Archive for Abril, 2011

José Gomes Ferreira – Dia 25 de Abril
Abril 25, 2011

“Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:

– O Fafe telefonou de Cascais, … Lisboa está cercada por tropas…

Refilo, rabugento:
– Hã? (…)

Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.

Agora é o Carlos de Oliveira.
– Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?

Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.

Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:

– Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.

De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.

Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!

A Rosália chama-me, nervosa:

– Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço:

– Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!

Também pede à polícia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo). São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! (…)

A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me:

«Não resisti e vim para o escritório».

Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena … Terra da fraternidade… O povo é quem mais ordena…

Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas.

De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. O Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. O Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola.

Novo comunicado das Forças Armadas. O Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).

Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.

A Maria Keil telefonou. O Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! (…)

Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.

Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos… alguns torturados durante dias e noites sem fim…. não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.

E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (…)

Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova-, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Sophia – Caxias 68
Abril 25, 2011

Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia.

Fevereiro de 1968

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Zeca Afonso – A Luta
Abril 25, 2011

“Outra voz outra garganta
Outra mão que se estende à que tombara
Uma fagulha num palheiro acesa
Ó meus irmãos a luta já não pára”.

(Escrito em Caxias)

Zeca Afonso (Aveiro, 02/08/1929 – Setúbal, 23/02/1987)
Compositor e cantar, professor, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Manuel Gusmão – A velocidade da luz
Abril 24, 2011

Há uma rotação do teu corpo
ou de uma parte dele que está pelo todo
e fora dos eixos do mundo.
Rodas a partir da cintura, estendes um braço,
há um músculo que se ilumina, uma onda
vertical em que tu própria te subisses;
então uma perna flecte-se, e o outro pé fica em ponta
oblíquo sobre o mundo que nesse instante
se suspende.

Manuel Gusmão (Évora, 11/2/1945)
Poeta, ensaísta, tradutor, colaborou em diversas publicações, fundador das revistas: Ariane e Dedalus, coordenador da revista Vértice desde 1988, professor universitário.

Alexei Bueno – A Florbela Espanca
Abril 24, 2011

Amada, por que eu tive a tua voz
Depois que o Nada teve a tua boca?
A lua, em sua palidez de louca,
Brilha igual sobre mim, e sobre nós!…

Porém como estás longe, como o algoz
De um só golpe sem fim — a Morte — apouca
Os gritos dos que esperam, a ânsia rouca
Dos que atrás têm seu sonho, os grandes sós!

Aqui não brilha o mundo que engendraste
Como o manto de um deus, e astros sangrentos
Não nos rolam nas mãos da imensa haste.

E só estes olhos meus, que nunca viste,
Se incendeiam, vitrais na noite atentos,
Voltados para o chão aonde fugiste!

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26/4/1963)
Poeta, ensaísta, editor, antologista, tradutor

Ana Paula Bastos – Amizade
Abril 24, 2011

A capacidade de amizades verdadeiras
Só é possível a quem vive
Um amadurecimento afectivo contínuo,
Como algo preponderante na sua vida do quotidiano.
A amizade é a mais bela forma de amor partilhado,
Gratuito, desinteressado e belo.
A partilha da amizade torna os fardos mais leves,
porque os divide ao meio,
E intensifica as alegrias, duplicando-as.
A amizade está para além das distâncias físicas…
Ela coloca música e poesia
Na banalidade do quotidiano.
Pois o amigo é uma pessoa parte de nós.
É um pouco de nós mesmos noutro corpo,
Ligado por um amor oblativo que se partilha
Nos mais ínfimos gestos de comunhão fraterna.
O amigo é porto seguro nas atribulações
E é estrela na escuridão da noite…
É o milagre do calor humano
Que Deus opera nos nossos corações…

Ana Paula Bastos (Portimão, 1955)
Professora de Educação Moral e Religiosa Católica, Formadora de Teologia, Fisioterapeuta, Mestre em Ciências da Educação.

Alberto Osório de Castro – Tebedai
Abril 24, 2011

Bailemos, bailemos à luz do luar,
Que a vida não pára, lá vai passar.
Na sombras do verde gondão de mil braços
Já voam as moscas-de-fogo aos abraços.
Reparem! Lá dançam no luar as estrelas,
Sárão todo d’oiro, doiradas chinelas.
Era uma vez um malai português
Que em todo o batuque dançava por três.
Tanto bailou com as moças alegres
Tanto bailou que lhe deram as febres.
Tanto bailou e tornou a bailar,
Que até para a cova lá foi a dançar.
Bailemos, ao som dos sagueiros.
Não têm toada mis fina os ribeiros.
Suspiros das folhas do verde gondão,
Abraços e beijos, são do coração.
Bailemos, bailemos, à luz do luar,
Que a vida não pára, lá vai passar.

Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1/3/1868 – Lisboa, 1/1/1946), juiz, escritor e poeta, ligado à revista Boémia Nova, amigo de Camilo Pessanha e colega universitário, em Coimbra, onde também eram estudantes: António Nobre e Eugénio de Castro.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Albertino Bragança – O Bairro de Riboque
Abril 24, 2011

“Foi onde vivi entre os 7 e 10 anos, e essa experiência marcou-me muito, pois representou a minha abertura ao mundo de São Tomé e Príncipe.”

Nota: Em 1985 foi publicado o romance Rosa do Riboque.

Albertino Bragança (S. Tomé e Príncipe, 1944)
Escritor e político.
LIcenciado em Engenharia Electrotécnica.

Alberto de Oliveira (Brasil) – Horas Mortas
Abril 24, 2011

Breve momento após comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica
Mas é tão tarde! Rápido flutuas
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo apenas fica
Sobre o papel — rastro das asas tuas
Um verso, um pensamento, uma saudade.

Alberto de Oliveira, pseudónimo de António Mariano Oliveira (Saquarema, 28/4/1857 – Niterói, 19/1/1937)
Poeta – “o Príncipe dos Poetas” -, professor de Português, co-fundador da Academia Brasileira de Letras, farmacêutico.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Aguinaldo Fonseca – Canção dos Rapazes da Ilha
Abril 24, 2011

Aguinaldo Fonseca

Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá …

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá …

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.
Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá …
sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.

Aguinaldo Fonseca (Cabo Verde, 1922)
Poeta.