Archive for Fevereiro, 2011

Casimiro de Brito – O Amor
Fevereiro 14, 2011

Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.

Casimiro de Brito (Loulé, 1938)
Poeta, ensaísta e ficcionista.

Manuel da Fonseca –Menino
Fevereiro 12, 2011

No colo da mãe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mãe
vem e vai
vai e vem
a esperança.

Ao sonhado
futuro
sorri a mãe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.

De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.

Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.

Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um português.

Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
Só nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.

Manuel da Fonseca (Santiago de Cacém, 15/10/1911-11/3/1993)
Poeta, romancista, contista e cronista, membro do Grupo Novo Cancioneiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Luís de Camões – O Que Parece
Fevereiro 12, 2011

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça esta vida
Que não há nela mais que o que parece.

Luís de Camões (1517 e 1524(?) – Lx. 10/6/1580)
O maior poeta português de todos os tempos

As Dúvidas do Zé-Concertina – Ambrózia e Ambrosia
Fevereiro 12, 2011

Conversa entre o Zé Concertina, as  Vogais e Outras Mais…

– Bom dia, Sr. Zé-Concertina! Há tanto tempo que não o via!

– Bom dia, Menina Vogal i! Como tem passado?

– Bem, muito obrigada! E o Sr.?

– Hum! Tenho andado um bocadinho atrapalhado com dores nas costas, deve ser o reumático a querer entregar comigo, mas isto passa, obrigado!
Ó Menina, ando cá com uma dúvida! Pode esclarecer-me, se faz favor?

– Com certeza, Sr. Zé-Concertina! Diga, diga!

– Então cá vai! Há dias, o Tóino perguntou ao Sr. Alves pela esposa, a D. Ambrózia. Esta tarde, o Dr. Augusto pediu ao Valentim para preparar uma ambrosia para jantar com uns amigos. Não percebi nada disto, Menina i

– Calma, Sr. Zé-Concertina! Vou explicar-lhe: Ambrózia, a palavra escrita com letra maiúscula, com acento no ó e z é um antropónimo, isto é, um nome próprio. Mas ambrosia, com letra minúscula, sem acento e com s é um substantivo comum, que significa manjar.

– Então quer dizer que são palavras que se dizem da mesma forma, mas escrevem-se doutra maneira, como acento das palavras e assento onde uma pessoa se senta?!…

– Não é bem assim, Sr. Zé.Concertina! Não são palavras homófonas! O que acontece é que as pessoas pronunciam mal as palavras, porque o nome próprio, é acentuado no ó e o nome comum no i.

– Ó Menina Vogal i, mas que grande confusão! Deixe-me lá pronunciar, mas o melhor é escrever primeiro, se faz favor, para o Zé fazer boa figura!

– Está bem, Sr. Zé-Concertina! Aqui tem. Ambrózia e ambrosia. Pode ler.

– Obrigada, Menina! Então vamos lá tentar!… Ambrózia e ambrosia.
Esta segunda é mais difícil, tem de se dobrar a língua, por isso é que o povo diz da forma mais simples!

– Muito bem, Sr. Zé-Concertina!

– Obrigado, Menina Vogal! Vou andando!

– Boa tarde, Sr. Zé-Concertina! Até qualquer dia!

Jorge de Sena – Com que então libertos, hein?
Fevereiro 12, 2011

Com que então libertos, hein? Falemos de política,

discutamos de política, escrevamos de política,

vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de

cada um,

essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do

paizinho.

Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos

tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.

E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua

não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,

mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,

uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.

Com o país dividido quase meio século entre os donos da verdade e

do poder,

para um lado, os réprobos para o outro só porque não aceitavam que

não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua

solidão

silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos

de salamaleque,

há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política.

Não apenas pelo prazer tão grande de poder falar livremente

e poder ouvir em liberdade o que os outros nos dizem,

mas para o trabalho mais duro e mais difícil de – parece incrível –

refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só

da energia represa há tanto tempo. Porque é belo e é magnífico

o entusiasmo e é sinal esplêndido de estar viva uma nação inteira.

Mas a vida não é só correria e gritos de entusiasmo, é também

o desafio terrível do ter-se de repente nas mãos

os destinos de uma pátria e de um povo, suspensos sobre o abismo

em que se afundam os povos e as nações que deixaram fugir

a hora miraculosa que uma revolução lhes marcou. Há que

caminhar

com cuidado, como quem leva ao colo uma criança:

uma pátria que renasce é como uma criança dormindo,

para quem preparamos tudo, sonhamos tudo, fazemos tudo,

até que ela possa em segurança ensaiar os primeiros passos.

De todo o coração, gritemos o nosso júbilo, aclamemos gratos

os que o fizeram possível. Mas, com toda a inteligência

que se deve exigir do amadurecimento doloroso desta liberdade

tão longamente esperada e desejada, trabalhemos cautelosamente,

politicamente, para conduzir a porto de salvamento esta pátria

por entre a floresta de armas e de interesses medonhos

que, de todos os cantos do mundo, nos espreitam e a ela.

Jorge de Sena
Santa Bárbara (Califórnia), 2 de Mio de 1974

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/78)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

Fernando Pessoa com a Família
Fevereiro 12, 2011

Durban, casa de campo.

Soror Violante do Céu – Será
Fevereiro 12, 2011

Será brando o rigor, firme a mudança,
Humilde a presunção, vária a firmeza,
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o a mor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.

Soror Violante do Céu(Lisboa, 30/05/1601(ou 1607) – 28/01/1693)
Poetisa e prosadora, autora de uma comédia, aos 16 A, foi conhecida pela Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, Professou em 1630.

valter hugo mãe – Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Trade 
Fevereiro 12, 2011

estou escondido na cor amarga do fim da tarde
estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento

valter hugo mãe (Saurimo, Angola, 25/9/1971)
Poeta, romancista, escritor de literatura infantil, editor, artista plástico, cantor, DJ português.

Eugénio de Andrade – A Música
Fevereiro 12, 2011

Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Ana Margarida Oliveira – O Povo Português
Fevereiro 12, 2011

“Há qualquer coisa no povo português que ainda se vai cumprir. Temos uma estrelinha, apesar de tudo”.

Ana Margarida Oliveira (1963)
Romancista, Professora de Português, licenciada em LLM.