António Feliciano de Castilho – “Índole” das Cinco Vogais e das Consoantes em Português

“O A é brilhantes e arrojado;

o E ténue e incerto;

o I subtil e triste;

o O animoso e forte;

o U carrancudo e turvo.

Se ousassemos não temer o ridículo, compararíamos o tom da A à harpa; o E ao machete; o do I ao pífaro; o do O à trompa, o do U ao zabumba.

Tem cada uma das letras consoantes, pelo material do seu proprio som, e pelas relações que se dão entre elle e alguns outros da Natureza, um caracter distinto, que muito pode contribuir para acrescentar às palavras o seu effeito.

O B e o P exprimem percussão súbita.

O D e o T, o mesmo, porém com mais energia.

O C com valor de Z, e o Z, zunido.

O F é  Ph com valor de F, e o V, os sons análogos (como quer que seja) ao bufar dos gatos.

O G com valor de J, e o J, o X com valor de Ch, e o Ch, e o S e Z finaes, o correr dos liquidos.

O C com o valor de K, e o K, e o Q, e o G com o valor áspero, aspereza, escabrosidade e resistencia.

O L, estalido.

O Lh, esmiunçamento, ou divisão em miudos.

O M, affecto mavioso, servindo em fim de syllaba para augmentar e ressonancia.

O R sons fortes e trémulos.”

CASTILHO, António Feliciano, Tratado de Metrificação Portuguesa.

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