Archive for Novembro, 2010

Almada Negreiros – Confidências
Novembro 28, 2010

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contra histórias ricas
que ainda não viajei. Traze tinta encarnada para escrever
estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro,
encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça nãos e
lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu
prometo saber viajar.

Quando voltar á para subir os degraus da tua casa,
um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa
casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e
eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,
tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com
as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-
cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da
nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa,
como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo
tão verdade!

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

Anúncios

Rita Ferro – “Olha lá, menina / Mãe” (Bilhetes)
Novembro 26, 2010

Lisboa, sábado, 21 de Junho de 1997

Olha lá, menina:

Aquele teu amigo de ontem, de ar freak, que levou a intervalo inteiro a falar de direitos humanos, completamente a despropósito, não me agradeceu o bilhete de cinema.
Achas normal?

(Na mesma noite, escrito no verso do bilhete)

Mãe:

Lembrei-me da sua amiga que esteve cá a semana passada a pedir ao meu amigo Barroso, com um ar romântico, que a levasse a casa depois do jantar.
Acha mais normal?

P.S. Deixe-me dinheiro para a ginástica, please.”

FERRO, Rita e GAUTIER, Marta,  Desculpe lá, Mãe!

Rita Ferro (Lisboa, 26/2/1955)
Romancista, cronista, colaboradora em jornais, revistas e programas de rádio e TV, filha de António Quadros e neta dos escritores Fernanda de Castro e António Ferro.

Lopes Morgado – A Conta
Novembro 26, 2010

Nove vezes dez noventa.
Cê. Está certa. Muito bem.
Podes guardar a sebenta,
Minha mãe.

Está na hora do recreio!

MORGADO, Lopes, Mulher Mãe

Lopes Morgado (Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938)
Sacerdote – Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos – , professor, escritor, poeta, jornalista.

Raul Brandão – A Alma e o Amor
Novembro 26, 2010

“A alma, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria.

Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia tomar cor.

Há seres cuja alma é uma contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda – imensa, dorida, frenética.

Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar.

O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. Assim é que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus.”

Raul Brandão (Foz do Ouro, 12/3/1867 – Lisboa, 5/12/1930)
Escritor, jornalista e militar.

Vinicius de Moraes – Duas Canções do Silêncio
Novembro 26, 2010

Ouve como o silêncio
Se fez de repente
Pra o nosso amor

Horizontalmente…

Crê apenas no amor
E em mais nada
Cala; escuta o silêncio
Que nos fala
Mais intimamente; ouve
Sossegada
O amor que despetala.
O silêncio…

Deixa as palavras à poesia…

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Florbela Espanca – Um Homem
Novembro 26, 2010

“Um homem! – Quando eu sonho o amor de um Deus!…!

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

António Ferreira – A Portuguesa Língua
Novembro 26, 2010

(…) Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
A Portuguesa língua, e já onde for.
Senhora vá de si, soberba e altiva.
Se téqui esteve baixa e sem louvor,
Cullpa é dos que a mal exercitaram,
Esquecimento nosso e desamor. (…)

In: “Carta III” a Pero D´Andrade Caminha, in: Poemas Lusitanos, Lisboa, 1598

António Ferreira (Lisboa, 1528 – Lisboa, 29/11/1569)
Poeta, dramtaurgo e humanista, considerado o horácio português, doutorado em Cânones.

Maria Alberta Menéres – A Revolução da Inteligência
Novembro 26, 2010

“É esta necessidade de mobilização da inteligência e da criatividade de todos que eu chamo a revolução da inteligência.”

MENÉRES, Maria Alberta, Imaginação

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Al Berto – Lágrimas e Alegria
Novembro 26, 2010

” Mas não há lágrimas na verdadeira tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria fundas, escuras, como as minas escavadas, ano, após ano, para procurar um veio de ouro.”

AL BERTO, Degredo no Sul

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lx, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Eugénio de Andrade – O Melhor do Alentejo
Novembro 26, 2010

“O melhor do Alentejo é uma liberdade que escolheu a ordem, o equilíbrio (…), é aquele horizonte onde o olhar se estende e consome, e a solidão sobe alta como a lua.”

ANDRDAE e ALVES, Eugénio de, e Armando, Alentejo

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários.