Archive for Junho, 2011

Cecília Meireles – Canção do Amor-Perfeito
Junho 30, 2011

Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Carlos Drummond de Andrade – Amar
Junho 30, 2011

Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Carlos Drummond Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Agostinho Neto – Fogo e Ritmo
Junho 30, 2011

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.

Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas

Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto (Catete, Angola, 17/9/1922 – Moscou, Brasil, 10/9/1979)
Médico, poeta, político, 1.º Presidente de Angola.

Jorge Barros Duarte – Menino de Timor
Junho 30, 2011

Menino de Timor, estás triste?!…
Porquê?!… – Não tenho com quem brincar!
Nem com quem!… Já nem posso falar!…
A minha terra correste e viste

Como só há silêncio e tristeza!…
Assim é na palhota que habito!…
Já nem oiço na várzea um só grito!…
Só vejo gente que chora e reza!…

Que saudade que eu tenho dos jogos
Da minha aldeia agora deserta!…
O “La’o-rai”, que a memória esperta,
Co’as pocinhas na terra, ora a fogos

Mil sujeita!… O “caleic” também era
jogo apreciado da pequenada:
“Hana-caleic”!… de tudo já nada
Resta agora!… Só vejo essa fera

De garra adunca e dente aguçado
A rugir tão feroz que ninguém
A doma já, pois tem medo não tem
De um povo à fome, sem horta ou gado!…

Menino, sou, mas sofro já tanto
Como se fora de muita idade
E co’a alma cheia só de maldade!…
Jesus, tem pena deste meu pranto!…

Jesus Menino, dá-me alegria!…
Se na minha terra é tudo tão triste!…
Gente tão má neste mundo existe?!…
Coisas assim tão ruins?!… Não sabia!…

Jorge Barros Duarte (Timor, Manaturo)
Poeta e ensaísta.

Ana Mafalda Leite –Papoilas
Junho 30, 2011

estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas

o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro

aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me

qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos

coisa estranha

opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro

para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras

Ana Mafalda Leite (Lisboa, década de cinquenta)
Poetisa luso-moçambicana, ensaísta, tradutora, investigadora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, professora catedrática – brilhante, posso afirmar!

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Daniel Filipe – Como Açucena
Junho 30, 2011

Como açucena, abre-se o teu rosto
Por sobre a doce, tímida paisagem;
Serena imagem
Na manhã de Agosto.

Como magnólia, vertes o perfume
Das tuas ancas sobre o pinheiral;
Ávido de lume,
Casto e sensual.

Como pinho selvagem, te recebo
E amo no chão de areia ensolarado;
Ingénuo efebo,
Deslumbrado.

Daniel Filipe (Cabo-Verde, 1925 – Cabo Verde, 1964)
Poeta, jornalista colaborador nas revista Seara Nova e Távora Redonda, co-director dos Cadernos do Bloqueio.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Alda do Espírito Santo – Para Lé da Praia
Junho 30, 2011

Baía morena da nossa terra
vem beijar os pézinhos agrestes
das nossas praias sedentas,
e canta, baía minha
os ventres inchados
da minha infância,
sonhos meus, ardentes
da minha gente pequena
lançada na areia
da Praia Gamboa morena
gemendo na areia
da Praia Gamboa.

Canta, criança minha
teu sonho gritante
na areia distante
da praia morena.

Teu teto de andala
à berma da praia.
Teu ninho deserto
em dias de feira.
Mamã tua, menino
na luta da vida
gamã pixi à cabeça
na faina do dia
maninho pequeno, no dorso ambulante
e tu, sonho meu, na areia morena
camisa rasgada,
no lote da vida,
na longa espera, duma perna inchada
Mamã caminhando p’ra venda do peixe
e tu, na canoa das águas marinhas …

— Ai peixe à tardinha
na minha baía…
Mamã minha serena
na venda do peixe.

Alda do Espírito Santo (São Tomé e Príncipe, 30/4/1926- Angola, Luanda, 9/3/2010)
Poetisa, colaboradora em diversas publicações, Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura e Deputada, autora do hino nacional “Independência Total” .

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – António Baticã Ferreira – A Fonte I
Junho 30, 2011

 

Eis-me perto da Fonte, muito perto.
Vejo brotar a água,
Uma água clara e límpida,
Boa, amável!

Eis a Fonte:
Fica perto de Badiopor.
Junto dela nasci:
Eis a Fonte da minha infância.

Sim, eu amo essa Fonte,
Admiro-a,
Brinco,
Eu e meus irmãos, à sua beira.

Fica, fica perto de Badiopor,
Desse lugar quase sagrado,
Desse lugar ensombrado;
Badiopor, fonte de nossas almas.

A sua água nos atrai,
E acarinha-nos.
Vemo-la noite e dia;

E a Fonte que está mais perto.

Olha: a água a brotar da nascente,
Como de fonte,
Como um regato!

(Sim, parece-se mais com um regato.)

 

António Baticã Ferreira (Canchungo, Cacheu, Guiné-Bissau, 25/12/1939)
Poeta, colaborado em várias publicações, médico.

Eugénio de Andrade – Faz de Conta
Junho 30, 2011

Faz de conta que sou abelha.
– Eu serei a flor mais bela.

– Faz de conta que sou cardo.
– Eu serei somente orvalho.

– Faz de conta que sou potro.
– Eu serei sombra em agosto.

– Faz de conta que sou choupo.
– Eu serei pássaro louco, pássaro voando
e voando sobre ti vezes sem conta.

– Faz de conta, faz de conta.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Matilde Rosa Araújo – Romancinho Verde
Junho 30, 2011

Veio primeiro uma menina
Que lindo nome ela tinha!
Chamava-se ela Maria
Era bela e pequenina!

Veio primeiro uma menina
Veio descendo até à praia,
Tinha uma saia de espuma
Era branca a sua saia.

Veio primeiro uma menina
Cor de cravo o corpetinho,
Veio descendo até à praia
A andar devagarinho.

Veio primeiro uma menina
Veio descendo até ao mar,
Pés descalços sobre a areia
Levezinho o seu pisar.

E veio depois um rapaz
Que Manuel se chamava,
Veio descendo até à praia
Onde Maria já estava.

E veio depois um rapaz
De calças de cor dos montes,
Sua camisa tão branca
Lembrava água das fontes.

E veio depois um rapaz
Com modos de namorado,
E disse manso à menina:
-É tão linda a cor do cravo!

E a menina sorrindo
Parecia uma pomba a voar:
– Ó Rapaz da minha terra
É tão lindo o teu falar!

E o rapaz também sorriu
Sorriu, estendeu-lhe a mão,
E disse manso à menina:
Tu dás-me o teu coração?

E a menina abriu os braços
Para o rapaz abraçar:
Cor de cravo e água branca
Em frente do verde mar.

ARAÚJO, Matilde Rosa, Mistérios

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 18/6/1921 – Lisboa, 06/07/2010)
Contista, poetisa e novelista com prevalência na literatura infanto-juvenil, professora, licenciada em Filologia Românica.