Archive for Janeiro, 2011

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Daniel Filipe – Romance de Tomasinho Cara-Feia
Janeiro 23, 2011

Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destinho.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.

— E nunca mais voltará!

Daniel Filipe (Cabo-Verde, 1925 – Cabo Verde, 1964)
Poeta, jornalista colaborador nas revista Seara Nova e Távola Redonda, co-director dos Cadernos do Bloqueio.

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António Ramos Rosa – Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo
Janeiro 23, 2011

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador.
Marido da poetisa Agripina Costa Marques

José Saramago – As Palavras São Novas
Janeiro 23, 2011

As palavras são novas: nascem quando
No ar as projectamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias.

Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias

José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 – Lanzarote, 18/06/2010)

Romancista, contista, poeta, dramaturgo, argumentista, jornalista, galardoado com o Prémio Nobel de 1998.

Francisco José Viegas – Repetição de Palavras
Janeiro 23, 2011

Repito-me tanto, tantas vezes
me surgem as mesmas palavras,
que julgo ser engano do mundo.
ser tão igual o seu nomear.

Francisco José Viegas (Vila nova de Foz Côa, 14/3/1962)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, relator de viagens, cronista com o heterónimo António Sousa Homem, jornalista, licenciado em Estudos Portugueses.

O Alfabeto Português – A Sua Pronúncia, Valores de S
Janeiro 12, 2011

1. Lê-se z entre vogais.

Ex.: Casa; mesa.

2. Quando, entre vogais, quisermos o som s, temos de escrever ss.

Ex.: Pêssego; massa.

3. Lê-se s em início de palavra.

Ex.: Saber.

4. Lê-se s no meio de palavra quando precedido de consoante.

Ex.: Penso; falso.

5. Lê-se em final de palavra ou sílaba.

Ex.: Nós; pasta.

Agostinho de Silva – Poesia
Janeiro 12, 2011

“Tanto há poesia em fazer versos como em fazer matemática ou olhar aquela nuvem e dizer que se parece um crocodilo.”

Agostinho da Silva (Porto,13/2/1906 – Lisboa, 3/4/1994)
Filósofo, poeta, ensaísta, professor, licenciado em Filologia Clássica (1929), doutorado com louvor (1929), colaborador da Revista Seara Nova, fundador do Núcleo Pedagógico Antero de Quental (1939), co-fundador de universidades no Brasil, criador de Centros de Estudos.

Agustina Bessa Luís – O Político
Janeiro 12, 2011

“O político não pode ser uma pessoa vulgar. Tem de ser capaz de viver o sofrimento sem que este seja um castigo. Tudo o que nós vemos de incapacidade nos políticos deve-se à inexistência desse treino.”

Agustina Bessa Luís (Vila Meã, Amarante, 15/10/1922)
Pseudónimo de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa
Romancista, dramaturga, novelista, contista, ensaísta, autora de biografias e literature infantisl, colaboradora de diversas publicações periódicas, detentora de vários prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2004.

Pedro Tamen – A Criança e o Livro
Janeiro 12, 2011

“Um livro dá-se a uma criança na mesma altura em que se lhe dá uma bola, uma roca, um guizo.

O livro é, antes de mais, um objecto a que ela se vai habituando. Como se habitua ao brinquedo. Criada essa habituação, o caminho está preparado para que ela se torne num consumidor de livros.

Mas nós, por cá, achamos que os meninos só têm direito a livros a partir do momento em que já sabem ler… É tarde. Às vezes tarde de mais.”

Pedro Tamen (Lisboa, 1/12/1934)
Poeta, crítico literário, tradutor, professor, licenciado em Direito.

Alice Vieira – Escrita para Homens e Meninos
Janeiro 12, 2011

“Escrevo “para os homens que nunca foram meninos” como dizia Soeiro Pereira Gomes, mas sobretudo para tentar que os meninos de hoje sejam meninos na altura certa.

É uma coisa que me aflige, e já passaram alguns anitos desde os Esteiros, mas ainda há muitos homens que nunca foram meninos e há meninos que nascem condenados a serem homens rapidamente.”

Entrevista ao JL, 1986

Alice Vieira (Lisboa, 1943)
Jornalista e escritora, licenciada em Filologia Germânica.

Mário Castrim – A Letra Q
Janeiro 9, 2011

Estou sempre muito longe.
Dizem qualquer coisa e eu pergunto:

– Quê?

Pergunto sempre:

– Quê?

Não sei porquê.

O meu amigo V
Zanga-se e diz:

És surdo ou quê?

E eu repondo sinceramente:

– Sou quê.

CASTRIM, Mário, Estas são as Letras

Mário Castrim (Ílhavo, 31/7/1920 – Lisboa, 15/10/2002)
Pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca.
Jornalista, contista, autor de literatura infantil e juvenil, poeta, ensaísta, marido d e Alive Vieira e pai da jornalista e escritora Catarina Fonseca.