Archive for Dezembro, 2010

Miguel Torga – Natal
Dezembro 26, 2010

Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.

TORGA, Miguel, Antologia Poética

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

David Mourão-Ferreira – Natal, e não Dezembro
Dezembro 26, 2010

Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.

MOURÃO-FERREIA, David, Cancioneiro do Natal

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24/2/1927 – 16/6/1996)
Poeta, novelista, romancista, ensaísta, colaborador de múltiplos jornais e revistas, co-fundador da revista Távola Redonda, professor, licenciado em Filologia Românica.

Jorge de Sena – Natal de 1971
Dezembro 26, 2010

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
As cinzas de milhões?
Natal de paz agora
Nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
Num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
Roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
Em ser-se concebido,
Em de um ventre nascer-se,
Em por de amor sofrer-se,
Em de morte morrer-se,
E de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
Quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
Num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
Com gente que é traição,
Vil ódio, mesquinhez,
E até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Ou dos que olhando ao longe
Sonham de humana vida
Um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
E torturados são
Na crença de que os homens
Devem estender-se a mão?

SENA, Jorge de, Exorcismos

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/78)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

Fernando Pessoa – Natal
Dezembro 26, 2010

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

PESSOA, Fernando, Obra Poética

Fernando Pessoa (Lisboa 13/6/1888 – Lisboa, 30/11/1935 )
Poeta, escritor e tradutor, distinguiu-se pela criação de heterónimos, que o tornaram famoso.

António Gedeão – Dia de Natal
Dezembro 26, 2010

Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,

de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997), Pseudónimo de Rómulo de Carvalho
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência Físico-Químicas.

Ferreira Gullar – O Mundo e a Poesia
Dezembro 20, 2010

“O mundo não precisa da poesia para continuar chato como ele é.

Precisa da poesia para lhe dar beleza, um pouco de deslumbramento, é para isso que os poetas servem, não servem para aliviar dor de dentes, cancro, salvar a vida de alguém. Serve para isto: criar a ilusão de que a vida é melhor do que é.”

Ferreira Gullar (S. Luiz, Maranhão, 10/9/1930 – Rio de Janeiro, 04/12/2016)
Pseudónimo de José Ribamar Ferreira
Poeta, crítico de arte, ensaísta, memorialista, biólogo.
Galardoado com o Prémio Camões em 2010.

José Leite de Vasconcelos – Inquérito na Ilha do Corvo, 1924
Dezembro 20, 2010

José Leite de Vasconcelos (Ucanha, 7/7/1858 – Lisboa 14/5/1941)
Linguista, filólogo, etnólogo, fundador da Revista Lusitana, 1887 e de O
Arqueólogo Português, 1895.

Maria Teresa Rita Lopes – Dia a Dia
Dezembro 20, 2010

Dia

a

dia

noite

a

noite

pedra

a

pedra

palha

a

palha

tronco

a

tronco

cuspo

a

cuspo

gesto

a

gesto

passo

a

passo

flor

a

flor

se faz um ninho

um caminho

um amor

Maria Teresa Rita Lopes (Faro, 12/9/1937)
Ensaísta, poetisa, dramaturga, investigadora, uma das maiores especialistas contemporâneas sobre Fernando Pessoa, professora catedrática, licenciada em Filologia Românica – FLUL-, doutorada pela Sorbonne.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Agostinho Neto – Criar
Dezembro 20, 2010

Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a floresta impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar

Agostinho Neto (Catete, Angola, 17/9/1922 – Moscou, Brasil, 10/9/1979)
Médico, poeta, político, 1.º Presidente de Angola.

criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o escárneo da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.

Agostinho Neto (Catete, Angola, 17/9/1922 – Moscou, Brasil, 10/9/1979)

Marina Colassanti – Preciso
Dezembro 20, 2010

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe e o vento frio batendo nas escamas.

Marina Colassanti (Asmara, 26 /9/1937)
Contista, cronista, poetisa, autora de literatura infantil e infanto-juvenil e jornalista, esposa do poeta e escritor Affonso Romano de Sant´Anna