Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Noémia de Sousa – Negra

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros
[mundos

quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias…
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante
[sensual,

jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia…
e não sabemos quantas outras palavras vistosas
[e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra…
menos tu.

E ainda bem,
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada neste sílaba imensa e luminosa: MÃE

Noémia de Sousa (Cambe, Moçambique, 20/09/1926 – Cascais, 2003)
Poetisa e jornalista.

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