Archive for Março, 2011

Manuel António Pina – A Boca e os Ouvidos
Março 31, 2011

As palavras depõem
contra o coração,
que não quer dizer nada
nem ouvir nada.

As sua mãos alheias
tocam balbuciando
o meu coração.
Como se lhes negará o meu coração ?

A baba do sentido devassa a minha boca
com sórdidos ouvidos.
Como me calarei? Sem que palavras?

Oh, apenas um instante de silêncio,
uma palavra de
harmonia e solidão,
de morte e de indistinção!

Manuel António Pina (Sabugal,18/11/1943)
Jornalista, poeta, autor de literatura infanto-juvenil, dramaturgo, ficcionista, licenciado em Direito.

Ruy Belo – Breve Sonata um Sol [um] (Menos, Claro)
Março 31, 2011

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Edmundo de Bettencourt Amor
Março 31, 2011

Amas de mais, não possuis
o amor que a todos vem.
Quem ama tudo não pode
ser amado por alguém.

Amor de tudo! – ninguém,
mas coração mais fecundo
que, por beijar doutro modo,
só tarde vide no mundo!

DE longe o solnos aquece,
de longe nos abre focos.
(…)
Só chega ao Sol quem tem asas
para um voo longo e leve
– quem antes que a luz o cegou
chega lá desfeito em brasas!

Edmundo de Bettencourt (Funchal, 7/8/1899 – Lisboa, 1/2/1973)
Poeta, um dos fundadores da Presença, uma distinta voz do fado de Coimbra onde estudou Direito.

José Agostinho Baptista –Invocação
Março 31, 2011

Que fazes aqui?
Regressa às tuas fontes.
Cuida do jardim que abandonei,
acende as lâmpadas do sol na vereda que
conduz ao cais.
Levanta-me.
Só tu sabes onde deixei o coração,
quando saí de mim,
quando, num horizonte sem nuvens,
procurei as derradeiras barcas.

José Agostinho Baptista (Funchal, 15/8/1948)
Poeta, tradutor, colaborador em diversas publicações.

António Maria Lisboa – Certos Outros Sinais
Março 31, 2011

Navegamos por águas longe e pelo nevoeiro. A bordo do nosso navio fantasma SOMOS O QUE SOMOS e ao nosso redor apenas o chapinhar das águas misteriosamente calmas de encontro ao casco nos impressiona e informa. Acreditamos que jamais o homem será escravo enquanto houver um só Poeta, isolado e ignorado que seja, a reclamar a si mesmo a decisão ou indecisão magníficas.

O homem não é um “animal”. Esta catalogação é um erro da Biologia.

Agrada-me profundamente saber que eu estou num ponto do Universo que necessita ser esticado para o lado de fora, quero dizer: para a minha frente. Se rebentar é a minha mais profunda aspiração que foi satisfeita!

O Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos paar o Futuro é o Passado que conquistamos!
(…)

António Maria Lisboa (Lisboa, 1/8/1928 – Lisboa, 11/11/1953)
Poeta.

Mário Cesariny – Alquimia do Verbo
Março 31, 2011

agora fiquei triste,. realamente,
emudeci

o que esta boca sente
quando sorri!

o jardim está sem gente
e anda um vago sonho por aí

quando voltar a minha força ausente
hei-de pensar neste alibi

Mário Cesariny (Lisboa, 9/8/1923 – Lisboa, 26/11/2006)
Pintor e poeta, fundador do Movimento Surrealista Português.

Gastão Cruz – Cantar
Março 31, 2011

Este CANTAR dos anos de pobreza
diferente da vida e tão diverso
do poderoso som da esperança

por entre os dentes vis de que se nutre
a sua boca
sopra da aflição a turva música

Este cantar dos anos que a mudança
do canto fez diverso da esperança
é um canto de esperança enquanto canta

Gastão Cruz (Faro, 20/7/1941)
Poeta, crítico literário, encenador.

Luiza Neto Jorge – O Poeta
Março 31, 2011

I

O Poeta é um animal longo
desde a infância

II

Começaria o animal por ser
um movimento lento sob a treva

III

Povoadas estão as salas
por crias não humanas
roedoras criaturas
causticando

Luiza Neto Jorge (Lisboa, 1939 – Lisboa,1989)
Poetisa e tradutora, escreveu para o teatro e para o cinema, é considerada a personalidade poética mais importante da Poesia 61.

Sophia – A Poesia
Março 31, 2011

“A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.”

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

Dificuldades da Língua Portuguesa – Pá?!… Eh, pá!… Ó pá!…
Março 23, 2011

Eh, pá! Passa-me aí a !

Ó pá, espera!

Nos exemplos anteriores, encontramos:

– Pá, nome feminino – instrumento largo e achatado com cabo; braço de uma hélice, remo, etc.; parte da perna dos animais.

– Pá, interjeição – vocativo empregado na linguagem coloquial.
Tinha o significado de rapaz, amigo, mas passou a ser extensivo à rapariga, sendo utilizado pelos dois géneros – tornou-se um bordão pelo seu uso abusivo.