugénio de Andrade – Prémio Vida Literária (2000)
Janeiro 20, 2010

Entrega do Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE) a Eugénio de Andrade pelo Presidente da República Jorge Sampaio na Culturgeste, em Lisboa, no dia 8 de Maio de 2000.

Eugénio de Andrade – Os Amigos
Janeiro 20, 2010

“Os meus amigos desempenham o papel de anjos da guarda. Eu não lhes peço isso, naturalmente, mas desempenham-nos: talvez sejam o pai e a mãe que já não tenho, o irmão que nunca tive.”

Eugénio de Andrdae (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Glória de Sant´Anna –O Pescador Velho
Janeiro 17, 2010

Pescador vindo do largo
com o teu cabelo de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face

a tua face marcada
peço sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar

– nesta água não tem peixe –

pescador dá-me um só peixe
nem garopa nem xaréu
só um peixinho de prata

– nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
prò lado do Zanzibar.

Glória de Sant´Anna (Lisboa, 1925 – 2/6/2009)
Poetisa, colaboradora de publicações em Moçambique, onde viveu de 1951 a 1975, professora.

António Feliciano de Castilho – “Índole” das Cinco Vogais e das Consoantes em Português
Janeiro 17, 2010

“O A é brilhantes e arrojado;

o E ténue e incerto;

o I subtil e triste;

o O animoso e forte;

o U carrancudo e turvo.

Se ousassemos não temer o ridículo, compararíamos o tom da A à harpa; o E ao machete; o do I ao pífaro; o do O à trompa, o do U ao zabumba.

Tem cada uma das letras consoantes, pelo material do seu proprio som, e pelas relações que se dão entre elle e alguns outros da Natureza, um caracter distinto, que muito pode contribuir para acrescentar às palavras o seu effeito.

O B e o P exprimem percussão súbita.

O D e o T, o mesmo, porém com mais energia.

O C com valor de Z, e o Z, zunido.

O F é  Ph com valor de F, e o V, os sons análogos (como quer que seja) ao bufar dos gatos.

O G com valor de J, e o J, o X com valor de Ch, e o Ch, e o S e Z finaes, o correr dos liquidos.

O C com o valor de K, e o K, e o Q, e o G com o valor áspero, aspereza, escabrosidade e resistencia.

O L, estalido.

O Lh, esmiunçamento, ou divisão em miudos.

O M, affecto mavioso, servindo em fim de syllaba para augmentar e ressonancia.

O R sons fortes e trémulos.”

CASTILHO, António Feliciano, Tratado de Metrificação Portuguesa.

Maria Ondina Braga – De Volta das Aulas
Janeiro 13, 2010

– “Às tardes, de volta das aulas, neste meu estreito quarto atravancado de livros, olho em redor as paredes brancas, onde se destaca o colorido de uma ventarola chinesa, e depois o meu próprio rosto no espelho. Então, como a madrasta da Branca de Neve diante do cristal mágico, pergunto: “Haverá alguém mais triste do que eu?”

Maria Ondina Braga (Braga, 13/1/1932 – Braga, 14/3/2003)
Contista, romancista, tradutora, autora de diversas publicações, professora – Goa, Angola e Macau.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Noémia de Sousa – Negra
Janeiro 13, 2010

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros
[mundos

quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias…
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante
[sensual,

jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia…
e não sabemos quantas outras palavras vistosas
[e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra…
menos tu.

E ainda bem,
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada neste sílaba imensa e luminosa: MÃE

Noémia de Sousa (Cambe, Moçambique, 20/09/1926 – Cascais, 2003)
Poetisa e jornalista.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José Craveirinha – Versos para o Pai
Janeiro 13, 2010

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!

José Craveirinha (Lourenço Marques, 28/5/1922 – Maputo, 6/2/2003)
O maior poeta de Moçambique, galardoado com o Prémio Camões em 1991.

Carlos Nejar – Os Meus Sentidos
Janeiro 11, 2010

Um dia vi Deus numa palavra 

e luminosa despontava, argila. 

E Deus vagueava tudo, aquietava

 as numinosas letras, quase em fila.

E depois se banhava nesta ilha 

de bosques e bilênios. Clareava 

as formigas noctâmbulas da fala. 

E nele os meus sentidos se nutriam.

Os meus sentidos eram coelhos ébrios

 na verdura de Deus entretecidos. 

A palavra empurrava o que era cego,

a palavra luzia nos sentidos. 

E Deus nas vistas do menino, roda 

e roda nos olhos da palavra.

Carlos Nejar
(Brasil, Porto Alegre, 11/1/1939)
Poeta, ficcionista, tradutor, crítico, membro da Academia Brasileira de Literatura, conhecido por “poeta do pampa brasileiro”.

Al Berto – Um Presente no Dia do seu Aniversário
Janeiro 11, 2010

Como Pintar o Mar

Contaram-me que deram tintas e papel
a uma criança que só em sonhos
tinha avistado o mar
e no fundo dele peixes, como flores amarelas…
…búzios às risquinhas azuis e brancas,
algas cor de pimenta…

A criança levantou-se e
dirigiu-se para a imensa folha de papel,
ergueu o pincel e espalhou
tinta azul, depois mais azul…
…branco diluído nuns sítios,
azul espesso e profundo noutros…

Repentinamente apercebeu-se
que faltavam os peixes e as gaivotas
de que não se lembrava…
Então
mergulhou o pincel na tinta branca e povoou
a superfície das águas com aves,
e o fundo do mar com os peixes
maravilhosos do seu sonho…
(1982)

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)

Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares

Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.